quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Espera(r)nça


Ruim é ter que esperar. Nós os pequenos seres que habitam soberbamente esse planeta, sempre estamos à espera. Mas o ruim é ter que esperar.

Esperamos esperançosamente pela dignidade, pela sinceridade, pela verdade, pela pureza e não queremos a hipocrisia, apesar de sermos vez ou outra, hipócritas. Aqui e ali vemos pessoas bradando o que não são e o que nunca serão, mas sempre o exato oposto. Pessoas inteligentes (Ou que, pelo menos afirmam que são) ajudando somente quem os ajudam e gritam que são pessoas íntegras, pessoas corretas.

 Esperamos que outros sejam verdadeiros como não somos e esperar é ruim.

 Julgamos de cima baseados em nossas próprias crenças e descrenças, esperamos que nos compreendam e saibam que nós não somos preconceituosos, mas achamos suas crenças tão imbecis, suas filosofias tão babacas. Julgamos todos, sem nos julgarmos.

 Esperamos e esperar é chato.

Aqui estamos, naquela ladainha de fim de ano, dizendo aquilo que esperamos, vazios feitos balões de fim de festa. Nossas escolhas não são ruins, os outros erram, nós não. Mas somos os outros para alguém e somos errados sob a ótica de quem professa um fé estranha, ou quem não tem fé. Achamos ateus babacas por não acreditarem, achamos religiosos imbecis por acreditarem e no fim esperamos que os outros enxerguem o erro óbvio da sua filosofia. Esperamos.

E esperar é ruim.

São conversas pequenas, de pessoas pequenas com egos inflados feitos balões em começo de festa. Estranhamos que outros tenham aquilo que não temos, renegamos os espelhos com reflexo tão diferente e desigual, pois não nos reconhecemos como o Quasimodo, não nós. Somos os príncipes, nunca os dragões. Esperamos que os outros vejam isso e nos reverenciem.

Mas esperar é tão ruim.

Somos o resultado das nossas escolhas, mas vamos relegar os nossos desacertos a outros, nunca seremos errados. Somos os certos, isso é o que esperamos. No entanto sabemos a verdade, lá no fundo sabemos. O certo mais errado não são os outros, somos nós.

Esperamos e caminhamos.

Caminhamos sob o pôr do sol e sob o pôr do sol qualquer dúvida se dissipa e a luz e o calor no horizonte nos revelam que devemos esperar e ter esperança em nós e nos outros. Somos nós mesmos de frente ao espelho.

Sob o pôr do sol, esperar não é ruim.  

João Rogério Alencar.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Flores e água doce



            - Seja franca comigo, aonde você quer chegar? – A discussão começara há dias e parecia que não ia terminar tão cedo.

            Estavam tendo uma discussão irrelevante, sobre nada.

            - Chegar? Não se trata disso, nunca se tratou. – A discussão começara há dias e ela estava já impaciente com ele. – Quero que me responda e me diga se quer ou não que isso dê certo, pois parece que não dá à mínima.
            
            Estavam tendo uma discussão relevante, sobre tudo.

            - É claro que eu quero que dê certo, parece que para você cada palavra ou ato meu contradiz o que eu sinto por você. Quero que dê certo, claro que quero. – Disse ele.

            - Não é o que parece. – Ela resmungou e depois disse mais alto. – Não é o que parece, para você tudo está bem, quando é óbvio que não está. Estou tão cansada e você não percebe e nem liga.

            - Está sendo injusta e infantil. Como posso saber algo se você não diz? Não sou adivinho para enxergar problemas. Que, aliás, acredito (se é que existem) que não sejam tão importantes assim. – Devolveu já demonstrando toda sua impaciência com aquilo.

            - E você é insensível! – Gritou ela em resposta, já sem conter as lágrimas. – Insensível e imbecil. Chorava copiosamente.

            - Está valendo ofender agora? ­– Perguntou já um pouco arrependido.

            - Você me ofende, quando desmerece o que sinto. E o que eu considero problemas, podem não ser para você, mas são para mim. Sou eu que tenho e enxergo esses problemas e quero que você sejam companheiro e amigo. Mas quando você não é (O que acontece na maioria das vezes) Me sinto sozinha e triste. – Falou entre lágrimas.

            Ele estava já totalmente arrependido de sua aspereza e apesar de achar aquilo uma tempestade num copo d’água, não podia deixar de sentir que tinha ido longe demais. Tentou atenuar a situação e o que tinha dito:
            - Desculpe, não me expressei direito. Eu quis dizer que o que você considera um problema, eu não considero. Só considero um problema, quando ele realmente me parece um problema. É instintivo.

            - Se eu falo para você que é um problema, então é para mim. Você pode não considerar, mas é.

            - Tudo bem, me desculpe. Não quero que chore. Reconheço que fui insensível, que não levei em consideração suas reclamações e problemas, mas acho que você nunca soube lidar com isso na vida, afinal sempre teremos problemas e uma relação não se faz só com flores e água doce.

            - Eu sei que não. – respondeu ela, mais calma. – Mas gostaria que fosse assim, só flores e água doce.
            Ele a olhou nos olhos ainda úmidos e ficou profundamente encantado, como nunca ficara até ali. E percebeu o quanto gostava dela e o quanto estava disposto a continuar com ela. Decidido, respondeu:

            - Pode não ser assim, mas podemos nos esforçar. Vou buscar flores. Enquanto isso, que tal adoçar a água?

            Ela sorriu e a discussão terminou.


João Rogério Alencar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O santo do quarto de cima


         Ele tinha doze para treze anos, recém-chegado na idade intermediária entre a infância e a maturidade. Tinha quase nenhuma preocupação, acordava cedo e ia ao colégio e voltava, dedicava a maior parte de seu tempo livre a leitura, devorando as enciclopédias que juntavam poeira e passaram anos sem serem abertas. Morava de favor num quarto, junto com os irmãos e a mãe e lá viviam da melhor maneira que podiam numa situação um tanto quanto desagradável, mas ele não se importava, pois apesar de toda penúria e pobreza ele firmou na leitura e nos vários livros lidos o seu universo. Seu universo particular era um escape para o principal problema que tinha.

            Esse problema era bem específico, no quarto acima do seu morava um homem. Um homem agressivo e perturbado que tomou para si a tarefa de importunar e aterrorizar sua pequena família. O garoto tinha consciência do homem e nunca se importou com ele, nem ao menos lhe deu mais importância do que tinha, vivia e tentava ignorar sua existência, ignorar todo o terror que ele tentava impor, os palavrões e cuspes quando passava embaixo da janela do quarto dele, os gritos e sons perturbados que vinham do cômodo, o cheiro fétido da droga e as seringas que vez ou outra ele viu. Ignorava tudo isso. Até que uma noite, uma das piores que o garoto jamais esqueceria, ele viu sua mãe sentada na cama do pequeno quarto, abraçada com o mais novo dos seus irmãos tremendo de medo e aflição, pois podia ouvir acima de todo o som e barulho que vinha do quarto de cima o nítido som do homem arremessando sua cabeça contra a janela do seu quarto e gritando frases desconexas de ódio e desespero. Pela primeira sentiu medo, medo do mal que aquele ser poderia causar para sua família, medo por eles e por ele também. O barulho continuou noite adentro e na madrugada. Só parou pela manhã. “Talvez”, pensou o garoto, “ele tenha desistido”. E com esse pensamento, o garoto adormeceu.

            Acordou com os gritos do homem tentando invadir o quarto e sua mãe tentando impedir e seus irmãos chorando. Levantou-se e tentou impedir o homem de conseguir abrir a porta, mas não teve forças. A porta se escancarou e ele encarou o homem com medo e, no entanto decidiu resoluto que, ele não faria mal a sua família. E quando gritou para ele ir embora notou as veias inchadas do braço do homem e todo o ódio no olhar dele. O homem o encarava, mas para sua surpresa nada fez, ficou ali por um tempo olhando e com um sorriso odioso saiu. O garoto percebeu que o homem queria medo e não enfrentamento, isso não impediu ele de continuar tentando disseminar o horror naquela família.

            Algum tempo depois o homem foi morto, tinha ameaçado alguém que não esperou que ele cumprisse a ameaça. E quando isso aconteceu, o garoto ficou surpreso, pois a família do homem sempre que se reunia, relembrava o quanto o homem era bom, seus feitos, a saudade que ele deixou e ignoravam toda a maldade que emanou dele. Chamavam aquilo de perdão. O garoto chamava de cinismo. E pensava: “Na sua morte transformaram o demônio em santo”. Mas até hoje o garoto, já homem, não se deixa enganar, não esquece. Sabe muito bem que tipo de ser morava no quarto de cima.


João Rogério Alencar. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O mês de minha reverência


Gosto desse mês. Pergunto-me o porquê, se é algo relacionado ao ego, relacionado ao fato de eu ter nascido nesse mês? Não acredito nisso, pois nunca me importei muito com aniversários e coisas do tipo. Não partilho da importância que outros têm em relação a isso, não acredito em sua relevância a não ser para nos lembrar do eventual fim. Esclarecido isso, posso dizer sem dúvida alguma que sou um chato, mas isso eu já sabia, como bem sabem os que me acompanham pelo curso da vida. Não, não sou um entusiasta do mês por aniversariar nele, disso tenho certeza. No entanto, gosto dele particularmente mais do que dos outros onze, tenho por ele certa admiração. Estar nele, sendo os meses nada mais que um espaço de tempo criado pelo homem para sabermos que a lua deu a volta ao redor da Terra, me faz bem.

Há de se pensar na causa disso. Alguns escolhem outras partes da vida para recarregar suas baterias de alma, algo como abraços e cafunés, conselhos ou até mesmo o saciar de algum desejo. Outros escolhem uma nova tarefa, um novo desafio, uma nova fase. Eu escolhi o mês de Outubro para isso. Para recarregar a alma. Achava que tinha escolhido aleatoriamente, pois sempre pensei nele e nunca em outro para estar bem. Sobretudo num ano mais difícil, onde tantos julgamentos e reprovações ocorreram, onde alguns amigos não foram tão amigos, ou por não concordarem com certos atos, ou porque não tiveram tempo para tanto, ou ainda em último caso, por não se importarem. Acho que minha passagem de ano ocorre aqui e não em dezembro, minha passagem de ano acontece aqui, onde me vejo só, tal qual quando eu nasci. Onde eu reavalio as condições sobre as quais eu tomei decisões e se elas foram ou não acertadas. Onde reavalio (porque não?) amizades e afetos. Sou e sempre serei resultado das minhas escolhas, mas sempre que posso as revejo e reavalio. O mês me faz melhor e eu não sei por quê. Achava (como já disse) ter escolhido aleatoriamente e acreditando nisso deixei de me importar nos porquês. Mas sempre têm um “porque” e eu só não descobri ainda.

Quem sabe o mês não me faz bem só por ser ele? Ou por que alguns grandes amigos também se encontram nele para celebrar (da forma que mais os agradarem) seus próprios aniversários? Ou ainda um irmão que também nascido nesse mês me faça um bem enorme só por existir? Não, eu não sei. Só sei que Outubro me faz bem como um abraço de uma mãe amorosa, como um sorriso alegre do meu pequeno, como uma aurora depois de uma noite infindável. Faz-me bem como amigos que, distantes, de repente aparecem para renovar os votos de amizade, como um conselho fraterno proferido através do Atlântico. Faz-me bem como uma lembrança agridoce de um bolo feito com água ao invés de leite.

Faz-me bem e isso é tudo. Por isso o reverencio, pois boas coisas merecem reverência.


João Rogério Alencar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo demais


Caminhava feito um idiota, cambaleava na verdade. Estava bêbado, tão bêbado que não sabia mais o caminho de volta para onde morava. Olhava morosamente entre as faixas largas da passagem de pedestres, como que decidindo se ia ou ficava. Resolveu ir, caminhou através da faixa ignorando o sinal fechado para ele, reteve-se por alguns segundos, que na sua condição total de embriaguês deve ter levado horas. Alguns motoristas esperaram ele passar, outros mais apressados aceleravam e freavam durante o caminho incerto do homem. Devia ter bebido muito, mais do que jamais bebeu, uma comemoração? Um afogamento de mágoas? Ele próprio não saberia dizer, mas ele continuava rumando para seu destino que nem ele mesmo sabia. Ou sabia? A cena era comicamente cruel, daquelas que nos fazem rir e sentir remorso ao mesmo tempo. Conseguiu chegar ao outro lado ileso, graças à paciência de alguns. No momento em que alcançava a calçada o sinal abriu para pedestres, ele seguia seu caminho, pouco se importando, ou notando os olhares críticos de algumas pessoas, assustados de outras e debochados de mais alguns. Seguia seu rumo.

Ele ia e vinha, mas seguia em frente e conforme caminhava não sorria, nem chorava. Só ia. Um pouco à frente tropeçou num desnível de calçada e caiu. Seus braços lentos, pelos reflexos prejudicados pela sua condição, não o acompanharam na queda e seu rosto foi de encontro ao chão sem nada para aparar ou diminuir o impacto. Outros segundos se desenrolaram, e ele lentamente sentou-se, para depois levantar. Limpou com a parte externa da mão o sangue e continuou. Ninguém o interrompeu ou ajudou. E ele seguia. Virou uma esquina, andou torto pela rua seguinte, que era reta e finalmente chegou ao seu destino. Um casebre a meio caminho de nada, das partes esquecidas e brutais da cidade. Abriu a porta de casa com certa dificuldade. Olhou para dentro e na luz do crepúsculo ainda conseguiu enxergar. Adentrou a sala, que era na verdade o único cômodo além do banheiro. Sentou-se no velho sofá, pegou um retrato manchado pelo tempo, pela vida e agora pelo sangue dele próprio em suas mãos.

Olhou profundamente para a imagem e chorou. Chorou, pelo tempo que não teve, por todas as oportunidades desperdiçadas e sobretudo pelos filhos que abandonou. Ali estava só e bêbado. Foi ao banheiro, lavou o rosto e o corpo tentando se livrar do cheiro e do gosto de álcool. Voltou à sala, deitou-se no sofá sem se enxugar, pegou a foto e dormiu.

Pela manhã acordou, sem dor de cabeça e sem ressaca. Olhou novamente para foto no chão da casa. Tomou mais um banho e resolveu mudar tudo. A solidão, a bebida e a sua ausência da vida daqueles que ele gerou. Arrumou-se da maneira que pôde, colocou sua calça menos surrada, seu par de meias menos furadas. Pegou a foto, colocou no bolso da blusa junto com uns trocados sobrados do dia anterior. Foi até uma banca de jornal, comprou o cartão telefônico e rumou ao orelhão, o único que não fora depredado pela ignorância dos vândalos que habitam quase todos os lugares. Estava vazio, mas quem usa orelhões hoje em dia? Parou, não tinha a coragem de ligar e se ligasse, será que o número no verso da foto ainda pertencia a eles? Eles o aceitariam de volta? Resolveu ser otimista pela primeira vez na vida. Colocou o cartão e discou. Um toque, dois toques, uma eternidade de toques. Alguém atendeu, ouviu um alô, que ele respondeu com um débil e quase inaudível alô.

Um tempo exaustivamente longo se passou, e a resposta ao seu alô foi:

- Pai? A voz feminina perguntou.
- Sim. Ele respondeu. E começou uma série de desculpas e choros, tentando se justificar, tentando fazê-los entender seus motivos e seus erros. Até que depois disso tudo, depois de todas as explicações que dera, estava pronto para ouvir um “Até nunca mais”. Ele ouviu:
- Venha para casa. Não quero saber os motivos que o fizeram ficar longe, só te quero aqui. Venha logo, meu pai.
Ouviu aquilo incrédulo, esperava raiva e rancor e não compreensão e amor.
- Tem certeza, filha?
- Sim, tenho. Estamos te esperando, venha.
Sorriu e sentiu-se feliz como nunca, iria até eles claro. Mas antes, pensou, uma bebidinha para comemorar.
Duas semanas depois, encontraram seu corpo em seu casebre. Havia esperado tempo demais.

João Rogério Alencar.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Manhã de Segunda


                Acordei numa segunda feira, pronto para ter o meu mau humor habitual. Ainda de olhos fechados pensava no porquê de existir segundas, só para o desprazer de ter que levantar e enfrentar o começo da semana. Semana que começou no dia anterior, diga-se de passagem, mas a segunda nos faz esquecer isso. Os problemas retornam com força numa mente ainda fechada para a luz do dia, todos os pensamentos voltados para as possíveis soluções, os pagamentos a serem feitos, as situações difíceis do dia a dia aparecem com mais força, tudo parece mais pesado, mais cinza, menos alegre numa manhã de segunda. Sem me esforçar resolvo continuar mais um pouco na cama, o que é esperado de mim pode esperar mais um pouco. Não quero ver nem resolver nada hoje, decido.

                Ainda negando que devo levantar-me e ir à luta, continuo com os olhos fechados, esperando o tempo me dar mais uma folga e que as cobranças auto impostas desapareçam aos poucos. Sei que não vão, mas espero mais um pouco, tentando sonhar em coisas mais agradáveis e melhores. Nada me vem à mente e espero um dia menos agradável do que eu queria, não tem jeito nada é como nós queremos numa manhã de segunda.
                Ouço um barulho e meu filho acordado está na minha cama. Para todos os efeitos eu continuo dormindo. Ele vem ao meu lado, ouço o sua risada pura, ele se deita e me abraça. Ele ainda está rindo quando eu abro os olhos e nunca um sorriso com tão poucos dentes foi mais bonito. Nessas horas tudo se apaga e cada problema se desfaz num simples gesto. Levanto já sabendo que nada poderia me aborrecer, pois a simpatia na sua forma mais inocente me mostrou isso.

 Nunca uma manhã de segunda foi mais leve.


João Rogério Alencar.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Povo inteligente


Eu gosto de futebol. Até aí essa afirmação não quer dizer absolutamente nada. Muitos gostam de futebol, tem ídolos em seus clubes e comentam cada jogada como bom entendedor do assunto. Eu deixei de comentar, online ou no mundo real sobre futebol, porque felizmente (felizmente sim) é um assunto que desperta uma paixão primitiva, daquelas em que deixo totalmente a razão de lado tal qual primata recém-evoluído que difere o certo e o errado, mas não está nem aí.

Eu gosto de futebol e não tenho uma razão específica para dar do porque gostar do esporte e nem quero, é parte da minha formação como pessoa, como ser pensante (ou talvez não visto que é uma paixão). Gosto porque gosto e é isso.

Eu vinha desgostando da seleção, sobretudo depois da copa de 98 que mil teorias da conspiração surgiram e que me vi sem saber no que acreditar, não vibrei com a copa de 2002 pelos mesmos motivos teóricos. Com o tempo percebi que o problema não era a seleção em si, mas quem puxava as cordas por trás dela. Virei um crítico, (como tantos) dela, da Confederação que a gere e consequentemente, de tudo que está tão errado no Brasil. Sim eu passei a ter uma visão política quando percebi as coisas erradas que permeavam o futebol. Uma coisa não está dissociada da outra, como querem muitos. Posso estar errado, mas esses que creditam ao futebol uma maneira de manter o povo passivo são os mesmos que criticam as organizações globo de usarem sua mídia contra o povo e a favor de interesses escusos. Há muito tempo aprendi que criticar a globo virou argumento de pseudointeligente nas rodas das conversas, ou nos fórum na internet. Por quê? Bem porque é fácil falar mal, difícil é desligar a televisão. “Mas”- dirão alguns – “Eu só assisto Sportv ou Bandeirantes para ver os jogos”, ou ainda “Só ouço rádio”, “Detesto o Galvão” e blá, blá, blá. Discursos prontos de, pasmem (ou não), quem é contra a manipulação de informação. Ninguém desses críticos tem opinião verdadeiramente própria. Porque não tem inteligência (ou paciência) suficiente para ler sobre qualquer assunto. Enfim volto para ao assunto principal, que me fez começar a escrever isso, que é a mania que se tem de agora criticar quem gosta de futebol.

 Como gosto do esporte e sempre o acompanho quando posso, não posso deixar de notar como estamos vivendo essa era de incertezas políticas e econômicas, vários foram publicações em murais e afins criticando o esporte como se ele fosse culpado, e não a permissividade em geral do povo. É cômico como se comportam esses revoltados de ocasião.

Todos muito politizados (enquanto puder ganhar um curtir que mal tem?), todos certos do que pode e não é feito nesse gigantesco país, mas nenhum com saco para ler meio parágrafo da constituição. Criticam de tudo sem saber de nada. Menos ainda de futebol. Não acabem com a única coisa que ainda nos faz ter certa identidade nacional. ”Mas João, eu critico o futebol por que sou inteligente, eu me manifesto também pela mesma razão” e o problema não é quando afirmam isso, o problema consiste quando acreditam nisso. Porque essas manifestações só serviram para mostrar o quanto é inocente esse (Ufanismo? Tirado de uma propaganda? Sério?) bebê gigantesco que acabou de acordar. Eu gosto de futebol e voltei a gostar da seleção. Isso não me faz  um alienado, ao contrário desse povo inteligente.

João Rogério Alencar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O encontro com a deusa


                Entrei no trem e sentei-me. Calculei quanto tempo levaria até o trabalho e constatei que iria me atrasar. Nada anormal, afinal levei quase quarenta minutos só para chegar à estação num percurso que deveria demorar no máximo quinze. Pensei em colocar os fones de ouvido e fechar os olhos para que a viagem fosse um pouco menos desconfortável. Não consegui, pois no exato momento em que ia ligar o rádio do celular comecei a escutar uma conversa alheia, foi inevitável não ouvir. A conversa era permeada de vozes agudas e altas, num tom sério e solene, um casal ao meu lado falava:
                -Não sei em que ponto as pessoas hoje podem viver sem acreditar em nada, mundanas e omissas quanto a todos. –disse o homem. –você observa essas pessoas que hoje vivem em função do seu próprio bem e não se importam com ninguém, é um erro. Por isso eu gosto daqueles que protestam e gritam nos últimos dias.
                -Será que vai dar em alguma coisa isso? Será que eles sabem no que isso vai dar? -Perguntou a mulher
                -É claro que eles não sabem, mas são instrumentos para um bem maior, pois a sociedade só vai crescer quando enxergar que não existe solução para todos os nossos problemas se nós não nos unirmos. Contra esses que governam e que estão aí para roubar nosso dinheiro e não fazer nada. Políticos imundos eu digo, não mereciam estar onde estão. Nós vivemos mal enquanto eles nadam nesse mar de impunidade. Somos nós, somente nós que podemos mudar, para sermos melhores seres humanos. (Nesse ponto o homem viu que tinha atraído à atenção de todos no vagão e aumentou seu tom de voz, pois a conversa tinha virado um discurso) - Somos todos roubados, precisamos de mais! Precisamos de respeito, porque meus amigos, sem respeito não somos nada! E eles, esses políticos, não nos respeitam e nós não fazemos nada. NADA! Assinamos atestados de idiotas perante eles e aposto com todos vocês que estão lá a rir desses protestos. Não temos nada, nem saúde, nem amor ao próximo e muito menos educação, e eu repito: ESTÃO RINDO DE NÓS! Gritou alterado.
                A mulher que conversava com ele, colocou a mão no seu ombro e cochichou algo, talvez para o homem se acalmar e voltar para a conversa com ela. Isso só o inflamou mais e ele continuou:
                - Não vou parar, eu tenho que falar que nós não temos educação e isso é horrível! Ninguém aqui tem noção do quanto à falta de educação incomoda!
                - Sua falta de educação em gritar seu discurso me incomoda senhor. – Falou uma mulher jovem sentada do outro lado.
                O homem bufou indignado em direção a ela, apontou e disse:
                - Reacionária! É o que você é. Vive acomodada com sua vidinha. Por isso o país está onde está, você com seu telefone novo e suas noções equivocadas é que atrasam e ajudam a corromper tudo nesse lugar.
                - O senhor não é só mal-educado, como também critica as pessoas sem nem ao menos conhecê-las. – respondeu timidamente a moça. – Aliás, quem é você para falar de educação se há duas estações atrás entrou essa senhora grávida e parou na sua frente e o senhor nem se dignou a levantar para dar lugar a ela?
                O homem parecia que, só naquele momento tinha percebido a mulher grávida (e confesso eu não tinha visto.) ficou claramente desconcertado e se levantou dando lugar a gestante. Então alguém falou:
                - Se você viu a mulher grávida em pé, por que não se levantou moça? Perguntou uma idosa num outro ponto.
                -Porque sou mulher. Respondeu a moça - Os homens é que tem que se levantar.
                -Nada disso. Respondeu um terceiro. Direitos iguais, vocês mulheres não lutam por isso?
                -Que isso tem haver? Perguntou um quarto.
                A discussão se generalizou, virou confusão. Todos discutiam com todos e logo descambou para ofensas, um homem chamou outro de corno e a coisa ficou feia. Levantei-me e saí na estação mais próxima e acabei tropeçando na hora de sair. A mulher grávida que tinha saído também e me ajudou a levantar. Percebi enquanto o trem ia embora que tinha a confusão tinha descambado para a pancadaria. Olhei para a grávida e notei que ela sorria.
                -Obrigado, por me ajudar. – eu disse. –Porque sorri?
                Ela me olhou e disse:
                -Me chamo Éris. –disse a mulher.
                Eu ri e perguntei:
                - Éris? Como a deusa? Veio semear a discórdia?
                Ela novamente me olhou e respondeu.
                - Não. Eu vim aprender. Sorriu francamente.
                E desapareceu, bem diante dos meus incrédulos olhos.

João Rogério Alencar.

               

               

               
                

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Naquela época


                Eu tenho lido, ouvido e assistido um monte de gente saudosista, relembrando os velhos tempos, que eram melhores, que os bons tempos são os velhos tempos. Não sei se concordo muito com essa opinião. Não sei por que minhas lembranças dos velhos tempos não são tão agradáveis como deveriam, como vejo a maioria falando. Talvez os critérios seguidos para se eleger os “velhos tempos” como os “melhores tempos” não sejam os meus critérios. Talvez minhas experiências não me remetam a nostalgia que parece ter tomado conta dos habitantes do tempo atual, entretanto entendo essa vontade de voltar a outro tempo, onde podemos nos lembrar das lembranças alegres ou da total falta de responsabilidade da juventude.

                De qualquer forma, não concordo com essa máxima dos “velhos e bons tempos” por uma premissa bem simples: Não inventaram uma maneira de voltarmos ao passado! Não vão inventar provavelmente e por isso os velhos tempos não podem ser os melhores, pois não se vive no passado. Nem no futuro. Só da para viver no presente e é nesse presente que devemos ser e fazer o melhor possível. Parece chavão comum, e é, mas é também uma verdade. Só dá para viver agora. Voltar é impossível, viajar dez, vinte, trinta anos no futuro também. Só existe o presente. Não tenho esse sentimento de perda em relação ao passado, pois pelo que me lembro (e isso é subjetivo) o passado não era tão agradável assim.             

              Ora quero pensar no passado com saudade de um tempo que se nega a voltar. Quero olhar o passado, como ele é. A junção de toda a minha experiência, das minhas lembranças, dos amores perdidos, da incerteza em como eu ia me virar como adulto. Não tenho esse desejo que tudo volte a ser como antes, em que eu tinha mais cabelo e menos dinheiro, que eu jogava bola no asfalto quente descalço e não num campo de grama sintética, em que tinha que esperar os donos dos livros lerem a história para poder me emprestar. Foi bom para eu dar valor ao que eu tenho? Sem dúvida! Não tiro o mérito das experiências que formaram meu caráter, só não sinto falta delas.

As pessoas só desejam os “velhos tempos” de volta porque as lembranças boas sobrepõem-se as ruins, porque é fácil esquecer que as dificuldades passadas eram tão grandes (senão maiores) quantos as de hoje. Parece uma pegadinha do subconsciente, em que o passado só é bom porque deixamos de lembrar o que era ruim na época. Não quero voltar a minha adolescência, muito menos a minha infância, sem preocupações, sem responsabilidade, sem grana, sem nada, porque era solitária e fria. Quero beber em homenagem ao passado. Só porque ele me tornou e me levou onde estou agora. E se foi só para me tornar pai do meu filho, melhor assim. Não acho eu que vou fazer alguma coisa mais importante que isso e nem que vou me importar mais com algo que eu vir a fazer do que isso. Só por isso o passado tem alguma importância para mim. Nostalgia é bom só para conversar.

Eu não costumo beber (como muitos sabem), mas hoje eu quero beber ao passado e ouvir de um amigo:
- Você lembra? Naquela época?

João Rogério Alencar.

domingo, 2 de junho de 2013

Inspirações e risadas

Tinha tanta coisa para escrever aqui.  Começo de mês, meio de ano, mas as palavras se perderam essa semana. Tinha tanto para falar, talvez revelar. Coisas perdidas no meio de tudo, coisas achadas no meio de nada. Tinha tanto para expressar, reviver, e conviver. Tinha o que dizer, mas perdi a fala na primeira frase. As inspirações eram muitas e, no entanto nenhuma me encorajou a sentar e escrever, então me restou escrever sobre não escrever. O que por si só já um paradoxo, mas eu gosto de paradoxos porque são tão reais nos dias atuais. No mês que se inicia o meio do ano, tenho uma maneira menos otimista (mais realista, ou seria relativista?) de encarar as coisas e os fatos da vida e isso reflete talvez a minha atual inépcia em escrever. Certa preguiça ensejada por mim mesmo, meio que encorajada a ficar por aqui e me impedir de escrever, pois não posso negar que existe inspiração até em insetos. E se isso não for suficiente, tenho aqueles tipos de reflexões em como andam as coisas, os progressos na vida, se ela vai em frente ou estagna de vez. Esse tipo de coisa dá o que pensar, e consequentemente no que escrever.

         Não reclamo, pelo menos na maioria das vezes. Eu tinha muita inspiração e há mais ou menos dois meses atrás ela se foi. Mesmo assim continuo escrevendo, porque acredito que quanto mais escrevo vou ficando de ruim para (porque não) mediano e isso impulsiona outros projetos. Essa inspiração não vai voltar, mas procuro outras. Sei que elas estão por aí. Num comentário reflexivo sobre vida entre dois estranhos, num gesto de euforia de uma criança descobrindo seu reflexo num espelho, numa reclamação do quanto é caro viver nesse lugar. E num suposto amigo desacreditando a capacidade de alguém, provando sua própria mediocridade em comentar somente sobre o alheio, numa prova que a vida tem sua parcela de inveja e de incapacidade, sobretudo dessa última.

Não reclamo, porque quero essas provas e essas inspirações, quero tirar o que puder delas, verbalizar as coisas com sentidos que supostamente refletem parte daquilo que senti na hora que me veio. Quero olhar as coisas fora dos tons preto e branco, quero diminuir a quantidade de café ingerido. Quero ter mais paciência, com as pessoas ao meu redor, com as falácias dos covardes, com os egocêntricos ao extremo. Que tomem decisões e as cumpram, mas eu espero dos outros, o que espero de mim e isso é egocêntrico também. Só não quero mais a inspiração que se foi e quero que de fato se vá. Que desabite a minha mente, que pare de povoar os pensamentos de “e se”. Isso é essencial para que as ideias voltem a florescer sem sombra do que se perdeu. A capacidade de me enganar já foi mais forte em mim, assim como a minha imaginação, mas uma não é inerente à outra, quero acreditar que não sejam. Os motivos torpes que movem o ego não me interessam mais. Engraçado perceber que no fim a inspiração veio como desabafo. De uma comicidade cruel. Não seriam todas as piadas de certa maneira cruéis com alguém?

“Só se percebermos a quem foi direcionada” eu penso a resposta.

Não reclamo. A inspiração que se foi fez o mal que tinha que fazer (tentando fazer o bem? Não sei! Essa será para sempre minha dúvida.) e foi-se tarde, eu diria. Termino rindo, pois as boas piadas sempre terminam com risadas, nem sempre felizes, mas risadas mesmo assim.
João Rogério Alencar.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O lago espelho



                Sorveu o ar com força. Tinha sido um mergulho longo, a água estava mais fria que de costume e por estranho que possa parecer mais espessa, como se algo quisesse impedi-lo de mergulhar. Estava cansado com a subida das profundezas do lago, aquele lago que lhe inspirava temores quando criança, aquele lago que ele venceu quando adulto. Aquele lago que era seu refúgio particular nos tempos difíceis e o lugar ao sol para os tempos felizes. Respirou na superfície e boiou por um tempo. Ficou fitando o céu para onde iam todas as preces do mundo. Para onde olhavam os também descrentes, que não creem em nada além dos que os próprios olhos veem. Nadou até a margem, sentou e esperou que o sol fizesse sua parte para seca-lo.

               - Esperando alguém? Alguém perguntou, atrás dele.
Virou-se, esperando encontrar um senhor, pois a voz era rouca, mas quem falou não era um homem e sim uma senhora.
- Está esperando alguém, rapaz? A pergunta foi mais incisiva.
- Desculpe-me, eu não a vi aí. Achava que estava sozinho, acabei devaneando enquanto olhava o lago. Mas respondendo à sua pergunta. Não estou esperando ninguém.
- Tudo bem, é de minha preferência não ser notada, às vezes venho aqui sozinha para sonhar também. Tossiu e continuou. – Posso sentar?
- Claro. Sente-se, afinal não sou o dono do lago. Respondeu prontamente.
- Qual seu nome? A velha senhora perguntou, depois de se sentar e tossir mais uma vez.
- Meu nome de batismo é João, mas às vezes penso que meu nome real é Bellator. – e o seu?
- Me chamo Lucíola, respondeu ela com mais uma tossida.
- Tem um romance com esse nome, mas esqueci-me quem é o autor.
- José de Alencar é o autor. Eu sei por que perguntei muito tempo atrás qual era a origem do meu nome. Tempos depois eu li o romance.
Fez-se um silêncio, o vento se fazia escutar e formava pequenas marolas no lago, após um tempo Lucíola falou:
- Seria bom se pudéssemos escolher nosso próprio nome não é? Não vejo impedimentos em relação a isso, mas poucas pessoas escolhem o próprio nome, pois já se convencionaram ao que escutaram desde sempre. Seria menos prejudicial do que escolher fumar, por exemplo, escolher o nome seria libertador. Fumar é libertador também, mas acaba com o pulmão e com a garganta, como minha voz rouca denuncia.

Disse isso e riu uma risada que se tornou logo uma tosse, e continuou:
- Já te disseram que o nome que você escolheu é ridículo? Meio sem graça? Meio infantil?
- Já. Uma vez. Respondeu um pouco envergonhado.
- Então eu digo que essa pessoa que disse isso é uma acéfala, imbecil, pois te julgou e nem soube dizer o porquê, não sabia os motivos de sua escolha de nome, como já disse a escolha do próprio nome deveria ser nossa, sei lá quando fizéssemos quinze anos ou dezesseis anos. Eu sei o que significa seu nome, acho belo. Afinal se escolhemos tudo, por que não o nome? Eu escolhi minha vida, cada passo dela. Fiz exatamente o que queria e isso me levou onde eu estou. Nada deveria interferir nas nossas escolhas, mesmo as mais sutis como escolher que filme vai ver à noite ou o que comer vendo esse filme. Nada! A última palavra foi gritada, e ele percebeu que aquilo era um desabafo. Ela gritava e olhava para o lago, como se ele pudesse escutar:
“Nada! Eu escolhi estar aqui! Sou minha própria escolha de vida, sou o meu resultado e de ninguém mais. São minhas escolhas que estão aqui, nenhuma foi imposta, todas foram minhas. Saiba você que tirou de mim tudo o que eu tinha menos a minha vontade de viver.”

E voltou-se para o rapaz sentado na beira do lago, com o rosto riscado por duras lágrimas e disse:

- Estava à espera para falar isso há anos. Eu precisava responder ao lago, acho que a água é o mais próximo de divino que temos nesse mundo sem fé. Eu não queria fazer isso sozinha. Precisava gritar com ele. Essa é minha redenção e minha escolha, as pessoas são covardes às vezes e essa covardia afeta alguns ao redor. Num momento parece que queremos algo, mas quando temos certeza disso vem alguém e diz que você não pode, que não é mais aquilo que queria, que não tem certeza e pisa no seu coração. Conheci alguém assim. Meu grito é para esse alguém.
- Tudo bem. Ele disse. – Todos nós precisamos jogar fora o que nos faz mal, para podermos continuar não é senhora Lucíola?
- Ah sim, temos sim. Ela se levantou, tossiu mais uma vez. – Sabe rapaz, meu nome não é Lucíola. Esse foi o nome que escolhi para conversarmos.
- Por quê? Ele perguntou.
- Porque é mais fácil ser outra pessoa quando vamos desabafar. Porque assim eu digo o que tenho que te dizer, você ouve o que quer e nenhum de nós sai daqui o mesmo. Porque às vezes devemos gritar, para então perdoar.
                “É por isso que estou aqui. Para perdoar os covardes, que conheci pelo caminho. Para perdoar aqueles que escolheram morrer sonhando, do que viver realmente.”
                - Parece-me uma maneira cruel de julgar as pessoas. Ele disse. – Afinal quem pode saber o que motiva alguém a fazer algo? E se souberem, quem pode julgá-los por fazerem a escolha mais segura? Você mesma me disse que seu nome não é o que afirmou que era a pouco. Desculpe-me mais isso me parece covardia também.

                Ela sorriu e disse:
                - Mas eu não estou perdoando os outros. Ou você ainda não entendeu?
                - É sua redenção, então? Se for, porque aqui?
                - O lago é um espelho. Ela o fitou séria. – O lago é meu espelho e quando nos deparamos com nós mesmos, devemos nos congratular ou nos perdoar, tudo depende da vida que levamos até então. Tudo depende de como você se encara. Depende do nome que escolhe para ser seu.
                A velha senhora deu um aceno e foi embora.
                Ele ficou ali, encarando o lago. Encarando a si próprio, enquanto as horas passavam e a conversa ecoava em sua cabeça.

João Rogério Alencar.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Nope. Que haja Hope!



                Dia desses fui convidado por um velho amigo para um café, nesse encontro ele me contou de uma época da sua vida. Sobre uma época em que nada deu certo e que tanto profissionalmente, como no casamento sua vida não ia nada bem. Ele queria mesmo fugir. Queria sair de toda aquela aflição que o estava consumindo. Pois bem esse meu amigo, acabou por me contar todos os seus problemas, que não vou expor aqui, mas num breve resumo as coisas estavam realmente bem ruins. Eu perguntei como ele passou por tudo aquilo. Ele me olhou sério e disse que ia me contar algo muito pessoal e contou que o que o ajudou de fato foi uma alucinação, uma alucinação onde ele estava fugindo de todos os seus problemas que haviam tomado forma. Estávamos na varanda de sua casa enquanto sua esposa estava na sala.  Segue abaixo o relato em terceira pessoa do que me contou:

                Na fuga que se seguiu queria um portal que só ele deveria passar. Para fugir de sua própria fuga ia caminhando no ermo da própria existência, esperava que nada o alcançasse, nada que daquilo que estava fugindo, pudesse de alguma forma o encontrar. Ele queria sair do lugar que se encontrava e restaurar a si mesmo, esperando que o tempo que tinha fosse suficiente, suficiente para seguir em frente. Eram tantos os problemas, tantas as aflições que fugir era a única coisa a se fazer. Fugir era o que restava, uma vez gabara-se que nunca tivera medo depois que alcançou a maturidade. Dizia que o medo era para os fracos de espírito, mas se não tinha medo então porque fugia? Porque não encarar a situação toda de frente? Tantas eram as frentes que não soube por onde começar e sabia que era errado fugir, mas precisava de uma porta, uma esperança que deveria atingir e deveria pulsar. Um fio invisível, que o forçasse a continuar, porque como estava não dava. Do jeito que ia não dava para continuar. Só precisava de um pouco de ar, uma coisa diferente que desse a ele um novo jeito de enxergar a situação que o abrangia e que tornasse mais fácil encarar. Queria um sopro de ar renovado, um copo de água limpa, queria sorrir sem reviver os problemas, sem ter que encara-los de fato. Ali onde as estradas se cruzam, era onde ele tinha parado. Revivendo cada segundo que impetuosamente saiu à procura de fuga.  

                O local era aquele onde as pessoas tomam decisões que levam ao arrependimento letal de uma vida ou a verdadeira consciência que a decisão tomada foi à correta. A fuga não era é claro, de ninguém mais além de si. De seus próprios erros de julgamento, coisas que o arrependimento não ajuda a melhorar. Ali se encontrava, onde o mundo bifurca a vida. Ali onde havia a possibilidade de fuga, ali onde a verdade se encontra com a mentira, onde as ambiguidades se tornam unas. Ali era o local da escolha. A fuga para um lugar novo, onde a vida só permitia a redescoberta dela mesma ou a coragem para não fugir e encarar o que não queria. Ambas as escolhas eram incertas, ambas tem as vantagens do término. A primeira para um novo local e a segunda para o mesmo. Então qual seria a escolha? Fugir ou lutar? Ele ponderava suas opções, mas o tempo não é aliado de ninguém na maioria das vezes em que se precisa dele. Cada vez que pensava em uma, a outra opção parecia mais verde e viva. Na aflição dos segundos que passavam, ele cada vez menos sabia o que ia escolher e era questão de tempo que tudo o que estava o perseguido o alcançasse. Nos momentos conflitantes ele perdia tempo, na escolha de sua vida perdia um pouco mais de tempo de vida. FUGIR OU LUTAR? Sua mente gritava. E então, quando não havia mais nenhum tempo, quando não havia mais esperança (como é conveniente em casos como este) tomou sua escolha.
               Meu amigo estava sentado na sua varanda, num fim de tarde. Conversou  a serio comigo a respeito disso, me falou do desespero da fuga, da inconstância que passou. Contou-me tudo, todos os seus problemas, que não eram poucos, e todas as suas angústias, as aflições que sua mente não parava de mostrar. Já no fim do seu fantástico relato eu perguntei:

                - Porque voltou?
                - Eu voltei, porque era o que eu devia fazer. Foi sua resposta.
                - Mas e a fuga? E o portal? Não pareciam mais seguros? Não deveria ser essa à escolha óbvia?
                - Eu sei. Parece que a minha volta é meio insensata, mas sabe o que eu descobri meu amigo? Na hora que tudo ia explodir e que a fuga era o mais certo a se fazer, eu me lembrei dela. Da convicção em que acreditavam em mim e me lembrei. Lembrei-me que existia um portal, que existia sempre um lugar para onde fugir.
                - E qual é afinal esse lugar? Onde fica afinal esse portal?!? Eu perguntei já impaciente com aquilo.
                Ele sorriu, esperou um pouco, apontou para dentro de casa e num sussurro me falou:
                - Nos lábios dela.
                                                                                                                                 João Rogério Alencar.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A comemoração do menino.



Acordou às quatro e meia, sem noção que era madrugada ainda, pegou-o no berço e tentou por uns minutos nina-lo, mas ele não queria mais dormir. Com os olhos bem abertos, estava sorrindo, brincalhão jogava-se nos braços do pai avisando-o que não iria mais dormir e o pai atento sorriu, mas tinha que trabalhar a três horas, três horas de sono que não teria mais. A criança sorria e queria brincar, era seu tempo, pois se não há noção de tempo então qualquer horário é bom para se fizer o que bem entende.  Estavam ali, os dois; o bebê insone e o pai sonolento. Qual dos dois estabeleceria sobre o outro sua vontade? Nunca tinha feito aquilo de acordar e continuar acordado, sempre acordava, sorria e voltava a dormir. Não dessa vez. Dessa vez ele queria brincar, gritar também e bater com suas mãos para fazer bastante barulho. O pai o colocou no chão e estava feita a vontade dele, saiu correndo um pouco bambo por ainda não dominar totalmente a arte de andar, mas estava ali, pronto para se divertir. Madrugada acima ele foi, e corria sem jeito pela casa e o pai ia atrás, já desperto pela preocupação do que o menino poderia fazer. Resolveu colocar uma barreira e manter a diversão da criança na sala, o pai deitou no sofá e ficou a observar até quando seu filho ia sem cansar, deveria ser logo, tinha que ser logo, pois ele, o pai, estava muito cansado e pronto para dormir novamente, mas nada. O dia amanhecia e a criança não havia dormido, não pregou os olhos no que restara da noite e continuava a todo pique.
Não entendeu o comportamento de seu filho, porque ele havia se comportado daquele jeito e logo durante a noite, numa felicidade vista e se não fosse pelo sono do pai, até mesmo contagiante. Aborrecido, pegou o filho já lhe deu um banho, não sem protestos e gritos reclamantes e colocou sobre o trocador. O menino gritava e de manhã chorava pela brincadeira interrompida e o pai num rompante de irritação deu um tapa na coxa do garoto. O choro dessa vez veio de verdade, com lágrimas e mais gritos. O pai arrependeu-se na hora do ato, mas não o disse e nem se desculpou com seu filho. Terminou de arruma-lo e o levou para creche. No caminho do trabalho, pensou diversas vezes no ato impensado que cometera. Remoendo sua culpa e triste ficou o resto do dia. Já perto do fim do expediente, recebeu a notícia que tanto aguardava há certo tempo já, tanto tempo que já tinha até esquecido que à esperava. Era boa, a notícia, era o que ele esperava e realmente ele conseguira. Pensou logo no filho, no seu ato injustificável de impaciência e foi então que percebeu. O comportamento do filho na madrugada era isso, estava comemorando com o pai, por isso as risadas e as brincadeiras, como a criança pressentira o que estava por acontecer e a notícia que ia receber o pai nunca soube, ele só sabia que seu filho estava comemorando.
Mais envergonhado ainda do que fez, foi o pai ao encontro do pequeno menino. Estava ele já o esperando. Pediu-lhe desculpas e envergonhado o abraçou. O menino sorriu e o abraçou de volta, porque as crianças nascem sabendo perdoar.

João Rogério Alencar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dois lados de um mesmo lado



Tenho notado que existem dois lados hoje em dia para tudo. Normal isso, dois lados são básicos em tudo: Preto e branco, certo errado, bom e mal, enfim todos esses que já conhecemos, mas o que quero falar aqui é de dois lados particulares. Dois lados que se antagonizam e se ofendem com aquela força máxima só proporcionada pelo ódio. Esses lados são bem definidos pela sua razão de ser, por suas convicções ideológicas e suas lógicas “coerentes”. De um lado estão aqueles que dizem que sua ideologia é a correta, pois se baseiam na biologia básica, em preceitos religiosos e por já estarem numa posição confortável perante o outro grupo, não querem perder seus direitos e, no entanto renegam seus deveres e responsabilidades. Do outro estão aqueles que dizem que seu direito a felicidade é pleno, pois todos devem buscar a felicidade e se perdem no seu pedido de direito, também esquecendo que todo direito requer (e senão requer deveria) deveres e conseguinte transforma isso em privilégio, esquecendo-se do respeito aos outros, do respeito àqueles que não partilham essa escolha ou, como querem tantos, condição.

                Parece-me uma batalha imprecisa de quem quer ser certo contra quem está supostamente errado. De um lado aqueles que lutam para que tudo continue a ser do mesmo jeito e se for necessário derrubarão o que for e destilarão ódio em quem for para que tudo se mantenha no mesmo estado cínico. Do outro aqueles que colocarão frases fora de contextos e em nome da sua escolha julgarão quem tem opinião própria (que não vá de encontro com suas próprias opiniões) como se fosse um déspota. É uma guerra engraçada, se pensarmos bem. Uns falam em nome de um ser supremo outros em nome do supremo direito a liberdade de ir e vir, de fazer o que quiser da própria vida. Todos marcham em campos neutros da internet! Todos lutam por aquilo que acreditam como se fosse meramente importante esse ou aquele lado. Reivindicam o fim disso e o começo daquilo e são mais importantes que o outro porque seus lados os fizeram assim. Uns são hipócritas os outros também. Tem aqueles que baseiam cada crítica numa frase previamente escrita há mil, dois mil anos, outros em estudos recém-desenvolvidos (e não comprovados) de seu comportamento é natural. Digo que são dois lados de um mesmo lado e os calhordas da humanidade sempre vão encontrar expoentes máximos em cada um desses. Eles sempre serão alimentados por pequenas pessoas que se acham de fato do lado certo e essas pequenas pessoas lerão isso e se acharão mais uma vez acima das críticas aqui descritas porque acreditam que não são para elas direcionadas. Existem dois lados que são um só na verdade, pois o ódio só pode refletir a si mesmo.

De um lado um, do mesmo lado outro. Sinto muito que eu não seja o dono da verdade.

João Rogério Alencar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Escolhas na noite



Era noite, o sono não vinha, seus olhos se fixavam na parede, incapazes de se fechar, incapazes de conter as lembranças, parado parecia que esperava, esperava algo que certa vez deu como certo de acontecer, mas que a dúvida se encarregava de negar que fosse agora crível de ocorrer. A dúvida se encaminhava ao seu peito como um projétil impossível de parar. Um receio que o assaltava já naquela hora tardia. Pensava em coisas vãs e em atitudes suspeitas. Pensava no tempo que passou voando pelos seus vinte e tantos. Era uma noite fria, bem incomum para aquela época, tanto que as portas de casa foram fechadas ou deixadas entre abertas para impedir o vento frio de entrar. Seus pensamentos lhes davam as sensações de que algumas escolhas foram incertas e outras apesar de certas foram incorretas eticamente.
Alguma hora durante esse devaneio que foram ouvidas as batidas e foi visto um vulto. Era alguém encostado junto à porta e era muito parecido com ele. Os mesmos gestos, as mesmas roupas, a única coisa diferente era o jeito de falar e o que ele começou a falar foi um monólogo daqueles só capazes de serem feitos por quem conhecem seu ouvinte. Sem esperar o vulto que se apoderava da palavra diante da mudez do seu semelhante, começou a falar:
- Vamos logo meu amigo, não temos o tempo todo pela frente. Vamos embora que o tempo não precisa de nós para passar. Não fique esperando por algo que não vai acontecer. Você tinha planos se bem lembro e eram bons planos, planos que te deixavam em primeiro plano. Planos principais, sonhos que seriam prioritários e reais. O que aconteceu com você? Porque a apatia antipática? Não responda se souber. Não é interessante o que tem a dizer hoje, só lhe é interessante o que tem a ouvir. Num outro você inserido num passado nem tão distante, nós não teríamos essa conversa, agora você imagina o quão desagradável é isso? Eu ter que sair de um passado confortável, vir ao seu presente e conversar sobre seu futuro. Há de convir que talvez tenha havido insensibilidade de sua parte, mas não te culpo, não por isso.
“Culpo você pelo tempo, tempo que não voltará. Não se sente sobre uma autopiedade enganosa, levante-se! Há mais em você do que tudo o que jamais sonhou vir a ter ou ser. Não adianta temer o que está por vir. O futuro se configura diante de ti, não sente o vento que entra? Acho que a mediocridade que escolheu te deixou inerte.” Ele parou de falar. Respirou e continuou, pois o outro que ouvia percebeu (talvez tarde demais) que aquela seria uma conversa de mão única, ele era o ouvinte, o aconselhado da noite. O discurso prosseguiu revelando a ele uma sombra ativa do passado. Aquele que falava era alguém que ele conhecia bem, era ele mesmo, confessando a tristeza pelos sonhos e rumos não seguidos. Era ele mesmo se cobrando uma explicação do porque as decisões tomadas não foram cumpridas.
- Antes de acabar o que tenho para falar, devo dizer que você fez algumas escolhas boas na vida. Mesmo assim estou aqui para falar das boas escolhas que você não tomou! Aquelas que deveria ter conseguido seguir, aquelas que de alguma maneira te levariam a outro lugar e por consequência não me traria aqui. Ora deve estar pensando que não deve importar o que passou, mais importa. Importa quando ainda dá tempo para continuar de viver os bons planos que tinha. É simples se pensar bem, na verdade eu estou aqui como uma maneira de cobrança.  
                - Estou aqui, mas a escolha é sua, no fim das contas só isso importa: Sua escolha!Mas qual será? Ficar aqui, ouvindo críticas de soberbos ignorantes que julgam sem nem ao menos sair da cadeira, que enlouquecem quando você mostra novas ideias e ideais? Não acredito que será essa sua escolha. Ela lhe compete, mas como me diz respeito aqui vai um conselho. Não se abata! Lute pelo que acredite, você não merece a mediocridade que lhe impõem, és mais que isso. Termine o que começou e seja o gênio que eu sempre quis ser. Saia daí e viva!
Nesse momento, um vento forte bateu a porta e num sobressalto ele levantou. O devaneio sumiu, seu crítico mais sincero se foi para nunca mais voltar. Num rompante ele decidiu que mudaria sua vida e refaria seus melhores planos. Seria a melhor pessoa possível, seria um artista e um sonhador. Seria o que sempre quis e sentiria a boa sensação de plena satisfação por um feito realizado. Percebeu o silêncio no cômodo vazio e resolveu que mudaria de vida, mas só no dia seguinte, porque ninguém muda de vida às três da manhã.
No dia seguinte acordou e constatou que não mudaria nada, pois é complicado segurar as rédeas do próprio destino.

João Rogério Alencar.

domingo, 31 de março de 2013

Bobagens ouvidas entre sussurros



Os caminhos nos experimentam, existem como escolhas que fazemos ao longo da jornada. Nesses diversos caminhos existem portas, algumas trancadas, outras entreabertas e algumas que te convidam a entrar. Escolhemos entrar por cada um dos caminhos que seguimos, então quando nos deparamos com um novo caminho devemos ter cautela ao segui-lo, uma decisão precipitada pode por tudo a perder, pode magoar quem não devemos e principalmente pode te levar a uma situação que de início era maravilhosa, mas que no fim só te mostrou o quanto tolo você pode ser. Mudanças são necessárias e é claro são bem-vindas.
Entretanto alguns caminhos devem ser percorridos, como crescimento pessoal. Nem todos são o que dizem que são, nem todos demonstram aquilo que de fato são. É complicado viver num mundo onde a verdade é tão subjetiva ao ponto de ter que desconfiar quando dizem a verdade. Se é que é verdade. Elas são tantas, tão perecíveis e tão pessoais. Caminhos estão abertos e não é errado se a decisão for ficar parado, nem tampouco é errado seguir adiante, mas as vezes voltar atrás é o que deve ser feito. Se um caminho foi bom por tanto tempo e se a caminhada foi tão boa então não vale a pena arriscar, nesse momento se descobre que sentimentos podem ser desprezados e deixar com a desconfiança dentro de si. Que existem caminhos (por que não) que são apenas fuga do tédio te usa como isso, e é dolorido quando percebe-se. Nessas horas, nesses momentos de profunda reflexão acaba-se por descobrir que pode ter sido cometido um erro ao abandonar o caminho anterior. Se o novo não está bom e o antigo é tão melhor, não é errado voltar. O problema consiste em saber se ainda dá tempo de correr antes da porta do caminho antigo se fechar definitivamente. O problema é saber se o caminho de volta ainda aceita o seu caminhar.
 Às vezes percorremos tanto o mesmo caminho que depois de certo tempo achamos que ele já não nos pertence mais. Que outra pessoa deveria andar por ali, não queremos aceitar que aquilo nos pertence, faz parte da escolha de nossa vida. Viver é isso, fazer escolhas e aceitar as consequências boas ou ruins. Viver é fazer escolhas e quando erramos devemos pedir desculpas. Nunca fui muito com a cara do perdão, nunca soube muito bem como perdoar. Por isso é difícil pedir quando se é necessário, pois se você não sabe perdoar como vai pedir desculpas? Pensamos que conhecemos as pessoas pelo que elas bradam, mas na verdade não conhecemos ninguém além de nós mesmos. Temos medo de voltar atrás e perceber que o caminho está fechado. Mas e se ele, o caminho, te receber de braços abertos, com um bem-vindo de volta? Não dá para saber sem tentar. Reflito mais quando escrevo, não sou religioso, mas fui criado numa família católica e dizem que páscoa é recomeço. Acho que vou recomeçar a caminhar um caminho que já conheço. Caminhos novos são bons, mas não tão bons quando se tem que fazer isso sozinho. Existem coisas que te mostram que não valem a mudança e o que te fez mudar te mostra que errar pode ser bom. É nos erros que ganhamos nossas maiores lições de vida, são os tropeços no caminho que nos dão a perspectiva certa do que fazer, para onde seguir.
Às vezes não precisamos pensar em nada e só seguir a estrada, só seguir o caminho.
Mas isso tudo pode ser bobagem e como não sei nada, vou sair da frente do computador e caminhar um pouco. Acho que um café também cairia bem agora.
João Rogério Alencar.

sexta-feira, 22 de março de 2013

o Casamento da Bruxinha


Existia certa vez uma bruxinha, mas não era dessas bruxas más, nem dessas bruxas modernas que existem em várias histórias. Não. Ela era por definição uma bruxinha, mas não era dessas que enfeitiçam tolos por aí, ela era uma bruxa que cuidava de animais doentes, se especializou para cuidar de todos os bichos que vinham e também ela ia até eles. Vivia em uma casa perto de nada. Vivia lá quieta, mas não sozinha, ela tinha amigos que vinham visitá-la e a queriam muito bem, pois ela era uma benfazeja pessoa, que tentava ajudar a todos. Principalmente os animais, pois esses sempre precisavam de ajuda naquele mundo dominado pelos homens. E como era bela aquela bruxa.
Ela ia e vinha de seu trabalho todo dia. Cansada ficava com o árduo trabalho, mas não reclamava porque, ela sabia, aquela era sua missão. Ia vivendo e sem perceber com o tempo passando mais bela ficou, nada fez para isso, como se a natureza a agradecesse por sua ajuda com os animais. Não se interessava por ninguém, a não ser seus amigos que a ela recorriam para conselhos e risos, jogos e brincadeiras, afagos e bondade. Famosa por seu dom de cuidar de animais ela acabou atraindo a atenção de pretendentes, pretendentes diversos, mas que nada ela queria. Queria viver só, pois era mais fácil se dedicar ao seu labor. Não queria saber de nada além da sua função.
Ela recusava um a um, não queria saber. Com diversos presentes eles a bajulavam para que ela lhes desse a mão. A resposta era sempre a mesma:
- Não! Desculpe-me, mas não posso estar com vocês, pois preciso cuidar do meu trabalho. Não me levem a mal, mais preciso estar aqui. Não posso, nem quero sair com vocês daqui.
Na recusa de um por um, aos poucos os pretendentes foram rareando, até que surgiu um último. Um navegante, vindo do outro lado de um mar esquecido. Esse navegante encantou-se com a bruxa. Fez as mesmas propostas que já haviam feito à bruxinha que novamente recusou, mas sua recusa dessa vez foi feita sem convicção, sem a mesma vontade das outras. A verdade é que também se encantou pelo navegante. Com suas histórias e feitos, aventuras vividas e cantadas que ele declamava a ela. Apaixonada estava, mas não queria estar. Então resolveu fugir, para junto de seus bichos, escondida com seus próprios feitiços, do marinheiro ela se escondeu.
E por um tempo assim viveu escondida recusando a acreditar que estava destinada a viver uma bela história. Entretanto (sempre tem um) a Natureza, sua amiga vendo o erro que era aquela reclusão, ajudou o navegante a encontrá-la. Desfez os nós dos galhos, descerrou o matagal e revelou a ele onde ela vivia. O navegante fez um pacto com a natureza e juntos eles preparam uma surpresa a bela bruxa.
Então numa manhã clara e reluzente a bruxinha acordou, levantou-se e começou a trabalhar.  E nesse começo de dia ela viu uma casa branca onde antes não havia nada, essa casa era feita de troncos de jequitibás, curiosa com aquela aparição ela foi até o lugar, quando chegou, as portas da casa se abriram e lá estavam todos os seus amigos, os animais que havia curado e outros que nunca precisaram, estavam todos ali. Todos. Com as portas abertas ela notou que havia um caminho formado por flores vermelhas e que sua roupa de preta tornou-se branca.
Ela caminhava, pois havia um caminho, e no fim ela viu o navegante esperando por ela e então percebeu que não dava para fugir do que se sente, nenhuma dificuldade, nem aquelas impostas pelas próprias pessoas podem alterar um destino. O navegante a esperava, ele estava num altar, a bruxinha sorriu e alegremente percebeu que ia se casar.

                                                                                                             João Rogério Alencar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Voadora




                Foi de voadora que ele chegou. Eu havia me metido numa briga que não poderia ganhar. O meu advesário era bem maior que eu, mais velho e havia me encurralado contra uma parede. A briga estava perdida. Só me restava proteger o rosto e tentar amenizar os futuros hematomas, foi quando ele chegou. Meu irmão! Ainda menor que eu, dois anos mais novo e com a coragem que somente os menores e melhores tem. Ele foi de voadora nas costas do meu agressor, uma voadora linda de fazer inveja a qualquer filme de ação, que ele me deu o tempo necessário. Desnecessário dizer que sairmos correndo seria o mais certo, pois mesmo sendo dois ainda assim não éramos páreo para nosso algoz, mas não fizemos isso. Lutamos, perdemos, mas perdemos juntos. Depois disso ficamos ainda mais unidos, várias vezes defendemos um ao outro, foi uma amizade nascida pela necessidade que tínhamos um do outro. Precisávamos disso, pois era isso ou encarar o mundo sozinho. Lembro de outros momentos geniais que aprontamos juntos, quando nos uníamos para acabar com a tirania da irmã mais velha (Você era tirana não negue), ou ainda quando nos apoiávamos para tentar suprimir a ausência de alguém que não deveria ter importância, mas que significava tanto.
                Nesses momentos, que eram os mais doloridos, é que nos uníamos mais, como se nos apoiar fosse só que pudéssemos fazer. Era bem assim, nas tardes em que brincamos juntos nos nosso clube do Homen-Aranha e do Hulk. Em alguns momentos confesso que o invejei, por ser mais querido, mais bonito, mais agradável, mas passou quando percebi que não era inveja o que sentia e sim admiração. Uma admiração sincera e fraterna, daquelas que só podem surgir entre irmãos. Tenho alguns amigos por aí, alguns eu escolhi, outros a vida se encarregou de me mostrar que eram amigos, mas gostei de perceber com o passar do tempo que além de irmãos, éramos amigos.  Foi quando eu percebi, para minha total surpresa que ele também me  admirava, se espelhava em algumas coisas que eu fazia. Tinha em mim um referencial que deveria ter sido outra pessoa. Certas coisas acontecem para nos mostrar como podemos perceber o quão valioso é nascer sem nada e ter tudo. Eu tenho tudo porque sempre o tive, e ele sempre teve à mim. É esse tipo de coisa que alguns não entendem, mas não importa. O que escrevo aqui não é para ele, nem para mim. É só para deixar tranquila a pequena que está por vir. Para avisá-la que se precisar o pai dela chega de voadora.

João Rogério Alencar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O pequeno





O pequeno tinha medo de voar. Não sabia se suas asas iam funcionar, seus irmãos voavam já a grandes altitudes e passavam sobre ele zombando do seu medo. O medo era grande, a altura também e não havia outras justificativas além dessas, suas asas eram perfeitas, com a envergadura e penugem corretas. Não havia motivos para receios, mesmo assim ele tinha. Não via necessidade de voar, não achava que deveria. Só porque todos voavam porque ele tinha que ser igual? Não seria igual a ninguém, não se submeteria a nenhuma regra, resolveu viver sem voar, seria mais difícil para ele, mas tentaria assim mesmo. O tempo foi passando e seus irmãos foram crescendo e alçando vôos cada vez mais altos e pareciam felizes por aceitarem essa sua natureza. “Tolos” ele pensava. “Todos tolos, presos a submissão daquilo que esperam deles, tolos por acharem que somente no céu se encontra a felicidade.” Ninguém se importava mais com o pequeno e por ele ser diferente dos demais foi alvo por toda sua vida, passando assim a odiar todos que não o aceitassem, que não o quisessem. Ele não voava e nada iria fazê-lo mudar de idéia.
            Até que um dia, um despretensioso dia, ele viu uma pequena também, mas essa pequena voava. Ia e vinha com graça, leveza e beleza. Ficou extasiado com a visão daquela voadora, como se não acreditasse que algo que se rendeu ao vôo pudesse ser tão linda e pudesse mexer tanto assim com ele. Ela voava e não o notava, pois ele ficava nos galhos e nunca tinha ido ao chão, pois era perigoso lá para quem não soubesse voar. Assim transcorreram os dias, e eles passavam devagar quando não a via e rápidos nos momentos em que ela passava. Ele não se importava mais com nada, somente ela importava, mas ela nunca o olharia se ele não aprendesse a voa. Pelo menos era isso que ele achava.
            Um dia ele a observava escondido num galho pequeno como ele, mas numa manobra brusca ela virou da direção que ia indo justamente onde estava o pequeno. Pouso no mesmo galho, que apesar de pequeno sustentou os dois, não tinha como escapar ela estava ali e pousara olhando para ele e a pergunta saiu num piado:

- Há muito tempo me observa. Por quê? Uma pergunta direta, como direto era seu olhar. Não era um olhar severo, era um simples olhar de curiosidade.

- Não a observo. Observo todos vocês que voam e se sentem acima de mim. A resposta saiu um tanto misturada com prazer e raiva, prazer por falar com ela e raiva por ter sido interpelado daquela maneira.

- Não me sinto acima de ninguém por fazer aquilo que me é natural Porque pensa isso e mais importante porque me observa? Ela continuava o olhando, mas agora era um misto de curiosidade e pena.

- Ora, é claro que sua resposta não seria a verdadeira, eu sei quantas vezes fui zombado por não querer ser igual. Vá embora. Disse o pequeno irritado.

- Sim eu vou, não fique irritado. Mas é uma pena não me dizer por que me olhava tanto. E voou para longe dali.

A conversa terminou. Perdera sua chance por medo do que ela iria pensar e por medo de não poder lhe falar que não iria voar. Nunca mais falaria com ela, decidiu. Não a olharia mais, nem sequer sairia de casa. Decidiu viver mais recluso ainda.

Mas a vida não é tão simples não é?

            Ele tinha que sair alguns dias, pois era preciso viver e é claro que algum tempo depois ele a viu novamente e ela também o viu. Resolveram se ignorar mutuamente, mas não deu certo. Ela sentia o mesmo que ele e ainda o intrigava o fato de que ele a olhava, não com raiva como ele queria que parecesse, mas com doçura como era de verdade. Então quando passou um desses dias que ela voava e ele pulava de galho em galho, que ela resolveu novamente abordá-lo:
- Me desculpe pelo outro dia. Fui grosseira, mas me incomodava o fato de você me olhar tanto.
- Não há porque se desculpar, eu também não fui lisonjeiro como deveria e realmente a observava, mas não sei voar, nem quero aprender. Tive medo de que quando notasse isso agisse da mesma maneira que os outros. Piou ele.
- Não agiria assim. Deveria conhecer antes de julgar. Porque não voa? Foi direta como da outra vez, mas tinha que ser assim, não queria passar muito tempo antes de conversar sobre aquilo.
- Não gosto, não quero e tenho... medo respondeu ele.
- Tem medo? Por quê?
- Sim tenho. Não consigo voar, quase morri da primeira vez que tentei. Disse resignado.
- E tentou voar novamente? Ela perguntava com a mesma doçura que voava.
- Nunca, nem vou.
- Deveria ao menos tentar Tenho que ir, mas nos vemos aqui amanhã tá? E voou para longe.

            Depois disso, eles se encontraram todos os dias e conversavam sobre tudo, inclusive sobre vôos, sobre alturas e sobre mergulhos no ar. Aos pouco ela o foi convencendo que ele poderia voar, e o amor foi dominando o medo e ele aos poucos aceitou que poderia voar.
            Então começaram as tentativas e erros, e começaram as quedas e os acertos. E todo dia ele ia mais longe e voavam em círculos juntos com sua pequena, aprendeu a voar e feliz ficou, pois nunca pensara que poderia ser tão divertido voar. Mas nada dura para sempre e um dia ela lhe falou:

            - Acho que devemos dar um tempo. Aquilo foi dito sem muita convicção, mas foi.
- Por quê? O pequeno se recusava acreditar.
          - Você mudou sua vida por mim. Não posso te oferecer mais nada e tenho medo de te magoar. Quero que você voe para outros lugares. Ela disse mais segura agora. Tenho que ir. Voe, está bem?
           
            Ela se foi voando, tão repentinamente quanto chegara. Pequeno não sentia raiva dela, só ficou triste, meio que não acreditando que tudo acabara. Saiu dali voando também e sentindo o vento sob suas asas sorriu.

“Estou triste, talvez isso não passe nunca” ele pensou, e apesar disso sorria e ia cada vez mais alto e no fim seus pensamentos só eram: “Ela me ensinou a voar. Ela me ensinou.” E voando se foi também para outros lugares.

João Rogério Alencar.