Entrei
no trem e sentei-me. Calculei quanto tempo levaria até o trabalho e constatei
que iria me atrasar. Nada anormal, afinal levei quase quarenta minutos só para
chegar à estação num percurso que deveria demorar no máximo quinze. Pensei em
colocar os fones de ouvido e fechar os olhos para que a viagem fosse um pouco
menos desconfortável. Não consegui, pois no exato momento em que ia ligar o
rádio do celular comecei a escutar uma conversa alheia, foi inevitável não
ouvir. A conversa era permeada de vozes agudas e altas, num tom sério e solene,
um casal ao meu lado falava:
-Não
sei em que ponto as pessoas hoje podem viver sem acreditar em nada, mundanas e
omissas quanto a todos. –disse o homem. –você observa essas pessoas que hoje
vivem em função do seu próprio bem e não se importam com ninguém, é um erro.
Por isso eu gosto daqueles que protestam e gritam nos últimos dias.
-Será
que vai dar em alguma coisa isso? Será que eles sabem no que isso vai dar? -Perguntou
a mulher
-É
claro que eles não sabem, mas são instrumentos para um bem maior, pois a
sociedade só vai crescer quando enxergar que não existe solução para todos os
nossos problemas se nós não nos unirmos. Contra esses que governam e que estão
aí para roubar nosso dinheiro e não fazer nada. Políticos imundos eu digo, não
mereciam estar onde estão. Nós vivemos mal enquanto eles nadam nesse mar de
impunidade. Somos nós, somente nós que podemos mudar, para sermos melhores
seres humanos. (Nesse ponto o homem viu que tinha atraído à atenção de todos no
vagão e aumentou seu tom de voz, pois a conversa tinha virado um discurso) -
Somos todos roubados, precisamos de mais! Precisamos de respeito, porque meus
amigos, sem respeito não somos nada! E eles, esses políticos, não nos respeitam
e nós não fazemos nada. NADA! Assinamos atestados de idiotas perante eles e
aposto com todos vocês que estão lá a rir desses protestos. Não temos nada, nem
saúde, nem amor ao próximo e muito menos educação, e eu repito: ESTÃO RINDO DE
NÓS! Gritou alterado.
A
mulher que conversava com ele, colocou a mão no seu ombro e cochichou algo, talvez
para o homem se acalmar e voltar para a conversa com ela. Isso só o inflamou
mais e ele continuou:
-
Não vou parar, eu tenho que falar que nós não temos educação e isso é horrível!
Ninguém aqui tem noção do quanto à falta de educação incomoda!
-
Sua falta de educação em gritar seu discurso me incomoda senhor. – Falou uma
mulher jovem sentada do outro lado.
O
homem bufou indignado em direção a ela, apontou e disse:
-
Reacionária! É o que você é. Vive acomodada com sua vidinha. Por isso o país
está onde está, você com seu telefone novo e suas noções equivocadas é que
atrasam e ajudam a corromper tudo nesse lugar.
-
O senhor não é só mal-educado, como também critica as pessoas sem nem ao menos
conhecê-las. – respondeu timidamente a moça. – Aliás, quem é você para falar de
educação se há duas estações atrás entrou essa senhora grávida e parou na sua
frente e o senhor nem se dignou a levantar para dar lugar a ela?
O
homem parecia que, só naquele momento tinha percebido a mulher grávida (e
confesso eu não tinha visto.) ficou claramente desconcertado e se levantou
dando lugar a gestante. Então alguém falou:
-
Se você viu a mulher grávida em pé, por que não se levantou moça? Perguntou uma
idosa num outro ponto.
-Porque
sou mulher. Respondeu a moça - Os homens é que tem que se levantar.
-Nada
disso. Respondeu um terceiro. Direitos iguais, vocês mulheres não lutam por
isso?
-Que
isso tem haver? Perguntou um quarto.
A
discussão se generalizou, virou confusão. Todos discutiam com todos e logo
descambou para ofensas, um homem chamou outro de corno e a coisa ficou feia. Levantei-me
e saí na estação mais próxima e acabei tropeçando na hora de sair. A mulher
grávida que tinha saído também e me ajudou a levantar. Percebi enquanto o trem
ia embora que tinha a confusão tinha descambado para a pancadaria. Olhei para a
grávida e notei que ela sorria.
-Obrigado, por me ajudar. – eu disse. –Porque sorri?
Ela
me olhou e disse:
-Me
chamo Éris. –disse a mulher.
Eu
ri e perguntei:
-
Éris? Como a deusa? Veio semear a discórdia?
Ela
novamente me olhou e respondeu.
-
Não. Eu vim aprender. Sorriu francamente.
E
desapareceu, bem diante dos meus incrédulos olhos.
João Rogério Alencar.