Acordou às
quatro e meia, sem noção que era madrugada ainda, pegou-o no berço e tentou por
uns minutos nina-lo, mas ele não queria mais dormir. Com os olhos bem abertos,
estava sorrindo, brincalhão jogava-se nos braços do pai avisando-o que não iria
mais dormir e o pai atento sorriu, mas tinha que trabalhar a três horas, três
horas de sono que não teria mais. A criança sorria e queria brincar, era seu
tempo, pois se não há noção de tempo então qualquer horário é bom para se fizer
o que bem entende. Estavam ali, os dois;
o bebê insone e o pai sonolento. Qual dos dois estabeleceria sobre o outro sua
vontade? Nunca tinha feito aquilo de acordar e continuar acordado, sempre
acordava, sorria e voltava a dormir. Não dessa vez. Dessa vez ele queria
brincar, gritar também e bater com suas mãos para fazer bastante barulho. O pai
o colocou no chão e estava feita a vontade dele, saiu correndo um pouco bambo
por ainda não dominar totalmente a arte de andar, mas estava ali, pronto para
se divertir. Madrugada acima ele foi, e corria sem jeito pela casa e o pai ia
atrás, já desperto pela preocupação do que o menino poderia fazer. Resolveu colocar
uma barreira e manter a diversão da criança na sala, o pai deitou no sofá e
ficou a observar até quando seu filho ia sem cansar, deveria ser logo, tinha
que ser logo, pois ele, o pai, estava muito cansado e pronto para dormir
novamente, mas nada. O dia amanhecia e a criança não havia dormido, não pregou
os olhos no que restara da noite e continuava a todo pique.
Não entendeu o
comportamento de seu filho, porque ele havia se comportado daquele jeito e logo
durante a noite, numa felicidade vista e se não fosse pelo sono do pai, até
mesmo contagiante. Aborrecido, pegou o filho já lhe deu um banho, não sem
protestos e gritos reclamantes e colocou sobre o trocador. O menino gritava e
de manhã chorava pela brincadeira interrompida e o pai num rompante de
irritação deu um tapa na coxa do garoto. O choro dessa vez veio de verdade, com
lágrimas e mais gritos. O pai arrependeu-se na hora do ato, mas não o disse e
nem se desculpou com seu filho. Terminou de arruma-lo e o levou para creche. No
caminho do trabalho, pensou diversas vezes no ato impensado que cometera. Remoendo
sua culpa e triste ficou o resto do dia. Já perto do fim do expediente, recebeu
a notícia que tanto aguardava há certo tempo já, tanto tempo que já tinha até
esquecido que à esperava. Era boa, a notícia, era o que ele esperava e
realmente ele conseguira. Pensou logo no filho, no seu ato injustificável de
impaciência e foi então que percebeu. O comportamento do filho na madrugada era
isso, estava comemorando com o pai, por isso as risadas e as brincadeiras, como
a criança pressentira o que estava por acontecer e a notícia que ia receber o
pai nunca soube, ele só sabia que seu filho estava comemorando.
Mais
envergonhado ainda do que fez, foi o pai ao encontro do pequeno menino. Estava
ele já o esperando. Pediu-lhe desculpas e envergonhado o abraçou. O menino
sorriu e o abraçou de volta, porque as crianças nascem sabendo perdoar.
João
Rogério Alencar.