segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Cada segundo

               O velho estava na estação e chovia. Com um guarda-chuva gigante, estava aguardando seu trem, mas não só isso. Pensava num verão, um verão memorável, um verão que teve a oportunidade de fazer tudo o que queria e sentir talvez a plenitude da alma.
Daquele verão de tanto tempo atrás nunca esquecera o calor que sentira numa véspera de ano novo. O calor súbito, uma paixão pueril, lembrou-se do desejo incontido, e como acreditava ser correspondido. Acreditou nisso com força, ou quis acreditar, mas a verdade era que era improvável, senão impossível. Aquilo nunca iria acontecer, não da maneira que sonhara, não da maneira que queria. Naquele verão sentiu pela primeira vez o doce aroma que ela exalava, sentiu com medo e pudor que o desejo era contido, mas estava lá. Estava lá e ela o sabia também. 
Nos corredores sabiam que se encontrariam para um olhar, um aceno e um gracejo, mesmo assim não aconteceria, não da maneira que queriam. Estavam vivendo um sonho, como o de tantos pelo mundo afora, vivera um sonho que a maturidade dissipou e conforme crescia, nunca soube se era possível ou impossível, pois nunca tentara de fato. A lembrança disso corroia o que de bom ficara daquele desejo, daquele quase namoro. “Não” foi a palavra mais dita, mas era tão bendita que era quase um “Sim” velado, pela incerteza daquilo. Aquele subentendido incerto, era tudo que se permitia.
 O verão o deixava amargo depois disso, pois sabia que nunca tentou, por medo da dor. Agora seus verões eram sem graça, tinham perdido a cor. Estava na estação de trem, pensando naquele verão que não choveu. Arrependia-se de nunca ter tentado, das palavras de despedida, das promessas num futuro que se configurava tão distante que era quase proibido pensar. Uma vez, quando contou esse caso a um amigo foi-lhe dito que tudo tem seu tempo. Nunca acreditou nisso. Achava que o que passou havia de fato passado. 
 Estava na estação e chovia. Mas do outro lado, em outra plataforma sorriam para ele, um belo sorriso, um sorriso igual à de um verão, tanto tempo atrás. Jamais esquecera aquele sorriso, afinal fora ele, o sorriso, que iniciara tudo. Então acreditou de verdade que tudo tem seu tempo. Um sorriso que valeu a espera de uma vida, cuja lembrança não mais corroia. Sorriu de volta, um gesto que esperou uma vida inteira para devolver. Que valeu cada segundo, cada segundo por causa de um sorriso.
 João Rogério Alencar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

De bicicleta


             Foi num dia de verão, numa descida de bicicleta que ganhei minha mais séria cicatriz. O lugar era formado por ruas de subidas e consequentemente de descidas, e isso que era interessante, descer naquelas ruas esperando o máximo para apertar o freio, vendo até onde se ia no risco que era aquilo. Descer uma ladeira de bicicleta deve ser o mais próximo que alguém pode voar sem asas. O risco, a adrenalina da coisa, a sensação de liberdade, tudo valia a pena naquela aventura, descer sem as mãos então era um risco ainda maior e por isso era tão bom. As decidas eram íngremes até demais em alguns locais, mas isso era o melhor. Adorava os verões que se faziam essas coisas, esperava alguém me emprestar uma bicicleta (nunca tive uma antes de adulto e a única que comprei foi roubada), mesmo esperar em si a hora de descer era boa. Ficava horas naquilo, correndo e sentindo o vento.

             Resolvi então descer uma ladeira, com mais duas ladeiras seguintes, já tinha feito antes, era fácil e divertido, ia de novo numa aventura que nunca cansa, e passei pela primeira ladeira sem problemas, mas na junção com a segunda senti algo no meu pescoço, algo roçava e cortava, retirei as mãos do guidão e coloquei-as no pescoço, procurando tirar aquilo que estava me machucando. Era uma linha de pipa! Senti fina e afiada, numa velocidade impressionante afundando na carne. Cortei as mãos tentando arrebentar a linha e consegui, mas a bicicleta perdeu o rumo, e o guidão virou. Capotei lindamente com as mãos ainda no pescoço, com a própria bicicleta passando por cima de mim, e sentindo o gosto do asfalto recém-colocado na rua. Parei no meio da terceira ladeira, com o coração acelerado todo ralado, mas com as mãos ainda no pescoço, tentando estancar o sangue, sabia que aquilo era sério. Nunca me foi permitido soltar pipa, mas sabia que o vidro moído com cola estava na linha, sabia por que já tinha visto meus primos fazendo a mistura. Tentei levantar, mas não consegui, fiquei um tempo ali, até que alguém foi me ajudar, me levantou, e falou para eu tirar as mãos do pescoço, eu lógico não quis. Mas a pessoa (nunca soube quem era) retirou minhas mão e constatou que o corte não era sério, me disse ainda “você teve sorte garoto” eu lá todo arrebentado, parecendo que tinha passado por um triturador, duas vezes, e a pessoa me falando que eu tive sorte. Não falei nada, mas sabia da sorte que tinha. De todas as cicatrizes desse dia a mais séria foi essa. Aliás essa foi a mais séria de todas.

             Então um dia desses, pensando um monte coisas, reclamando de outras coisas baixinho. passei do lado de alguém que me falou “você teve sorte garoto.” Olhei ressabiado para o lado, não o aviso não era para mim, mas mesmo assim lembrei desse dia. Do dia que vi quanta sorte eu tinha, tive outros acidentes, parecido com esses pelo perigo. Arame farpado no olho, pulos inconsequentes de lages, nunca quebrei nada, mas não foi só por sorte. Outra coisa ajudou. Não sabia o que foi, quando repetiram um pouco diferente, “você teve sorte, João.” Me virei de novo, mas a dona da voz se foi. Me deixando com a sensação esquisita que devo agradecimentos à alguém.
                                                                                                               João Rogério Alencar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Presente Azul.

                Do tempo presente eu espero. Tentado nas formas que fiz, refiz e li. Vejo sóis sobre montes margeados de flores, vejo vida tentando sempre entender, onde começa a divina criação. Mas não quero ciência, às vezes ela atrapalha. Do azul do céu me desce o calor do tempo presente. Um presente que vejo ao som da cor perfeita. Azul. Espero refletir nas margens de outrora algo para o agora, querendo viver, aprender, entender. De onde vem o azul? Onde se guardam as flores? O presente é uma regalia nossa e não aprendemos, esquecemos que o agora importa muito, pois nos focamos no passado e planejamos o futuro. Quem encheu o mar? Quem pintou o céu? Espero o presente, num calor absurdamente revigorante. Tenho receio de não contemplar todas as maravilhas desse mundo. Viver sem ter vivido, beber sem sentir o gosto da água. Num tempo presente quero presentear. Escolher um lado certo para que? Se o julgamento pode ser errado não quero escolher. Vivo meu presente esperando sempre o presente. Esperando saber e entender, como o céu é azul. Mas sem ciência, ela atrapalha às vezes. Quero saber onde está a aquarela divina da criação. Meu presente. É meu. O tempo que demorar, o tempo que tiver que ser, que seja o presente, pois vivo agora. Respiro agora e quero saber para onde me leva minha vontade. Sejamos francos, numa eventual vitória ou derrota, quantos de nós se perguntou quem pintou o céu de azul? João Rogério Alencar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A descida

                    “Será que falta muito para chegar?”, pensou enquanto subia a grande costa da montanha, sabia que não deveria ter começado a subir, mas o desafio ficou gravado nele com tinta indelével. Na verdade começou a subir, não só pelo desafio, mas pela coisa nova que era aquela montanha, tão bela com os picos brancos como dentes de um belo sorriso, sabia que não devia ter começado, mas, faz parte da vida escolher desafios e lutar por eles. O mundo, os problemas, as aflições são assim, num mundo de facilidades, onde se pode comprar e ter tudo tão rápido, escalar uma montanha pode ser um imenso desafio, um dos maiores que o mundo moderno tem a oferecer. Mas era tão difícil, a montanha oferecia resistência nas suas rochas soltas e seu cascalho pequeno, e ele ainda não sabia por que estava subindo, mas subia sem parar, pois o desafio era o que o movia, mas não o motivo principal.
                O motivo ele não sabia, mas nessa altura nem queria saber, queria o topo, era no topo (ele achava) que saberia a razão por ter subido. Pulou de um lado onde a montanha tinha sua curva mais perigosa e por pouco não caiu, mas consegui se agarrar e faltava tão pouco agora. Enquanto subia, pensava na vida, na sua é claro. Nos caminhos que percorreu, andou, correu e ofegou até ali. Era uma vida boa, com problemas e soluções como a grande maioria. Sua vida tinha certa coerência com aquele desafio, certa semelhança com tudo que passou, tinha medo em determinados momentos, nenhum em outros e ia passando pela vida, como tantos que passaram, porém não agora, agora era ele que tomava as rédeas e subia com determinação ímpar, determinação dos vencedores. Estava quase no topo quando olhou para baixo, mas tento subido devagar, quase não sentiu a vertigem que deveria sentir. O topo o olhava, altivo e soberbo, mas impotente diante do fato consumado que era a subida dele. “O topo enfim.” Chegou ao topo com esse pensamento, fincou seus pés na parte mais alta e contemplou o imenso azul do céu, sentia o vento, sentia o sol mais puro naquele lugar. Entretanto não sabia ainda o motivo de ter subido. Fechou os olhos. E então descobriu. Não foi pelo desafio, isso era uma bobagem no fim das contas, subiu (ele agora sabia) pelo silêncio, pela vista, pelo vento, pelo céu azul e principalmente subiu porque, depois do topo só lhe restava descer. Por que de alguma maneira ele sabia que agora se sentiria mais vivo pelo resto da vida. 
                                                                                                                                 João Rogério Alencar