Foi num dia de verão, numa descida de bicicleta que ganhei minha mais séria cicatriz. O lugar era formado por ruas de subidas e consequentemente de descidas, e isso que era interessante, descer naquelas ruas esperando o máximo para apertar o freio, vendo até onde se ia no risco que era aquilo. Descer uma ladeira de bicicleta deve ser o mais próximo que alguém pode voar sem asas. O risco, a adrenalina da coisa, a sensação de liberdade, tudo valia a pena naquela aventura, descer sem as mãos então era um risco ainda maior e por isso era tão bom. As decidas eram íngremes até demais em alguns locais, mas isso era o melhor. Adorava os verões que se faziam essas coisas, esperava alguém me emprestar uma bicicleta (nunca tive uma antes de adulto e a única que comprei foi roubada), mesmo esperar em si a hora de descer era boa. Ficava horas naquilo, correndo e sentindo o vento.
Resolvi então descer uma ladeira, com mais duas ladeiras seguintes, já tinha feito antes, era fácil e divertido, ia de novo numa aventura que nunca cansa, e passei pela primeira ladeira sem problemas, mas na junção com a segunda senti algo no meu pescoço, algo roçava e cortava, retirei as mãos do guidão e coloquei-as no pescoço, procurando tirar aquilo que estava me machucando. Era uma linha de pipa! Senti fina e afiada, numa velocidade impressionante afundando na carne. Cortei as mãos tentando arrebentar a linha e consegui, mas a bicicleta perdeu o rumo, e o guidão virou. Capotei lindamente com as mãos ainda no pescoço, com a própria bicicleta passando por cima de mim, e sentindo o gosto do asfalto recém-colocado na rua. Parei no meio da terceira ladeira, com o coração acelerado todo ralado, mas com as mãos ainda no pescoço, tentando estancar o sangue, sabia que aquilo era sério. Nunca me foi permitido soltar pipa, mas sabia que o vidro moído com cola estava na linha, sabia por que já tinha visto meus primos fazendo a mistura. Tentei levantar, mas não consegui, fiquei um tempo ali, até que alguém foi me ajudar, me levantou, e falou para eu tirar as mãos do pescoço, eu lógico não quis. Mas a pessoa (nunca soube quem era) retirou minhas mão e constatou que o corte não era sério, me disse ainda “você teve sorte garoto” eu lá todo arrebentado, parecendo que tinha passado por um triturador, duas vezes, e a pessoa me falando que eu tive sorte. Não falei nada, mas sabia da sorte que tinha. De todas as cicatrizes desse dia a mais séria foi essa. Aliás essa foi a mais séria de todas.
Então um dia desses, pensando um monte coisas, reclamando de outras coisas baixinho. passei do lado de alguém que me falou “você teve sorte garoto.” Olhei ressabiado para o lado, não o aviso não era para mim, mas mesmo assim lembrei desse dia. Do dia que vi quanta sorte eu tinha, tive outros acidentes, parecido com esses pelo perigo. Arame farpado no olho, pulos inconsequentes de lages, nunca quebrei nada, mas não foi só por sorte. Outra coisa ajudou. Não sabia o que foi, quando repetiram um pouco diferente, “você teve sorte, João.” Me virei de novo, mas a dona da voz se foi. Me deixando com a sensação esquisita que devo agradecimentos à alguém.
Então um dia desses, pensando um monte coisas, reclamando de outras coisas baixinho. passei do lado de alguém que me falou “você teve sorte garoto.” Olhei ressabiado para o lado, não o aviso não era para mim, mas mesmo assim lembrei desse dia. Do dia que vi quanta sorte eu tinha, tive outros acidentes, parecido com esses pelo perigo. Arame farpado no olho, pulos inconsequentes de lages, nunca quebrei nada, mas não foi só por sorte. Outra coisa ajudou. Não sabia o que foi, quando repetiram um pouco diferente, “você teve sorte, João.” Me virei de novo, mas a dona da voz se foi. Me deixando com a sensação esquisita que devo agradecimentos à alguém.
João Rogério Alencar.
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