quarta-feira, 21 de abril de 2010

Enfim outono

             Outono enfim, gosto do outono de uma maneira bem particular, me remete muitas vezes ao passado, não sei se o vento, se o ar ou o clima um pouco mais ameno (um pouco, afinal estou no Rio de Janeiro) me fazem ter esse sentimento ou se é só pura nostalgia mesmo. Gosto do outono por causa da sensação de liberdade que ele traz, de recomeço, gosto porque de todas as estações é a menos badalada, a menos comentada como se fosse a menos importante.
                Na verdade é uma estação entre estações, mesmo assim me diz muito sobre como nasce o sol, como se fecha o dia. Seria o outono uma espécie de intervalo anual do Universo? Seria uma maneira distinta de se desligar de tudo? Seria somente uma estação entre estações? Não sei, só sei do que sinto no outono: paz misturada com vento no rosto. Uma sensação entre sensações, como uma resposta as minhas súplicas, como uma prece bem feita eu sinto que no outono me sinto mais perto de Deus, como uma fonte que jorra só durante alguns meses, como uma forma velada de o Universo se mostrar não como algo amplo de magnitude incalculável, mas como algo pequeno e precioso dentro de mim. Existe alguma coisa no outono algo indescritível, algo que talvez somente poucos possam saber. Acredito ser essa a particularidade de cada um: Encontrar-se nas estações entre estações, nos sentimentos entre sentimentos. Vivo pensando onde está à origem do meu sentimento por essa estação, geralmente me perco nas lembranças do passado, ou projetando o futuro, nunca no presente. Então andando pela rua eu vi, folhas caindo, efêmeras como tudo na vida. E elas me dizem: “viva o presente, pois não se vive o ontem menos ainda o amanhã.” Gosto do outono e já sei por quê. Faz meu coração bater mais alto, me dizendo tum, tum, tum

domingo, 28 de março de 2010

Descobertas

           Num dia chuvoso redescobri-me, nas viagens nebulosas e chuvosas de volta do trabalho, cheguei à conclusão que me redescobri. Não foi qualquer redescoberta, foi pueril, foi insana, maravilhosa e fascinante. De volta para casa sem pressões da faculdade, sem um bom livro para ler, sem sono, consegui redescobrir-me. Sei quem sou.
          Vi coisas fantásticas em minhas fantasias de criança fui herói de mim mesmo, a procura da verdade encontrei minha fantasia há tanto perdida, a tanto esquecida e descobri o quanto eu mudei. Refiz amizades, desempenhei novos papéis, estive onde nunca sonhei (ou talvez tenha sonhado, mas sem perceber). Uma redescoberta difícil, dolorida, pois repassei alguns aspectos desagradáveis da minha lembrança, do meu caráter. Vi que cometi erros imperdoáveis vi que a lembrança do afeto não morreu e sim ficou guardada no fundo de minha alma e lá permanece, até que eu me vá, ou tenha coragem de acessá-la. Vejo que minha infância foi um emaranhado de descobertas e no meio de tantas acho que foi por aí que me perdi, perdi minha força, meu brilho próprio. Tentei ser mau, tentei ser indiferente e até tentei ter uma visão própria do mundo, mas aí vem a percepção da dura realidade, a dor repartida entre a essência da descoberta da mentira, quando alguém que você ama muito traí sua confiança com promessas tão tolas quanto vazias e você espera, um domingo, um mês, uma vida inteira, como eu esperei.
         Fui tolo algumas vezes, mas até do que eu gostaria de admitir, esperei mais do que deveria, me reservei ao direito de me reservar, tive medo de um parente, odiei-o por isso, tive que engolir meu orgulho, engolir a vergonha como um pedaço de pão velho e mofado, por um erro não cometido por mim. Aliviei-me quando a irmã do sonho veio e levou embora a única pessoa que eu temi no mundo, tenho certeza de que se não fosse isso o embate final seria entre eu e ele, porém a humilhação continuava e a cada vez era pior, mas não é só isso, estava perdido sem consciência do meu papel nesse mundo, pois vivia no meu próprio mundo. Aos poucos se foi à confiança nas pessoas e no mundo. Então fiquei sozinho.
            Só, embora convivendo com pessoas, fui levado a cada vez desconfiar mais e sempre temendo não alguém, não o mundo, mas a mim, porque sei que não podia confiar em ninguém, porque sei o que achavam de mim, “lá vai o estranho”, “o filho do meio”, “sem perspectivas”, “sem futuro”, sem nada. Continuava só, mas a solidão de fato não me incomodava, viajava nos livros como viajei na minha imaginação de criança, desfilei com orgulho pelos personagens de Verne e Huxley, de Anson e Tolkien e mais tarde de Gaiman e tantos outros que me desafiavam, me testavam. Já não estava tão só, consegui viver aos trancos e barrancos, a vergonha e a humilhação endureceram a casca, batiam e se machucavam, fiquei espinhoso, agora estava armado de minha própria arrogância, de meus próprios supostos saberem, entre gente tão ignorante que achava que sabia alguma coisa, que podiam alguma coisa. Então me vi melhor e maior que todos eles.
           Eu podia tudo, eu seria o que quisesse e quando fosse pagariam caro por isso, acabaria com tudo e com todos que me fizeram desacreditar na minha vida, mas minha confiança em mim era tão grande quanto minha tolice em acreditar que eu podia algo sem confiar em ninguém, minha queda foi grande, não o suficiente para eu perder a arrogância adquirida, mas o suficiente para me lembrar que na verdade não estava tão só, vi mãos me erguendo, mãos macias e afetuosas que me mostraram um aspecto esquecido, um aspecto que eu recusava em acreditar que existisse, a couraça continuava lá me protegendo. Não, não cometeria o mesmo erro de confiar em ninguém, mesmo tendo sido erguido, mesmo com tanto afeto e bondade, mas um olhar e aperto de mão e as palavras certas me fizeram abrandar a fúria que carregava no peito e lá a despeito de todas as minhas expectativas, eu pude confiar em alguém. Então descobri a amizade.
Agora um novo sabor invadia a vida dura e corrompida, uma nova vertente da realidade, a carapaça continuava e eu continuava a ser o “sem futuro”, mas eu via e vivia a situação sob um novo aspecto, um aspecto melhor que os anteriores sem dúvida, mesmo sendo algo incompreensível, indecifrável, me tornei menos amargo, menos rígido, mas continuava a ser o que eu achava que deveria ser. Ser forte, prepotente, desconfiado e sem saber perdoar. Independentes das escolhas que fiz dos caminhos que tomei e das verdades que estabeleci, as coisas mudavam. O horizonte não era mais tão negro, solitário e sombrio. Por essa época descobri a bondade e beleza acima de tudo, num misto de surpresa e incredulidade eu vi a beleza dos olhos, a bondade do ser. Então descobri o amor.
              Linda, simples e delicada, com ela eu deveria ficar, mas para isso era necessária, porém, uma luta (como tantas em minha vida). Descobri que era tão bem guardada, por um alguém egoísta que tinha como ajudante um anão ardiloso, num castelo simplório. Impondo condições, regras, “minha casa, minhas regras” foi o que disseram, desafiando quem quisesse se aventurar, mas eu ainda era um guerreiro e carapaça continuava lá, não me contive e dessa vez eu fui às armas, dessa vez eu lutei e respondi “minha arma, minha regra”, e então a luta seria longa e por vezes sangrenta e cruel, num combate que acreditem, terminou empatado, com concessões inimagináveis, e com perdas irreparáveis, minha desconfiança aumentou novamente.
            Agora uma nova paisagem, trabalho e cansaço, o “sem futuro” caçava e tentava lutar e viver ao mesmo tempo, mas estava feliz, como nunca estive, vivi como nunca vivi, tinha algo para chamar de “meu”, mais agradável e solícito, mais maleável menos inflexível, mas com minha essência intacta, pois não podia me despir da fortaleza, os inimigos agora eram mais duros e tinham como me atingir, não era só eu, tinha gente com perspectivas sobre mim. Lutava, trabalhava, por vezes dobrava e respirava, mas conseguia viver, entretanto numa noite fria de julho, perdi algo, alguém, um amigo que descobri somente naquela hora. Então descobri a dor irreparável da perda, da injustiça e da morte.
             Mesmo triste e infectado pela dor, tive que continuar, com a tristeza partilhada com mais algumas pessoas, me despedi desse amigo descoberto tão tardiamente. E a luta acadêmica começou.
Começou de dois modos, em duas frentes batalhei e vivi e fora o trabalho duro o estudo dominou a mente, descobri amigos nos dois lugares, um deles me deu até um novo labor, mas antes eu tinha que sair. Sair de anos trabalhando e sendo humilhado, vingar as gracinhas e as vilanias cometidas por patrões tão inglórios e decrépitos, que tinham enganado tantos tolos, mas não a mim. Não comigo. Então descobri a vingança e seu doce e ao mesmo tempo amargo sabor.
              Algum tempo depois, comecei um novo trabalho, menos suado e muito mais glorioso, por conta da amizade que só foi possível acontecer por conta da insistência de alguém, consegui chegar ao começo de uma escada que só subia, mas as humilhações continuavam e meu refúgio não era já tão particular, era agora compartilhado por pessoas velhacas e loucas, sempre incertas e indecentes, a humilhação de quem ajudou e nunca esqueceu de cobrar por isso, sempre a vítima, sempre a coitada, no fim parecia bem isso: a exploração contínua de alguém que na sua inocência maliciosa queria que sentissem pena dela, “um mal familiar: a necessidade de sentir pena de si mesmo” e no fim foi ficando só, no final só restavam quatro e saído de lá revivendo tantos anos angustiantes e aflitivos, de abrigos e alguns sorrisos, finalmente ela se viu só (se é bom ou ruim não sei), a solidão tão procurada e aguardada. Então, com lágrimas nos olhos, descobri o perdão.
          Acreditava que tinha terminado, finalmente tinha conseguido sair da vergonhosa companhia de alguém que não me queria por perto, num novo lugar, uma nova vida e novas perspectivas, terminando alguns assuntos inacabados, me despi da couraça, das armas, fiquei leve, respirando fundo e vivendo mais, um amor expressivo e contente. As armas empoeiradas não deixavam nenhuma dúvida estavam aposentadas. Num intervalo de quinze dias, fui ovacionando por mais de trezentas pessoas, homenageei uma escudeira que só descobri há pouco, arrumei um lar e estou pronto para ficar livre de vez do meu dissabor do mundo. Então me redescobri, vi aquela criança sonhadora renascer num peito esperançoso de vida, vi todas as esperanças dela. Então redescobri a paz.

João Rogério Alencar.

Tempo nublado




Ando irritado, não sei o porquê mas tenho algumas teorias, umas absurdas outras nem tanto, mas enfim estou irritado e essa é a questão central. Fico imaginando cenários onde descarregar minha raiva, onde eu posso usá-la para algo mais construtivo, onde não afete as pessoas mais queridas e próximas, onde talvez sirva para alguma coisa, mas não sei onde, nem sei se devo me desfazer dessa raiva, é algo controlado, não deixa de ser um sentimento ruim, mas gosto de pensar que se posso controla-la não deve ser tão ruim assim.
         A raiva é algo inerente ao ser humano, algumas pessoas a sentem o tempo todo, outras (mais nobres de caráter, acho eu) passam por cima, como se não fosse nada além de uma incômoda picada de mosquito, mas a minha não é constante, nunca foi, parece mais com algo que vem e vai, como ondas num mar ora calma, ora turbulento. Sempre tive isso desde que eu tive o dissabor de experimentar a traição de alguém querido, e faz parte de mim, pois esse mau humor já é característico para aqueles que me conhecem e gostam de mim, mas ultimamente tenho ficado com mais raiva e por longos períodos, como se algo pressionasse minha nuca constantemente, eu o que essa pressão significa. A responsabilidade de uma nova vida, pautada somente pelas minhas escolhas.
         Penso em tudo que eu posso fazer para diminuir e me perco em teorias de como deve nascer o sentimento de raiva e me pergunto como deve ser para alguém que tem uma ideologia forte e virtualmente incontestável ver essa ideologia tombar, tal qual viram os comunistas tombando o muro de Berlim há duas década atrás, deve ser como se arrancassem uma parte sua, por isso eu acredito que todos uma hora na vida tem que se apegar a algo. Ao trabalho, a religião, as idéias políticas, as idéias naturalistas, ao ecologicamente correto, ao politicamente correto, a boa alimentação e é claro ao amor. Qualquer uma dessas escolhas propostas é algo plausível de acontecer com qualquer um, mas minha raiva continua, pois não penso se essas coisas me ajudariam de fato.
         Um olhar diferente do mundo é isso que eu preciso, olho pela janela e vejo o tempo nublado indiferente ao que sinto, e de repente me lembro, das enchentes de verão no fim  e começo dos anos, me lembro das mortes infligidas pela natureza, regresso mais ainda no tempo  e vejo as mortes e a dor das famílias em guerras e atentados terroristas, bombas atômicas e campos de concentração, verdades e mentiras de um mundo entortado por seus filhos mais inteligentes e menos sábios, todos os poderes contra aqueles que não se defendem mais e contra aqueles que se defendem até o fim, com alegria na esperança de tempos melhores, dos sorrisos de seus filhos, da bondade que vez ou outra ilumina esse mundo obscurecido por medos e ressentimentos. Sobressaltado e arredio eu me vejo aqui novamente e olho envergonhado para a janela e depois de todas essas visões e recordações desgostosas, eu penso: “e eu aqui com toda essa raiva.”      


João Rogério Leite

Um recado para alguém.


                                                                      
            Olá!
            Acredito que estaremos bem, mas o que me faz falta é justamente a sua presença. Independentemente de nos acharmos fortes e acharmos que essa força não vai se esvair nunca, estamos bem, mas vai fazer falta. Porém seu vazio será preenchido pelas lembranças boas dos meus filhos e meus irmãos que ainda são irmãos, e isso é muito nos dias de hoje. Queria que tivéssemos tido uma chance, mas meu orgulho não deixou e esse mesmo orgulho que me faz agora escrever escondido.
            Estou bem acredite, arrumei uma bela menina e espero meu casamento para breve e ainda penso que poderia ser diferente, mas a vida nos priva de coisas para nos dar outras. Não queria ter sido privado de você, nem pela vida nem pela sua irresponsabilidade. Sinto sua falta mesmo que os bons momentos tenham sido poucos e que não tivéssemos a mínima idéia do que o destino  nos reservava. Meus irmãos não têm esse problema, aceitam o que aconteceu e o que passou e ainda te consideram, mas eu.... fiquei forte demais, independente demais, e tolo demais para não admitir sua falta. E sabe o que é pior? Saber que eu não vou voltar atrás e nem o tempo.
            E eu sei que no fim eu vou me arrepender e escrever sozinho no escuro vai ser minha única alternativa, sinto sua falta... e ainda choro escondido.


Bellator.

Coisas antigas que agora torno públicas.

Nos próximos dias irei postar alguns textos escritos por mim há algum tempo (anos), mas como só agora eu consegui (parei de preguiça na verdade) fazer um blog, vão se torna públicas Serão textos pessoais, opniões pessoais, então quem gostar comente, quem não gostar também. desculpem se em algum momento faltar algo na ortografia ou na concordância.

Um grande abraço à todos.

João Rogério.




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