domingo, 28 de março de 2010

Descobertas

           Num dia chuvoso redescobri-me, nas viagens nebulosas e chuvosas de volta do trabalho, cheguei à conclusão que me redescobri. Não foi qualquer redescoberta, foi pueril, foi insana, maravilhosa e fascinante. De volta para casa sem pressões da faculdade, sem um bom livro para ler, sem sono, consegui redescobrir-me. Sei quem sou.
          Vi coisas fantásticas em minhas fantasias de criança fui herói de mim mesmo, a procura da verdade encontrei minha fantasia há tanto perdida, a tanto esquecida e descobri o quanto eu mudei. Refiz amizades, desempenhei novos papéis, estive onde nunca sonhei (ou talvez tenha sonhado, mas sem perceber). Uma redescoberta difícil, dolorida, pois repassei alguns aspectos desagradáveis da minha lembrança, do meu caráter. Vi que cometi erros imperdoáveis vi que a lembrança do afeto não morreu e sim ficou guardada no fundo de minha alma e lá permanece, até que eu me vá, ou tenha coragem de acessá-la. Vejo que minha infância foi um emaranhado de descobertas e no meio de tantas acho que foi por aí que me perdi, perdi minha força, meu brilho próprio. Tentei ser mau, tentei ser indiferente e até tentei ter uma visão própria do mundo, mas aí vem a percepção da dura realidade, a dor repartida entre a essência da descoberta da mentira, quando alguém que você ama muito traí sua confiança com promessas tão tolas quanto vazias e você espera, um domingo, um mês, uma vida inteira, como eu esperei.
         Fui tolo algumas vezes, mas até do que eu gostaria de admitir, esperei mais do que deveria, me reservei ao direito de me reservar, tive medo de um parente, odiei-o por isso, tive que engolir meu orgulho, engolir a vergonha como um pedaço de pão velho e mofado, por um erro não cometido por mim. Aliviei-me quando a irmã do sonho veio e levou embora a única pessoa que eu temi no mundo, tenho certeza de que se não fosse isso o embate final seria entre eu e ele, porém a humilhação continuava e a cada vez era pior, mas não é só isso, estava perdido sem consciência do meu papel nesse mundo, pois vivia no meu próprio mundo. Aos poucos se foi à confiança nas pessoas e no mundo. Então fiquei sozinho.
            Só, embora convivendo com pessoas, fui levado a cada vez desconfiar mais e sempre temendo não alguém, não o mundo, mas a mim, porque sei que não podia confiar em ninguém, porque sei o que achavam de mim, “lá vai o estranho”, “o filho do meio”, “sem perspectivas”, “sem futuro”, sem nada. Continuava só, mas a solidão de fato não me incomodava, viajava nos livros como viajei na minha imaginação de criança, desfilei com orgulho pelos personagens de Verne e Huxley, de Anson e Tolkien e mais tarde de Gaiman e tantos outros que me desafiavam, me testavam. Já não estava tão só, consegui viver aos trancos e barrancos, a vergonha e a humilhação endureceram a casca, batiam e se machucavam, fiquei espinhoso, agora estava armado de minha própria arrogância, de meus próprios supostos saberem, entre gente tão ignorante que achava que sabia alguma coisa, que podiam alguma coisa. Então me vi melhor e maior que todos eles.
           Eu podia tudo, eu seria o que quisesse e quando fosse pagariam caro por isso, acabaria com tudo e com todos que me fizeram desacreditar na minha vida, mas minha confiança em mim era tão grande quanto minha tolice em acreditar que eu podia algo sem confiar em ninguém, minha queda foi grande, não o suficiente para eu perder a arrogância adquirida, mas o suficiente para me lembrar que na verdade não estava tão só, vi mãos me erguendo, mãos macias e afetuosas que me mostraram um aspecto esquecido, um aspecto que eu recusava em acreditar que existisse, a couraça continuava lá me protegendo. Não, não cometeria o mesmo erro de confiar em ninguém, mesmo tendo sido erguido, mesmo com tanto afeto e bondade, mas um olhar e aperto de mão e as palavras certas me fizeram abrandar a fúria que carregava no peito e lá a despeito de todas as minhas expectativas, eu pude confiar em alguém. Então descobri a amizade.
Agora um novo sabor invadia a vida dura e corrompida, uma nova vertente da realidade, a carapaça continuava e eu continuava a ser o “sem futuro”, mas eu via e vivia a situação sob um novo aspecto, um aspecto melhor que os anteriores sem dúvida, mesmo sendo algo incompreensível, indecifrável, me tornei menos amargo, menos rígido, mas continuava a ser o que eu achava que deveria ser. Ser forte, prepotente, desconfiado e sem saber perdoar. Independentes das escolhas que fiz dos caminhos que tomei e das verdades que estabeleci, as coisas mudavam. O horizonte não era mais tão negro, solitário e sombrio. Por essa época descobri a bondade e beleza acima de tudo, num misto de surpresa e incredulidade eu vi a beleza dos olhos, a bondade do ser. Então descobri o amor.
              Linda, simples e delicada, com ela eu deveria ficar, mas para isso era necessária, porém, uma luta (como tantas em minha vida). Descobri que era tão bem guardada, por um alguém egoísta que tinha como ajudante um anão ardiloso, num castelo simplório. Impondo condições, regras, “minha casa, minhas regras” foi o que disseram, desafiando quem quisesse se aventurar, mas eu ainda era um guerreiro e carapaça continuava lá, não me contive e dessa vez eu fui às armas, dessa vez eu lutei e respondi “minha arma, minha regra”, e então a luta seria longa e por vezes sangrenta e cruel, num combate que acreditem, terminou empatado, com concessões inimagináveis, e com perdas irreparáveis, minha desconfiança aumentou novamente.
            Agora uma nova paisagem, trabalho e cansaço, o “sem futuro” caçava e tentava lutar e viver ao mesmo tempo, mas estava feliz, como nunca estive, vivi como nunca vivi, tinha algo para chamar de “meu”, mais agradável e solícito, mais maleável menos inflexível, mas com minha essência intacta, pois não podia me despir da fortaleza, os inimigos agora eram mais duros e tinham como me atingir, não era só eu, tinha gente com perspectivas sobre mim. Lutava, trabalhava, por vezes dobrava e respirava, mas conseguia viver, entretanto numa noite fria de julho, perdi algo, alguém, um amigo que descobri somente naquela hora. Então descobri a dor irreparável da perda, da injustiça e da morte.
             Mesmo triste e infectado pela dor, tive que continuar, com a tristeza partilhada com mais algumas pessoas, me despedi desse amigo descoberto tão tardiamente. E a luta acadêmica começou.
Começou de dois modos, em duas frentes batalhei e vivi e fora o trabalho duro o estudo dominou a mente, descobri amigos nos dois lugares, um deles me deu até um novo labor, mas antes eu tinha que sair. Sair de anos trabalhando e sendo humilhado, vingar as gracinhas e as vilanias cometidas por patrões tão inglórios e decrépitos, que tinham enganado tantos tolos, mas não a mim. Não comigo. Então descobri a vingança e seu doce e ao mesmo tempo amargo sabor.
              Algum tempo depois, comecei um novo trabalho, menos suado e muito mais glorioso, por conta da amizade que só foi possível acontecer por conta da insistência de alguém, consegui chegar ao começo de uma escada que só subia, mas as humilhações continuavam e meu refúgio não era já tão particular, era agora compartilhado por pessoas velhacas e loucas, sempre incertas e indecentes, a humilhação de quem ajudou e nunca esqueceu de cobrar por isso, sempre a vítima, sempre a coitada, no fim parecia bem isso: a exploração contínua de alguém que na sua inocência maliciosa queria que sentissem pena dela, “um mal familiar: a necessidade de sentir pena de si mesmo” e no fim foi ficando só, no final só restavam quatro e saído de lá revivendo tantos anos angustiantes e aflitivos, de abrigos e alguns sorrisos, finalmente ela se viu só (se é bom ou ruim não sei), a solidão tão procurada e aguardada. Então, com lágrimas nos olhos, descobri o perdão.
          Acreditava que tinha terminado, finalmente tinha conseguido sair da vergonhosa companhia de alguém que não me queria por perto, num novo lugar, uma nova vida e novas perspectivas, terminando alguns assuntos inacabados, me despi da couraça, das armas, fiquei leve, respirando fundo e vivendo mais, um amor expressivo e contente. As armas empoeiradas não deixavam nenhuma dúvida estavam aposentadas. Num intervalo de quinze dias, fui ovacionando por mais de trezentas pessoas, homenageei uma escudeira que só descobri há pouco, arrumei um lar e estou pronto para ficar livre de vez do meu dissabor do mundo. Então me redescobri, vi aquela criança sonhadora renascer num peito esperançoso de vida, vi todas as esperanças dela. Então redescobri a paz.

João Rogério Alencar.

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