quinta-feira, 24 de julho de 2014

As mães sempre ganham

                Daquilo que partiu não se tem mais notícias, as referências mudaram. As consequências também.  Foram anos gastos com preparos insípidos e pouco relevantes de uma maneira geral. Não há mais nada do que havia há um ano ou dez anos, nada. Nenhuma sombra de vaidade, nem de egos inflados, nenhuma tentativa de forçar o que não deve ser forçado. Estou aqui sentado na varanda olhando a fria claridade de julho e nem me pergunto qual a razão. Registro o cachorro correndo pelo canto do olho. Registro primeiro o som de um avião cortando o céu e depois vejo sua silhueta escura indo rápido ao seu destino. Parece lento, mas é mais rápido que qualquer carro comum.

Registro a fala de uma mãe com seu filho, um pequeno lorde a julgar pelo tratamento dispensado, tentando convencê-lo a fazer uma determinada tarefa que o pequeno obstinadamente se recusa. Pequeno sim, mas com grandes vontades, vontades tão importantes para ele, quanto irrelevantes para a mãe. Cá fico esperando o resultado da contenda, sem nenhuma intenção de intervir, só quero registrar o caso dessa vez. Ela usa argumentos muito bons, mas a criança diz que não. Ela ameaça que ele irá para o castigo se não a obedecer, ele desdenha e diz mais uma vez: - Não! Um berro ameaça sair da boca da mãe que respira fundo. Muita personalidade tem esse menino, com seus quase três anos e belos cabelos claros. A mãe já sem solução, pergunta:

 - Você aí na varanda pode me ajudar a convencer ele? Eu respondo, sorrindo:

 - Que tipo de homem eu seria se tirasse a autoridade da mãe? Ela me olha incrédula, não diz nada e retoma a atividade. O garoto me olha e sorri, eu devolvo o sorriso. A mãe, cansada que está, desiste por enquanto.

Ele vem até mim, senta ao meu lado e vendo o cachorro, grita: - Olha o au au. Eu não digo nada, continuo a observar, as reações do menino ao meu lado e da mãe parada na porta olhando para ele. Ele corre para o quintal e ela atrás. O sol em ambos, e apesar do frio que está ele solta outro grito: - O sol está quente, muito quente. Ao que a mãe diz: - Está mesmo. Que tal se refrescar com um banho? Ele finalmente concorda. Ela me olha e pisca. Devolvo a piscadela e acompanho o rastro que o avião deixou nas nuvens, nesse momento penso:

As mães sempre ganham.


João Rogério Alencar.