Daquilo
que partiu não se tem mais notícias, as referências mudaram. As consequências também.
Foram anos gastos com preparos insípidos
e pouco relevantes de uma maneira geral. Não há mais nada do que havia há um
ano ou dez anos, nada. Nenhuma sombra de vaidade, nem de egos inflados, nenhuma
tentativa de forçar o que não deve ser forçado. Estou aqui sentado na varanda
olhando a fria claridade de julho e nem me pergunto qual a razão. Registro o
cachorro correndo pelo canto do olho. Registro primeiro o som de um avião
cortando o céu e depois vejo sua silhueta escura indo rápido ao seu destino.
Parece lento, mas é mais rápido que qualquer carro comum.
Registro a
fala de uma mãe com seu filho, um pequeno lorde a julgar pelo tratamento
dispensado, tentando convencê-lo a fazer uma determinada tarefa que o pequeno
obstinadamente se recusa. Pequeno sim, mas com grandes vontades, vontades tão
importantes para ele, quanto irrelevantes para a mãe. Cá fico esperando o resultado
da contenda, sem nenhuma intenção de intervir, só quero registrar o caso dessa
vez. Ela usa argumentos muito bons, mas a criança diz que não. Ela ameaça que
ele irá para o castigo se não a obedecer, ele desdenha e diz mais uma vez: - Não!
Um berro ameaça sair da boca da mãe que respira fundo. Muita personalidade tem
esse menino, com seus quase três anos e belos cabelos claros. A mãe já sem
solução, pergunta:
- Você aí na varanda pode me ajudar a convencer
ele? Eu respondo, sorrindo:
- Que tipo de homem eu seria se tirasse a
autoridade da mãe? Ela me olha incrédula, não diz nada e retoma a atividade. O
garoto me olha e sorri, eu devolvo o sorriso. A mãe, cansada que está, desiste por
enquanto.
Ele vem até
mim, senta ao meu lado e vendo o cachorro, grita: - Olha o au au. Eu não digo
nada, continuo a observar, as reações do menino ao meu lado e da mãe parada na
porta olhando para ele. Ele corre para o quintal e ela atrás. O sol em ambos, e
apesar do frio que está ele solta outro grito: - O sol está quente, muito
quente. Ao que a mãe diz: - Está mesmo. Que tal se refrescar com um banho? Ele
finalmente concorda. Ela me olha e pisca. Devolvo a piscadela e acompanho o
rastro que o avião deixou nas nuvens, nesse momento penso:
As mães sempre
ganham.
João
Rogério Alencar.