quarta-feira, 22 de maio de 2013

O lago espelho



                Sorveu o ar com força. Tinha sido um mergulho longo, a água estava mais fria que de costume e por estranho que possa parecer mais espessa, como se algo quisesse impedi-lo de mergulhar. Estava cansado com a subida das profundezas do lago, aquele lago que lhe inspirava temores quando criança, aquele lago que ele venceu quando adulto. Aquele lago que era seu refúgio particular nos tempos difíceis e o lugar ao sol para os tempos felizes. Respirou na superfície e boiou por um tempo. Ficou fitando o céu para onde iam todas as preces do mundo. Para onde olhavam os também descrentes, que não creem em nada além dos que os próprios olhos veem. Nadou até a margem, sentou e esperou que o sol fizesse sua parte para seca-lo.

               - Esperando alguém? Alguém perguntou, atrás dele.
Virou-se, esperando encontrar um senhor, pois a voz era rouca, mas quem falou não era um homem e sim uma senhora.
- Está esperando alguém, rapaz? A pergunta foi mais incisiva.
- Desculpe-me, eu não a vi aí. Achava que estava sozinho, acabei devaneando enquanto olhava o lago. Mas respondendo à sua pergunta. Não estou esperando ninguém.
- Tudo bem, é de minha preferência não ser notada, às vezes venho aqui sozinha para sonhar também. Tossiu e continuou. – Posso sentar?
- Claro. Sente-se, afinal não sou o dono do lago. Respondeu prontamente.
- Qual seu nome? A velha senhora perguntou, depois de se sentar e tossir mais uma vez.
- Meu nome de batismo é João, mas às vezes penso que meu nome real é Bellator. – e o seu?
- Me chamo Lucíola, respondeu ela com mais uma tossida.
- Tem um romance com esse nome, mas esqueci-me quem é o autor.
- José de Alencar é o autor. Eu sei por que perguntei muito tempo atrás qual era a origem do meu nome. Tempos depois eu li o romance.
Fez-se um silêncio, o vento se fazia escutar e formava pequenas marolas no lago, após um tempo Lucíola falou:
- Seria bom se pudéssemos escolher nosso próprio nome não é? Não vejo impedimentos em relação a isso, mas poucas pessoas escolhem o próprio nome, pois já se convencionaram ao que escutaram desde sempre. Seria menos prejudicial do que escolher fumar, por exemplo, escolher o nome seria libertador. Fumar é libertador também, mas acaba com o pulmão e com a garganta, como minha voz rouca denuncia.

Disse isso e riu uma risada que se tornou logo uma tosse, e continuou:
- Já te disseram que o nome que você escolheu é ridículo? Meio sem graça? Meio infantil?
- Já. Uma vez. Respondeu um pouco envergonhado.
- Então eu digo que essa pessoa que disse isso é uma acéfala, imbecil, pois te julgou e nem soube dizer o porquê, não sabia os motivos de sua escolha de nome, como já disse a escolha do próprio nome deveria ser nossa, sei lá quando fizéssemos quinze anos ou dezesseis anos. Eu sei o que significa seu nome, acho belo. Afinal se escolhemos tudo, por que não o nome? Eu escolhi minha vida, cada passo dela. Fiz exatamente o que queria e isso me levou onde eu estou. Nada deveria interferir nas nossas escolhas, mesmo as mais sutis como escolher que filme vai ver à noite ou o que comer vendo esse filme. Nada! A última palavra foi gritada, e ele percebeu que aquilo era um desabafo. Ela gritava e olhava para o lago, como se ele pudesse escutar:
“Nada! Eu escolhi estar aqui! Sou minha própria escolha de vida, sou o meu resultado e de ninguém mais. São minhas escolhas que estão aqui, nenhuma foi imposta, todas foram minhas. Saiba você que tirou de mim tudo o que eu tinha menos a minha vontade de viver.”

E voltou-se para o rapaz sentado na beira do lago, com o rosto riscado por duras lágrimas e disse:

- Estava à espera para falar isso há anos. Eu precisava responder ao lago, acho que a água é o mais próximo de divino que temos nesse mundo sem fé. Eu não queria fazer isso sozinha. Precisava gritar com ele. Essa é minha redenção e minha escolha, as pessoas são covardes às vezes e essa covardia afeta alguns ao redor. Num momento parece que queremos algo, mas quando temos certeza disso vem alguém e diz que você não pode, que não é mais aquilo que queria, que não tem certeza e pisa no seu coração. Conheci alguém assim. Meu grito é para esse alguém.
- Tudo bem. Ele disse. – Todos nós precisamos jogar fora o que nos faz mal, para podermos continuar não é senhora Lucíola?
- Ah sim, temos sim. Ela se levantou, tossiu mais uma vez. – Sabe rapaz, meu nome não é Lucíola. Esse foi o nome que escolhi para conversarmos.
- Por quê? Ele perguntou.
- Porque é mais fácil ser outra pessoa quando vamos desabafar. Porque assim eu digo o que tenho que te dizer, você ouve o que quer e nenhum de nós sai daqui o mesmo. Porque às vezes devemos gritar, para então perdoar.
                “É por isso que estou aqui. Para perdoar os covardes, que conheci pelo caminho. Para perdoar aqueles que escolheram morrer sonhando, do que viver realmente.”
                - Parece-me uma maneira cruel de julgar as pessoas. Ele disse. – Afinal quem pode saber o que motiva alguém a fazer algo? E se souberem, quem pode julgá-los por fazerem a escolha mais segura? Você mesma me disse que seu nome não é o que afirmou que era a pouco. Desculpe-me mais isso me parece covardia também.

                Ela sorriu e disse:
                - Mas eu não estou perdoando os outros. Ou você ainda não entendeu?
                - É sua redenção, então? Se for, porque aqui?
                - O lago é um espelho. Ela o fitou séria. – O lago é meu espelho e quando nos deparamos com nós mesmos, devemos nos congratular ou nos perdoar, tudo depende da vida que levamos até então. Tudo depende de como você se encara. Depende do nome que escolhe para ser seu.
                A velha senhora deu um aceno e foi embora.
                Ele ficou ali, encarando o lago. Encarando a si próprio, enquanto as horas passavam e a conversa ecoava em sua cabeça.

João Rogério Alencar.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Nope. Que haja Hope!



                Dia desses fui convidado por um velho amigo para um café, nesse encontro ele me contou de uma época da sua vida. Sobre uma época em que nada deu certo e que tanto profissionalmente, como no casamento sua vida não ia nada bem. Ele queria mesmo fugir. Queria sair de toda aquela aflição que o estava consumindo. Pois bem esse meu amigo, acabou por me contar todos os seus problemas, que não vou expor aqui, mas num breve resumo as coisas estavam realmente bem ruins. Eu perguntei como ele passou por tudo aquilo. Ele me olhou sério e disse que ia me contar algo muito pessoal e contou que o que o ajudou de fato foi uma alucinação, uma alucinação onde ele estava fugindo de todos os seus problemas que haviam tomado forma. Estávamos na varanda de sua casa enquanto sua esposa estava na sala.  Segue abaixo o relato em terceira pessoa do que me contou:

                Na fuga que se seguiu queria um portal que só ele deveria passar. Para fugir de sua própria fuga ia caminhando no ermo da própria existência, esperava que nada o alcançasse, nada que daquilo que estava fugindo, pudesse de alguma forma o encontrar. Ele queria sair do lugar que se encontrava e restaurar a si mesmo, esperando que o tempo que tinha fosse suficiente, suficiente para seguir em frente. Eram tantos os problemas, tantas as aflições que fugir era a única coisa a se fazer. Fugir era o que restava, uma vez gabara-se que nunca tivera medo depois que alcançou a maturidade. Dizia que o medo era para os fracos de espírito, mas se não tinha medo então porque fugia? Porque não encarar a situação toda de frente? Tantas eram as frentes que não soube por onde começar e sabia que era errado fugir, mas precisava de uma porta, uma esperança que deveria atingir e deveria pulsar. Um fio invisível, que o forçasse a continuar, porque como estava não dava. Do jeito que ia não dava para continuar. Só precisava de um pouco de ar, uma coisa diferente que desse a ele um novo jeito de enxergar a situação que o abrangia e que tornasse mais fácil encarar. Queria um sopro de ar renovado, um copo de água limpa, queria sorrir sem reviver os problemas, sem ter que encara-los de fato. Ali onde as estradas se cruzam, era onde ele tinha parado. Revivendo cada segundo que impetuosamente saiu à procura de fuga.  

                O local era aquele onde as pessoas tomam decisões que levam ao arrependimento letal de uma vida ou a verdadeira consciência que a decisão tomada foi à correta. A fuga não era é claro, de ninguém mais além de si. De seus próprios erros de julgamento, coisas que o arrependimento não ajuda a melhorar. Ali se encontrava, onde o mundo bifurca a vida. Ali onde havia a possibilidade de fuga, ali onde a verdade se encontra com a mentira, onde as ambiguidades se tornam unas. Ali era o local da escolha. A fuga para um lugar novo, onde a vida só permitia a redescoberta dela mesma ou a coragem para não fugir e encarar o que não queria. Ambas as escolhas eram incertas, ambas tem as vantagens do término. A primeira para um novo local e a segunda para o mesmo. Então qual seria a escolha? Fugir ou lutar? Ele ponderava suas opções, mas o tempo não é aliado de ninguém na maioria das vezes em que se precisa dele. Cada vez que pensava em uma, a outra opção parecia mais verde e viva. Na aflição dos segundos que passavam, ele cada vez menos sabia o que ia escolher e era questão de tempo que tudo o que estava o perseguido o alcançasse. Nos momentos conflitantes ele perdia tempo, na escolha de sua vida perdia um pouco mais de tempo de vida. FUGIR OU LUTAR? Sua mente gritava. E então, quando não havia mais nenhum tempo, quando não havia mais esperança (como é conveniente em casos como este) tomou sua escolha.
               Meu amigo estava sentado na sua varanda, num fim de tarde. Conversou  a serio comigo a respeito disso, me falou do desespero da fuga, da inconstância que passou. Contou-me tudo, todos os seus problemas, que não eram poucos, e todas as suas angústias, as aflições que sua mente não parava de mostrar. Já no fim do seu fantástico relato eu perguntei:

                - Porque voltou?
                - Eu voltei, porque era o que eu devia fazer. Foi sua resposta.
                - Mas e a fuga? E o portal? Não pareciam mais seguros? Não deveria ser essa à escolha óbvia?
                - Eu sei. Parece que a minha volta é meio insensata, mas sabe o que eu descobri meu amigo? Na hora que tudo ia explodir e que a fuga era o mais certo a se fazer, eu me lembrei dela. Da convicção em que acreditavam em mim e me lembrei. Lembrei-me que existia um portal, que existia sempre um lugar para onde fugir.
                - E qual é afinal esse lugar? Onde fica afinal esse portal?!? Eu perguntei já impaciente com aquilo.
                Ele sorriu, esperou um pouco, apontou para dentro de casa e num sussurro me falou:
                - Nos lábios dela.
                                                                                                                                 João Rogério Alencar.