Sorveu
o ar com força. Tinha sido um mergulho longo, a água estava mais fria que de
costume e por estranho que possa parecer mais espessa, como se algo quisesse
impedi-lo de mergulhar. Estava cansado com a subida das profundezas do lago,
aquele lago que lhe inspirava temores quando criança, aquele lago que ele
venceu quando adulto. Aquele lago que era seu refúgio particular nos tempos
difíceis e o lugar ao sol para os tempos felizes. Respirou na superfície e
boiou por um tempo. Ficou fitando o céu para onde iam todas as preces do mundo.
Para onde olhavam os também descrentes, que não creem em nada além dos que os
próprios olhos veem. Nadou até a margem, sentou e esperou que o sol fizesse sua
parte para seca-lo.
-
Esperando alguém? Alguém perguntou, atrás dele.
Virou-se,
esperando encontrar um senhor, pois a voz era rouca, mas quem falou não era um
homem e sim uma senhora.
- Está
esperando alguém, rapaz? A pergunta foi mais incisiva.
- Desculpe-me,
eu não a vi aí. Achava que estava sozinho, acabei devaneando enquanto olhava o
lago. Mas respondendo à sua pergunta. Não estou esperando ninguém.
- Tudo bem, é
de minha preferência não ser notada, às vezes venho aqui sozinha para sonhar
também. Tossiu e continuou. – Posso sentar?
- Claro.
Sente-se, afinal não sou o dono do lago. Respondeu prontamente.
- Qual seu nome?
A velha senhora perguntou, depois de se sentar e tossir mais uma vez.
- Meu nome de
batismo é João, mas às vezes penso que meu nome real é Bellator. – e o seu?
- Me chamo
Lucíola, respondeu ela com mais uma tossida.
- Tem um
romance com esse nome, mas esqueci-me quem é o autor.
- José de
Alencar é o autor. Eu sei por que perguntei muito tempo atrás qual era a origem
do meu nome. Tempos depois eu li o romance.
Fez-se um
silêncio, o vento se fazia escutar e formava pequenas marolas no lago, após um
tempo Lucíola falou:
- Seria bom se
pudéssemos escolher nosso próprio nome não é? Não vejo impedimentos em relação
a isso, mas poucas pessoas escolhem o próprio nome, pois já se convencionaram
ao que escutaram desde sempre. Seria menos prejudicial do que escolher fumar,
por exemplo, escolher o nome seria libertador. Fumar é libertador também, mas
acaba com o pulmão e com a garganta, como minha voz rouca denuncia.
Disse isso e
riu uma risada que se tornou logo uma tosse, e continuou:
- Já te
disseram que o nome que você escolheu é ridículo? Meio sem graça? Meio
infantil?
- Já. Uma vez.
Respondeu um pouco envergonhado.
- Então eu
digo que essa pessoa que disse isso é uma acéfala, imbecil, pois te julgou e
nem soube dizer o porquê, não sabia os motivos de sua escolha de nome, como já
disse a escolha do próprio nome deveria ser nossa, sei lá quando fizéssemos
quinze anos ou dezesseis anos. Eu sei o que significa seu nome, acho belo. Afinal
se escolhemos tudo, por que não o nome? Eu escolhi minha vida, cada passo dela.
Fiz exatamente o que queria e isso me levou onde eu estou. Nada deveria
interferir nas nossas escolhas, mesmo as mais sutis como escolher que filme vai
ver à noite ou o que comer vendo esse filme. Nada! A última palavra foi
gritada, e ele percebeu que aquilo era um desabafo. Ela gritava e olhava para o
lago, como se ele pudesse escutar:
“Nada! Eu
escolhi estar aqui! Sou minha própria escolha de vida, sou o meu resultado e de
ninguém mais. São minhas escolhas que estão aqui, nenhuma foi imposta, todas
foram minhas. Saiba você que tirou de mim tudo o que eu tinha menos a minha
vontade de viver.”
E voltou-se
para o rapaz sentado na beira do lago, com o rosto riscado por duras lágrimas e
disse:
- Estava à
espera para falar isso há anos. Eu precisava responder ao lago, acho que a água
é o mais próximo de divino que temos nesse mundo sem fé. Eu não queria fazer
isso sozinha. Precisava gritar com ele. Essa é minha redenção e minha escolha,
as pessoas são covardes às vezes e essa covardia afeta alguns ao redor. Num
momento parece que queremos algo, mas quando temos certeza disso vem alguém e
diz que você não pode, que não é mais aquilo que queria, que não tem certeza e
pisa no seu coração. Conheci alguém assim. Meu grito é para esse alguém.
- Tudo bem. Ele
disse. – Todos nós precisamos jogar fora o que nos faz mal, para podermos
continuar não é senhora Lucíola?
- Ah sim,
temos sim. Ela se levantou, tossiu mais uma vez. – Sabe rapaz, meu nome não é
Lucíola. Esse foi o nome que escolhi para conversarmos.
- Por quê? Ele
perguntou.
- Porque é
mais fácil ser outra pessoa quando vamos desabafar. Porque assim eu digo o que
tenho que te dizer, você ouve o que quer e nenhum de nós sai daqui o mesmo. Porque
às vezes devemos gritar, para então perdoar.
“É
por isso que estou aqui. Para perdoar os covardes, que conheci pelo caminho. Para
perdoar aqueles que escolheram morrer sonhando, do que viver realmente.”
-
Parece-me uma maneira cruel de julgar as pessoas. Ele disse. – Afinal quem pode
saber o que motiva alguém a fazer algo? E se souberem, quem pode julgá-los por
fazerem a escolha mais segura? Você mesma me disse que seu nome não é o que afirmou
que era a pouco. Desculpe-me mais isso me parece covardia também.
Ela
sorriu e disse:
-
Mas eu não estou perdoando os outros. Ou você ainda não entendeu?
-
É sua redenção, então? Se for, porque aqui?
-
O lago é um espelho. Ela o fitou séria. – O lago é meu espelho e quando nos
deparamos com nós mesmos, devemos nos congratular ou nos perdoar, tudo depende
da vida que levamos até então. Tudo depende de como você se encara. Depende do
nome que escolhe para ser seu.
A
velha senhora deu um aceno e foi embora.
Ele
ficou ali, encarando o lago. Encarando a si próprio, enquanto as horas passavam
e a conversa ecoava em sua cabeça.
João Rogério Alencar.