quinta-feira, 9 de maio de 2013

Nope. Que haja Hope!



                Dia desses fui convidado por um velho amigo para um café, nesse encontro ele me contou de uma época da sua vida. Sobre uma época em que nada deu certo e que tanto profissionalmente, como no casamento sua vida não ia nada bem. Ele queria mesmo fugir. Queria sair de toda aquela aflição que o estava consumindo. Pois bem esse meu amigo, acabou por me contar todos os seus problemas, que não vou expor aqui, mas num breve resumo as coisas estavam realmente bem ruins. Eu perguntei como ele passou por tudo aquilo. Ele me olhou sério e disse que ia me contar algo muito pessoal e contou que o que o ajudou de fato foi uma alucinação, uma alucinação onde ele estava fugindo de todos os seus problemas que haviam tomado forma. Estávamos na varanda de sua casa enquanto sua esposa estava na sala.  Segue abaixo o relato em terceira pessoa do que me contou:

                Na fuga que se seguiu queria um portal que só ele deveria passar. Para fugir de sua própria fuga ia caminhando no ermo da própria existência, esperava que nada o alcançasse, nada que daquilo que estava fugindo, pudesse de alguma forma o encontrar. Ele queria sair do lugar que se encontrava e restaurar a si mesmo, esperando que o tempo que tinha fosse suficiente, suficiente para seguir em frente. Eram tantos os problemas, tantas as aflições que fugir era a única coisa a se fazer. Fugir era o que restava, uma vez gabara-se que nunca tivera medo depois que alcançou a maturidade. Dizia que o medo era para os fracos de espírito, mas se não tinha medo então porque fugia? Porque não encarar a situação toda de frente? Tantas eram as frentes que não soube por onde começar e sabia que era errado fugir, mas precisava de uma porta, uma esperança que deveria atingir e deveria pulsar. Um fio invisível, que o forçasse a continuar, porque como estava não dava. Do jeito que ia não dava para continuar. Só precisava de um pouco de ar, uma coisa diferente que desse a ele um novo jeito de enxergar a situação que o abrangia e que tornasse mais fácil encarar. Queria um sopro de ar renovado, um copo de água limpa, queria sorrir sem reviver os problemas, sem ter que encara-los de fato. Ali onde as estradas se cruzam, era onde ele tinha parado. Revivendo cada segundo que impetuosamente saiu à procura de fuga.  

                O local era aquele onde as pessoas tomam decisões que levam ao arrependimento letal de uma vida ou a verdadeira consciência que a decisão tomada foi à correta. A fuga não era é claro, de ninguém mais além de si. De seus próprios erros de julgamento, coisas que o arrependimento não ajuda a melhorar. Ali se encontrava, onde o mundo bifurca a vida. Ali onde havia a possibilidade de fuga, ali onde a verdade se encontra com a mentira, onde as ambiguidades se tornam unas. Ali era o local da escolha. A fuga para um lugar novo, onde a vida só permitia a redescoberta dela mesma ou a coragem para não fugir e encarar o que não queria. Ambas as escolhas eram incertas, ambas tem as vantagens do término. A primeira para um novo local e a segunda para o mesmo. Então qual seria a escolha? Fugir ou lutar? Ele ponderava suas opções, mas o tempo não é aliado de ninguém na maioria das vezes em que se precisa dele. Cada vez que pensava em uma, a outra opção parecia mais verde e viva. Na aflição dos segundos que passavam, ele cada vez menos sabia o que ia escolher e era questão de tempo que tudo o que estava o perseguido o alcançasse. Nos momentos conflitantes ele perdia tempo, na escolha de sua vida perdia um pouco mais de tempo de vida. FUGIR OU LUTAR? Sua mente gritava. E então, quando não havia mais nenhum tempo, quando não havia mais esperança (como é conveniente em casos como este) tomou sua escolha.
               Meu amigo estava sentado na sua varanda, num fim de tarde. Conversou  a serio comigo a respeito disso, me falou do desespero da fuga, da inconstância que passou. Contou-me tudo, todos os seus problemas, que não eram poucos, e todas as suas angústias, as aflições que sua mente não parava de mostrar. Já no fim do seu fantástico relato eu perguntei:

                - Porque voltou?
                - Eu voltei, porque era o que eu devia fazer. Foi sua resposta.
                - Mas e a fuga? E o portal? Não pareciam mais seguros? Não deveria ser essa à escolha óbvia?
                - Eu sei. Parece que a minha volta é meio insensata, mas sabe o que eu descobri meu amigo? Na hora que tudo ia explodir e que a fuga era o mais certo a se fazer, eu me lembrei dela. Da convicção em que acreditavam em mim e me lembrei. Lembrei-me que existia um portal, que existia sempre um lugar para onde fugir.
                - E qual é afinal esse lugar? Onde fica afinal esse portal?!? Eu perguntei já impaciente com aquilo.
                Ele sorriu, esperou um pouco, apontou para dentro de casa e num sussurro me falou:
                - Nos lábios dela.
                                                                                                                                 João Rogério Alencar.

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