Dia
desses fui convidado por um velho amigo para um café, nesse encontro ele me
contou de uma época da sua vida. Sobre uma época em que nada deu certo e que
tanto profissionalmente, como no casamento sua vida não ia nada bem. Ele queria
mesmo fugir. Queria sair de toda aquela aflição que o estava consumindo. Pois
bem esse meu amigo, acabou por me contar todos os seus problemas, que não vou
expor aqui, mas num breve resumo as coisas estavam realmente bem ruins. Eu
perguntei como ele passou por tudo aquilo. Ele me olhou sério e disse que ia me
contar algo muito pessoal e contou que o que o ajudou de fato foi uma
alucinação, uma alucinação onde ele estava fugindo de todos os seus problemas
que haviam tomado forma. Estávamos na varanda de sua casa enquanto sua esposa
estava na sala. Segue abaixo o relato em
terceira pessoa do que me contou:
Na
fuga que se seguiu queria um portal que só ele deveria passar. Para fugir de
sua própria fuga ia caminhando no ermo da própria existência, esperava que nada
o alcançasse, nada que daquilo que estava fugindo, pudesse de alguma forma o
encontrar. Ele queria sair do lugar que se encontrava e restaurar a si mesmo,
esperando que o tempo que tinha fosse suficiente, suficiente para seguir em
frente. Eram tantos os problemas, tantas as aflições que fugir era a única
coisa a se fazer. Fugir era o que restava, uma vez gabara-se que nunca tivera
medo depois que alcançou a maturidade. Dizia que o medo era para os fracos de
espírito, mas se não tinha medo então porque fugia? Porque não encarar a
situação toda de frente? Tantas eram as frentes que não soube por onde começar
e sabia que era errado fugir, mas precisava de uma porta, uma esperança que
deveria atingir e deveria pulsar. Um fio invisível, que o forçasse a continuar,
porque como estava não dava. Do jeito que ia não dava para continuar. Só precisava
de um pouco de ar, uma coisa diferente que desse a ele um novo jeito de
enxergar a situação que o abrangia e que tornasse mais fácil encarar. Queria um
sopro de ar renovado, um copo de água limpa, queria sorrir sem reviver os
problemas, sem ter que encara-los de fato. Ali onde as estradas se cruzam, era
onde ele tinha parado. Revivendo cada segundo que impetuosamente saiu à procura
de fuga.
O
local era aquele onde as pessoas tomam decisões que levam ao arrependimento
letal de uma vida ou a verdadeira consciência que a decisão tomada foi à
correta. A fuga não era é claro, de ninguém mais além de si. De seus próprios
erros de julgamento, coisas que o arrependimento não ajuda a melhorar. Ali se
encontrava, onde o mundo bifurca a vida. Ali onde havia a possibilidade de
fuga, ali onde a verdade se encontra com a mentira, onde as ambiguidades se
tornam unas. Ali era o local da escolha. A fuga para um lugar novo, onde a vida
só permitia a redescoberta dela mesma ou a coragem para não fugir e encarar o
que não queria. Ambas as escolhas eram incertas, ambas tem as vantagens do
término. A primeira para um novo local e a segunda para o mesmo. Então qual
seria a escolha? Fugir ou lutar? Ele ponderava suas opções, mas o tempo não é
aliado de ninguém na maioria das vezes em que se precisa dele. Cada vez que
pensava em uma, a outra opção parecia mais verde e viva. Na aflição dos
segundos que passavam, ele cada vez menos sabia o que ia escolher e era questão
de tempo que tudo o que estava o perseguido o alcançasse. Nos momentos
conflitantes ele perdia tempo, na escolha de sua vida perdia um pouco mais de
tempo de vida. FUGIR OU LUTAR? Sua mente gritava. E então, quando não havia
mais nenhum tempo, quando não havia mais esperança (como é conveniente em casos
como este) tomou sua escolha.
Meu amigo estava sentado na sua varanda, num fim
de tarde. Conversou a serio comigo a respeito disso, me falou do desespero da fuga, da
inconstância que passou. Contou-me tudo, todos os seus problemas, que não eram
poucos, e todas as suas angústias, as aflições que sua mente não parava de
mostrar. Já no fim do seu fantástico relato eu perguntei:
-
Porque voltou?
-
Eu voltei, porque era o que eu devia fazer. Foi sua resposta.
-
Mas e a fuga? E o portal? Não pareciam mais seguros? Não deveria ser essa à escolha
óbvia?
-
Eu sei. Parece que a minha volta é meio insensata, mas sabe o que eu descobri
meu amigo? Na hora que tudo ia explodir e que a fuga era o mais certo a se
fazer, eu me lembrei dela. Da convicção em que acreditavam em mim e me
lembrei. Lembrei-me que existia um portal, que existia sempre um lugar para
onde fugir.
-
E qual é afinal esse lugar? Onde fica afinal esse portal?!? Eu perguntei já
impaciente com aquilo.
Ele
sorriu, esperou um pouco, apontou para dentro de casa e num sussurro
me falou:
-
Nos lábios dela.
João Rogério Alencar.
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