quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O pequeno





O pequeno tinha medo de voar. Não sabia se suas asas iam funcionar, seus irmãos voavam já a grandes altitudes e passavam sobre ele zombando do seu medo. O medo era grande, a altura também e não havia outras justificativas além dessas, suas asas eram perfeitas, com a envergadura e penugem corretas. Não havia motivos para receios, mesmo assim ele tinha. Não via necessidade de voar, não achava que deveria. Só porque todos voavam porque ele tinha que ser igual? Não seria igual a ninguém, não se submeteria a nenhuma regra, resolveu viver sem voar, seria mais difícil para ele, mas tentaria assim mesmo. O tempo foi passando e seus irmãos foram crescendo e alçando vôos cada vez mais altos e pareciam felizes por aceitarem essa sua natureza. “Tolos” ele pensava. “Todos tolos, presos a submissão daquilo que esperam deles, tolos por acharem que somente no céu se encontra a felicidade.” Ninguém se importava mais com o pequeno e por ele ser diferente dos demais foi alvo por toda sua vida, passando assim a odiar todos que não o aceitassem, que não o quisessem. Ele não voava e nada iria fazê-lo mudar de idéia.
            Até que um dia, um despretensioso dia, ele viu uma pequena também, mas essa pequena voava. Ia e vinha com graça, leveza e beleza. Ficou extasiado com a visão daquela voadora, como se não acreditasse que algo que se rendeu ao vôo pudesse ser tão linda e pudesse mexer tanto assim com ele. Ela voava e não o notava, pois ele ficava nos galhos e nunca tinha ido ao chão, pois era perigoso lá para quem não soubesse voar. Assim transcorreram os dias, e eles passavam devagar quando não a via e rápidos nos momentos em que ela passava. Ele não se importava mais com nada, somente ela importava, mas ela nunca o olharia se ele não aprendesse a voa. Pelo menos era isso que ele achava.
            Um dia ele a observava escondido num galho pequeno como ele, mas numa manobra brusca ela virou da direção que ia indo justamente onde estava o pequeno. Pouso no mesmo galho, que apesar de pequeno sustentou os dois, não tinha como escapar ela estava ali e pousara olhando para ele e a pergunta saiu num piado:

- Há muito tempo me observa. Por quê? Uma pergunta direta, como direto era seu olhar. Não era um olhar severo, era um simples olhar de curiosidade.

- Não a observo. Observo todos vocês que voam e se sentem acima de mim. A resposta saiu um tanto misturada com prazer e raiva, prazer por falar com ela e raiva por ter sido interpelado daquela maneira.

- Não me sinto acima de ninguém por fazer aquilo que me é natural Porque pensa isso e mais importante porque me observa? Ela continuava o olhando, mas agora era um misto de curiosidade e pena.

- Ora, é claro que sua resposta não seria a verdadeira, eu sei quantas vezes fui zombado por não querer ser igual. Vá embora. Disse o pequeno irritado.

- Sim eu vou, não fique irritado. Mas é uma pena não me dizer por que me olhava tanto. E voou para longe dali.

A conversa terminou. Perdera sua chance por medo do que ela iria pensar e por medo de não poder lhe falar que não iria voar. Nunca mais falaria com ela, decidiu. Não a olharia mais, nem sequer sairia de casa. Decidiu viver mais recluso ainda.

Mas a vida não é tão simples não é?

            Ele tinha que sair alguns dias, pois era preciso viver e é claro que algum tempo depois ele a viu novamente e ela também o viu. Resolveram se ignorar mutuamente, mas não deu certo. Ela sentia o mesmo que ele e ainda o intrigava o fato de que ele a olhava, não com raiva como ele queria que parecesse, mas com doçura como era de verdade. Então quando passou um desses dias que ela voava e ele pulava de galho em galho, que ela resolveu novamente abordá-lo:
- Me desculpe pelo outro dia. Fui grosseira, mas me incomodava o fato de você me olhar tanto.
- Não há porque se desculpar, eu também não fui lisonjeiro como deveria e realmente a observava, mas não sei voar, nem quero aprender. Tive medo de que quando notasse isso agisse da mesma maneira que os outros. Piou ele.
- Não agiria assim. Deveria conhecer antes de julgar. Porque não voa? Foi direta como da outra vez, mas tinha que ser assim, não queria passar muito tempo antes de conversar sobre aquilo.
- Não gosto, não quero e tenho... medo respondeu ele.
- Tem medo? Por quê?
- Sim tenho. Não consigo voar, quase morri da primeira vez que tentei. Disse resignado.
- E tentou voar novamente? Ela perguntava com a mesma doçura que voava.
- Nunca, nem vou.
- Deveria ao menos tentar Tenho que ir, mas nos vemos aqui amanhã tá? E voou para longe.

            Depois disso, eles se encontraram todos os dias e conversavam sobre tudo, inclusive sobre vôos, sobre alturas e sobre mergulhos no ar. Aos pouco ela o foi convencendo que ele poderia voar, e o amor foi dominando o medo e ele aos poucos aceitou que poderia voar.
            Então começaram as tentativas e erros, e começaram as quedas e os acertos. E todo dia ele ia mais longe e voavam em círculos juntos com sua pequena, aprendeu a voar e feliz ficou, pois nunca pensara que poderia ser tão divertido voar. Mas nada dura para sempre e um dia ela lhe falou:

            - Acho que devemos dar um tempo. Aquilo foi dito sem muita convicção, mas foi.
- Por quê? O pequeno se recusava acreditar.
          - Você mudou sua vida por mim. Não posso te oferecer mais nada e tenho medo de te magoar. Quero que você voe para outros lugares. Ela disse mais segura agora. Tenho que ir. Voe, está bem?
           
            Ela se foi voando, tão repentinamente quanto chegara. Pequeno não sentia raiva dela, só ficou triste, meio que não acreditando que tudo acabara. Saiu dali voando também e sentindo o vento sob suas asas sorriu.

“Estou triste, talvez isso não passe nunca” ele pensou, e apesar disso sorria e ia cada vez mais alto e no fim seus pensamentos só eram: “Ela me ensinou a voar. Ela me ensinou.” E voando se foi também para outros lugares.

João Rogério Alencar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pontos.



               
Existem certas imposições nos dias de hoje que assustam uma pessoa um pouco menos atenta. Imposições,(para deixar bem claro) ideológicas, que põem aqueles que não partilham de um ou outro ideal como uma espécie de inimigo dos outros que seguem tais posições, ora existe uma espécie de conceito prévio sistemático, seja religioso ou não. Isso é perigoso porque historicamente quando isso ocorre geralmente culmina num ódio irracional fomentado pela não aceitação de opiniões divergentes. Preocupa-me ver as imposições de “verdades” ditas como certas, mas quem ou o que fundamenta essas “verdades?” A própria posição daqueles que impõe sua fé é cínica, pois existe uma condenação prévia e velada para aqueles que não a seguem, um cinismo típico dos intolerantes, pois não existe saída para os que preferem, passar pelo mundo sem esperar salvação num futuro distante ou esperar a felicidade plena num outro plano. Para esses só existe a condenação.

                Não sou antirreligioso e nem contra a fé, inclusive acho a fé, pura e simples, uma das coisas mais belas que existe. O problema (para mim) consiste na imposição de conceitos. Esperam que eu engula esse pão goela abaixo , que aceite um suposto erro na maneira como vejo o mundo, como se eu estive obrigado a não ter opiniões próprias, como se ainda vivêssemos num lugar em que a compreensão da terra é plana. Tenho escutado muitos absurdos ultimamente. Absurdos pautados pela intransigência com o outro, que demonstra inclusive uma predisposição ao ódio sobre aqueles que não estão vivendo de acordo com uma regra, ou com “suas regras específicas”. Não vivo hipocritamente, não é justo viver assim, não existe justiça certa nisso. Não que discutir religião ou ideais aqui. Primeiro porque é improdutivo e segundo porque é difícil encontrar quem quer que seja que discuta esse assunto sem uma paixão cega pela “própria verdade”. Conheço nos dedos de uma mão alguns que valeria a pena conversar sobre isso. Não tenho nada contra religião, opções, ideais que não sejam os meus. Não tenho mesmo. Só incomoda a vontade que alguns têm de fazer valer suas posições, pela força, pelo grito. É isso, não quero discutir, mas a verdade é que eu quero que vivam para sempre aqueles que se acham donos da verdade, pois sem eles  perdemos a referência do cinismo de quem afirma que a fé errada é a do outro.

                Não quero criar nenhuma polêmica, só quero que alguns deixem de ser ignorantes no que diz respeito ao outro, pois é isso que está faltando. Respeito. Se não puderem ter consciência disso é melhor que abandonem, o suposto posto de conhecedores da verdade. Não existe verdade inconteste, bem como existem mentiras que jamais serão esclarecidas e passarão pelo tempo incólumes. Eu acredito que a postura deva mudar, como disse uma amiga: “Ah João somos novos como civilização, ainda vamos aprender”. Quero acreditar nisso, na vontade de compreender que todos nós podemos ter uma visão particular do mundo.Tenho fé. Não existe incoerência nisso. Ter fé é acreditar, acredite então, mas não julgue, não compete (como bem sabem e pregam) a vocês isso.

                João Rogério Alencar

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Corcel




Estava ajoelhado no campo de batalha, explosões incontáveis à sua volta, mas não importava. O soldado estava ajoelhado cansado daquela batalha interminável. Nem sabia mais o motivo por qual lutava e nem importava mais, mas sabia que um dos motivos fora o ódio, a raiva, o sentimento que permite ver quais são as faces verdadeiras de todos. Ele não ia se levantar, esperava o fim parado ali na lama, com a arma de lado, esperava pelo termino. Chovia e fazia frio, mas estava indiferente a isso, a batalha parecia que fora perdida na véspera, mas os outros soldados ainda lutavam, agarraram-se a esperança da vitória, como alguém aceita a água suja quando está quase morto de sede. Não ele, ele tinha desistido de beber.

Esperava pelo fim, esperava que o barulho acabasse, numa guerra que começou pela raiva, só poderia acabar pela raiva. Por isso escolheu ajoelhar e ficar parado, não queria que seu último sentimento fosse esse: de raiva. “Você é o responsável pelo mal que causou.” Ainda ouvia em seus pensamentos essa verdade crua. “As suas mãos estavam carregadas.” Ouvia também. E por fim seus pensamentos gritavam: “A culpa é toda sua, são danos irreparáveis, erros inegociáveis! Você aceitou lutar soldado, toda a culpa é sua, nada foi imposto a você.” Tinha consciência do que acontecia, sabia as conseqüências de se ficar parado no meio daquele lugar, mas não queria mais ir. Sair dali numa fuga inconseqüente seria ainda pior.  Ser um desertor não era uma opção, não, a saída era ficar ali parado, esperando pelo último barulho de explosão. 

Foi quando aconteceu, a despeito da improbabilidade daquilo, ele viu vindo em sua direção um Corcel, preto e branco, patas musculosas e pelos vistosos, indiferente também ao barulho da guerra e corria numa velocidade estonteante. Chegou até ele, deu três voltas e parou ao lado do soldado ajoelhado na lama. O cavalo olhou, e seu olhar dizia: “Vai ficar chafurdando na lama ou vai dar uma volta comigo?” Não era crível aquilo e, no entanto acontecia. Demorou-se um pouco para levantar devido ao tempo que passou naquela posição, segurou no dorso do Corcel e montou, quase na mesma hora o animal disparou, tirando-os daquele lugar detestável, daquela batalha sem sentido. A velocidade era muito maior que um cavalo poderia correr, mas ele não se importava, pois o vento levava suas últimas lágrimas de confusão. O soldado estava montado e cavalgava num corcel, no Corcel e apesar de não ter dúvida nenhuma, perguntou: - Quem é você? Porque eu? E uma voz na sua cabeça respondeu: “É você por que sua história precisava ser contada”. e continuou: “Eu sou um Corcel. Meu nome não importa.”

O soldado sorriu, fechou os olhos e começou a cair no sono e ainda sorrindo pensou uma última coisa: “A Esperança surge na lama e ora bolas, é um corcel”.

João Rogério Alencar.