O pequeno
tinha medo de voar. Não sabia se suas asas iam funcionar, seus irmãos voavam já
a grandes altitudes e passavam sobre ele zombando do seu medo. O medo era
grande, a altura também e não havia outras justificativas além dessas, suas
asas eram perfeitas, com a envergadura e penugem corretas. Não havia motivos
para receios, mesmo assim ele tinha. Não via necessidade de voar, não achava
que deveria. Só porque todos voavam porque ele tinha que ser igual? Não seria
igual a ninguém, não se submeteria a nenhuma regra, resolveu viver sem voar,
seria mais difícil para ele, mas tentaria assim mesmo. O tempo foi passando e
seus irmãos foram crescendo e alçando vôos cada vez mais altos e pareciam
felizes por aceitarem essa sua natureza. “Tolos” ele pensava. “Todos tolos,
presos a submissão daquilo que esperam deles, tolos por acharem que somente no
céu se encontra a felicidade.” Ninguém se importava mais com o pequeno e por
ele ser diferente dos demais foi alvo por toda sua vida, passando assim a odiar
todos que não o aceitassem, que não o quisessem. Ele não voava e nada iria
fazê-lo mudar de idéia.
Até
que um dia, um despretensioso dia, ele viu uma pequena também, mas essa pequena
voava. Ia e vinha com graça, leveza e beleza. Ficou extasiado com a visão
daquela voadora, como se não acreditasse que algo que se rendeu ao vôo pudesse
ser tão linda e pudesse mexer tanto assim com ele. Ela voava e não o notava,
pois ele ficava nos galhos e nunca tinha ido ao chão, pois era perigoso lá para
quem não soubesse voar. Assim transcorreram os dias, e eles passavam devagar
quando não a via e rápidos nos momentos em que ela passava. Ele não se
importava mais com nada, somente ela importava, mas ela nunca o olharia se ele
não aprendesse a voa. Pelo menos era isso que ele achava.
Um
dia ele a observava escondido num galho pequeno como ele, mas numa manobra
brusca ela virou da direção que ia indo justamente onde estava o pequeno. Pouso
no mesmo galho, que apesar de pequeno sustentou os dois, não tinha como escapar
ela estava ali e pousara olhando para ele e a pergunta saiu num piado:
- Há muito tempo me observa. Por
quê? Uma pergunta direta, como direto era seu olhar. Não era um olhar severo,
era um simples olhar de curiosidade.
- Não a observo. Observo todos
vocês que voam e se sentem acima de mim. A resposta saiu um tanto misturada com
prazer e raiva, prazer por falar com ela e raiva por ter sido interpelado
daquela maneira.
- Não me sinto acima de ninguém
por fazer aquilo que me é natural Porque pensa isso e mais importante porque me
observa? Ela continuava o olhando, mas agora era um misto de curiosidade e
pena.
- Ora, é claro que sua resposta
não seria a verdadeira, eu sei quantas vezes fui zombado por não querer ser
igual. Vá embora. Disse o pequeno irritado.
- Sim eu vou, não fique irritado.
Mas é uma pena não me dizer por que me olhava tanto. E voou para longe dali.
A conversa
terminou. Perdera sua chance por medo do que ela iria pensar e por medo de não
poder lhe falar que não iria voar. Nunca mais falaria com ela, decidiu. Não a
olharia mais, nem sequer sairia de casa. Decidiu viver mais recluso ainda.
Mas a vida não
é tão simples não é?
Ele tinha que sair alguns dias, pois
era preciso viver e é claro que algum tempo depois ele a viu novamente e ela
também o viu. Resolveram se ignorar mutuamente, mas não deu certo. Ela sentia o
mesmo que ele e ainda o intrigava o fato de que ele a olhava, não com raiva
como ele queria que parecesse, mas com doçura como era de verdade. Então quando
passou um desses dias que ela voava e ele pulava de galho em galho, que ela
resolveu novamente abordá-lo:
- Me desculpe
pelo outro dia. Fui grosseira, mas me incomodava o fato de você me olhar tanto.
- Não há
porque se desculpar, eu também não fui lisonjeiro como deveria e realmente a
observava, mas não sei voar, nem quero aprender. Tive medo de que quando notasse
isso agisse da mesma maneira que os outros. Piou ele.
- Não agiria
assim. Deveria conhecer antes de julgar. Porque não voa? Foi direta como da
outra vez, mas tinha que ser assim, não queria passar muito tempo antes de
conversar sobre aquilo.
- Não gosto,
não quero e tenho... medo respondeu ele.
- Tem medo?
Por quê?
- Sim tenho.
Não consigo voar, quase morri da primeira vez que tentei. Disse resignado.
- E tentou
voar novamente? Ela perguntava com a mesma doçura que voava.
- Nunca, nem
vou.
- Deveria ao
menos tentar Tenho que ir, mas nos vemos aqui amanhã tá? E voou para longe.
Depois
disso, eles se encontraram todos os dias e conversavam sobre tudo, inclusive
sobre vôos, sobre alturas e sobre mergulhos no ar. Aos pouco ela o foi
convencendo que ele poderia voar, e o amor foi dominando o medo e ele aos
poucos aceitou que poderia voar.
Então
começaram as tentativas e erros, e começaram as quedas e os acertos. E todo dia
ele ia mais longe e voavam em círculos juntos com sua pequena, aprendeu a voar
e feliz ficou, pois nunca pensara que poderia ser tão divertido voar. Mas nada
dura para sempre e um dia ela lhe falou:
-
Acho que devemos dar um tempo. Aquilo foi dito sem muita convicção, mas foi.
- Por quê? O
pequeno se recusava acreditar.
-
Você mudou sua vida por mim. Não posso te oferecer mais nada e tenho medo de
te magoar. Quero que você voe para outros lugares. Ela disse mais segura agora.
Tenho que ir. Voe, está bem?
Ela
se foi voando, tão repentinamente quanto chegara. Pequeno não sentia raiva
dela, só ficou triste, meio que não acreditando que tudo acabara. Saiu dali
voando também e sentindo o vento sob suas asas sorriu.
“Estou triste,
talvez isso não passe nunca” ele pensou, e apesar disso sorria e ia cada vez
mais alto e no fim seus pensamentos só eram: “Ela me ensinou a voar. Ela me
ensinou.” E voando se foi também para outros lugares.
João
Rogério Alencar.
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