quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O santo do quarto de cima


         Ele tinha doze para treze anos, recém-chegado na idade intermediária entre a infância e a maturidade. Tinha quase nenhuma preocupação, acordava cedo e ia ao colégio e voltava, dedicava a maior parte de seu tempo livre a leitura, devorando as enciclopédias que juntavam poeira e passaram anos sem serem abertas. Morava de favor num quarto, junto com os irmãos e a mãe e lá viviam da melhor maneira que podiam numa situação um tanto quanto desagradável, mas ele não se importava, pois apesar de toda penúria e pobreza ele firmou na leitura e nos vários livros lidos o seu universo. Seu universo particular era um escape para o principal problema que tinha.

            Esse problema era bem específico, no quarto acima do seu morava um homem. Um homem agressivo e perturbado que tomou para si a tarefa de importunar e aterrorizar sua pequena família. O garoto tinha consciência do homem e nunca se importou com ele, nem ao menos lhe deu mais importância do que tinha, vivia e tentava ignorar sua existência, ignorar todo o terror que ele tentava impor, os palavrões e cuspes quando passava embaixo da janela do quarto dele, os gritos e sons perturbados que vinham do cômodo, o cheiro fétido da droga e as seringas que vez ou outra ele viu. Ignorava tudo isso. Até que uma noite, uma das piores que o garoto jamais esqueceria, ele viu sua mãe sentada na cama do pequeno quarto, abraçada com o mais novo dos seus irmãos tremendo de medo e aflição, pois podia ouvir acima de todo o som e barulho que vinha do quarto de cima o nítido som do homem arremessando sua cabeça contra a janela do seu quarto e gritando frases desconexas de ódio e desespero. Pela primeira sentiu medo, medo do mal que aquele ser poderia causar para sua família, medo por eles e por ele também. O barulho continuou noite adentro e na madrugada. Só parou pela manhã. “Talvez”, pensou o garoto, “ele tenha desistido”. E com esse pensamento, o garoto adormeceu.

            Acordou com os gritos do homem tentando invadir o quarto e sua mãe tentando impedir e seus irmãos chorando. Levantou-se e tentou impedir o homem de conseguir abrir a porta, mas não teve forças. A porta se escancarou e ele encarou o homem com medo e, no entanto decidiu resoluto que, ele não faria mal a sua família. E quando gritou para ele ir embora notou as veias inchadas do braço do homem e todo o ódio no olhar dele. O homem o encarava, mas para sua surpresa nada fez, ficou ali por um tempo olhando e com um sorriso odioso saiu. O garoto percebeu que o homem queria medo e não enfrentamento, isso não impediu ele de continuar tentando disseminar o horror naquela família.

            Algum tempo depois o homem foi morto, tinha ameaçado alguém que não esperou que ele cumprisse a ameaça. E quando isso aconteceu, o garoto ficou surpreso, pois a família do homem sempre que se reunia, relembrava o quanto o homem era bom, seus feitos, a saudade que ele deixou e ignoravam toda a maldade que emanou dele. Chamavam aquilo de perdão. O garoto chamava de cinismo. E pensava: “Na sua morte transformaram o demônio em santo”. Mas até hoje o garoto, já homem, não se deixa enganar, não esquece. Sabe muito bem que tipo de ser morava no quarto de cima.


João Rogério Alencar. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O mês de minha reverência


Gosto desse mês. Pergunto-me o porquê, se é algo relacionado ao ego, relacionado ao fato de eu ter nascido nesse mês? Não acredito nisso, pois nunca me importei muito com aniversários e coisas do tipo. Não partilho da importância que outros têm em relação a isso, não acredito em sua relevância a não ser para nos lembrar do eventual fim. Esclarecido isso, posso dizer sem dúvida alguma que sou um chato, mas isso eu já sabia, como bem sabem os que me acompanham pelo curso da vida. Não, não sou um entusiasta do mês por aniversariar nele, disso tenho certeza. No entanto, gosto dele particularmente mais do que dos outros onze, tenho por ele certa admiração. Estar nele, sendo os meses nada mais que um espaço de tempo criado pelo homem para sabermos que a lua deu a volta ao redor da Terra, me faz bem.

Há de se pensar na causa disso. Alguns escolhem outras partes da vida para recarregar suas baterias de alma, algo como abraços e cafunés, conselhos ou até mesmo o saciar de algum desejo. Outros escolhem uma nova tarefa, um novo desafio, uma nova fase. Eu escolhi o mês de Outubro para isso. Para recarregar a alma. Achava que tinha escolhido aleatoriamente, pois sempre pensei nele e nunca em outro para estar bem. Sobretudo num ano mais difícil, onde tantos julgamentos e reprovações ocorreram, onde alguns amigos não foram tão amigos, ou por não concordarem com certos atos, ou porque não tiveram tempo para tanto, ou ainda em último caso, por não se importarem. Acho que minha passagem de ano ocorre aqui e não em dezembro, minha passagem de ano acontece aqui, onde me vejo só, tal qual quando eu nasci. Onde eu reavalio as condições sobre as quais eu tomei decisões e se elas foram ou não acertadas. Onde reavalio (porque não?) amizades e afetos. Sou e sempre serei resultado das minhas escolhas, mas sempre que posso as revejo e reavalio. O mês me faz melhor e eu não sei por quê. Achava (como já disse) ter escolhido aleatoriamente e acreditando nisso deixei de me importar nos porquês. Mas sempre têm um “porque” e eu só não descobri ainda.

Quem sabe o mês não me faz bem só por ser ele? Ou por que alguns grandes amigos também se encontram nele para celebrar (da forma que mais os agradarem) seus próprios aniversários? Ou ainda um irmão que também nascido nesse mês me faça um bem enorme só por existir? Não, eu não sei. Só sei que Outubro me faz bem como um abraço de uma mãe amorosa, como um sorriso alegre do meu pequeno, como uma aurora depois de uma noite infindável. Faz-me bem como amigos que, distantes, de repente aparecem para renovar os votos de amizade, como um conselho fraterno proferido através do Atlântico. Faz-me bem como uma lembrança agridoce de um bolo feito com água ao invés de leite.

Faz-me bem e isso é tudo. Por isso o reverencio, pois boas coisas merecem reverência.


João Rogério Alencar.