Ele tinha doze para treze anos,
recém-chegado na idade intermediária entre a infância e a maturidade. Tinha quase
nenhuma preocupação, acordava cedo e ia ao colégio e voltava, dedicava a maior
parte de seu tempo livre a leitura, devorando as enciclopédias que juntavam
poeira e passaram anos sem serem abertas. Morava de favor num quarto, junto com
os irmãos e a mãe e lá viviam da melhor maneira que podiam numa situação um
tanto quanto desagradável, mas ele não se importava, pois apesar de toda
penúria e pobreza ele firmou na leitura e nos vários livros lidos o seu
universo. Seu universo particular era um escape para o principal problema que
tinha.
Esse
problema era bem específico, no quarto acima do seu morava um homem. Um homem
agressivo e perturbado que tomou para si a tarefa de importunar e aterrorizar
sua pequena família. O garoto tinha consciência do homem e nunca se importou
com ele, nem ao menos lhe deu mais importância do que tinha, vivia e tentava
ignorar sua existência, ignorar todo o terror que ele tentava impor, os
palavrões e cuspes quando passava embaixo da janela do quarto dele, os gritos e
sons perturbados que vinham do cômodo, o cheiro fétido da droga e as seringas
que vez ou outra ele viu. Ignorava tudo isso. Até que uma noite, uma das piores
que o garoto jamais esqueceria, ele viu sua mãe sentada na cama do pequeno
quarto, abraçada com o mais novo dos seus irmãos tremendo de medo e aflição,
pois podia ouvir acima de todo o som e barulho que vinha do quarto de cima o
nítido som do homem arremessando sua cabeça contra a janela do seu quarto e
gritando frases desconexas de ódio e desespero. Pela primeira sentiu medo, medo
do mal que aquele ser poderia causar para sua família, medo por eles e por ele
também. O barulho continuou noite adentro e na madrugada. Só parou pela manhã. “Talvez”,
pensou o garoto, “ele tenha desistido”. E com esse pensamento, o garoto
adormeceu.
Acordou com
os gritos do homem tentando invadir o quarto e sua mãe tentando impedir e seus
irmãos chorando. Levantou-se e tentou impedir o homem de conseguir abrir a
porta, mas não teve forças. A porta se escancarou e ele encarou o homem com
medo e, no entanto decidiu resoluto que, ele não faria mal a sua família. E
quando gritou para ele ir embora notou as veias inchadas do braço do homem e
todo o ódio no olhar dele. O homem o encarava, mas para sua surpresa nada fez,
ficou ali por um tempo olhando e com um sorriso odioso saiu. O garoto percebeu
que o homem queria medo e não enfrentamento, isso não impediu ele de continuar
tentando disseminar o horror naquela família.
Algum tempo
depois o homem foi morto, tinha ameaçado alguém que não esperou que ele
cumprisse a ameaça. E quando isso aconteceu, o garoto ficou surpreso, pois a
família do homem sempre que se reunia, relembrava o quanto o homem era bom,
seus feitos, a saudade que ele deixou e ignoravam toda a maldade que emanou
dele. Chamavam aquilo de perdão. O garoto chamava de cinismo. E pensava: “Na sua
morte transformaram o demônio em santo”. Mas até hoje o garoto, já homem, não
se deixa enganar, não esquece. Sabe muito bem que tipo de ser morava no quarto
de cima.
João Rogério Alencar.
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