quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Flores e água doce



            - Seja franca comigo, aonde você quer chegar? – A discussão começara há dias e parecia que não ia terminar tão cedo.

            Estavam tendo uma discussão irrelevante, sobre nada.

            - Chegar? Não se trata disso, nunca se tratou. – A discussão começara há dias e ela estava já impaciente com ele. – Quero que me responda e me diga se quer ou não que isso dê certo, pois parece que não dá à mínima.
            
            Estavam tendo uma discussão relevante, sobre tudo.

            - É claro que eu quero que dê certo, parece que para você cada palavra ou ato meu contradiz o que eu sinto por você. Quero que dê certo, claro que quero. – Disse ele.

            - Não é o que parece. – Ela resmungou e depois disse mais alto. – Não é o que parece, para você tudo está bem, quando é óbvio que não está. Estou tão cansada e você não percebe e nem liga.

            - Está sendo injusta e infantil. Como posso saber algo se você não diz? Não sou adivinho para enxergar problemas. Que, aliás, acredito (se é que existem) que não sejam tão importantes assim. – Devolveu já demonstrando toda sua impaciência com aquilo.

            - E você é insensível! – Gritou ela em resposta, já sem conter as lágrimas. – Insensível e imbecil. Chorava copiosamente.

            - Está valendo ofender agora? ­– Perguntou já um pouco arrependido.

            - Você me ofende, quando desmerece o que sinto. E o que eu considero problemas, podem não ser para você, mas são para mim. Sou eu que tenho e enxergo esses problemas e quero que você sejam companheiro e amigo. Mas quando você não é (O que acontece na maioria das vezes) Me sinto sozinha e triste. – Falou entre lágrimas.

            Ele estava já totalmente arrependido de sua aspereza e apesar de achar aquilo uma tempestade num copo d’água, não podia deixar de sentir que tinha ido longe demais. Tentou atenuar a situação e o que tinha dito:
            - Desculpe, não me expressei direito. Eu quis dizer que o que você considera um problema, eu não considero. Só considero um problema, quando ele realmente me parece um problema. É instintivo.

            - Se eu falo para você que é um problema, então é para mim. Você pode não considerar, mas é.

            - Tudo bem, me desculpe. Não quero que chore. Reconheço que fui insensível, que não levei em consideração suas reclamações e problemas, mas acho que você nunca soube lidar com isso na vida, afinal sempre teremos problemas e uma relação não se faz só com flores e água doce.

            - Eu sei que não. – respondeu ela, mais calma. – Mas gostaria que fosse assim, só flores e água doce.
            Ele a olhou nos olhos ainda úmidos e ficou profundamente encantado, como nunca ficara até ali. E percebeu o quanto gostava dela e o quanto estava disposto a continuar com ela. Decidido, respondeu:

            - Pode não ser assim, mas podemos nos esforçar. Vou buscar flores. Enquanto isso, que tal adoçar a água?

            Ela sorriu e a discussão terminou.


João Rogério Alencar.