quinta-feira, 24 de julho de 2014

As mães sempre ganham

                Daquilo que partiu não se tem mais notícias, as referências mudaram. As consequências também.  Foram anos gastos com preparos insípidos e pouco relevantes de uma maneira geral. Não há mais nada do que havia há um ano ou dez anos, nada. Nenhuma sombra de vaidade, nem de egos inflados, nenhuma tentativa de forçar o que não deve ser forçado. Estou aqui sentado na varanda olhando a fria claridade de julho e nem me pergunto qual a razão. Registro o cachorro correndo pelo canto do olho. Registro primeiro o som de um avião cortando o céu e depois vejo sua silhueta escura indo rápido ao seu destino. Parece lento, mas é mais rápido que qualquer carro comum.

Registro a fala de uma mãe com seu filho, um pequeno lorde a julgar pelo tratamento dispensado, tentando convencê-lo a fazer uma determinada tarefa que o pequeno obstinadamente se recusa. Pequeno sim, mas com grandes vontades, vontades tão importantes para ele, quanto irrelevantes para a mãe. Cá fico esperando o resultado da contenda, sem nenhuma intenção de intervir, só quero registrar o caso dessa vez. Ela usa argumentos muito bons, mas a criança diz que não. Ela ameaça que ele irá para o castigo se não a obedecer, ele desdenha e diz mais uma vez: - Não! Um berro ameaça sair da boca da mãe que respira fundo. Muita personalidade tem esse menino, com seus quase três anos e belos cabelos claros. A mãe já sem solução, pergunta:

 - Você aí na varanda pode me ajudar a convencer ele? Eu respondo, sorrindo:

 - Que tipo de homem eu seria se tirasse a autoridade da mãe? Ela me olha incrédula, não diz nada e retoma a atividade. O garoto me olha e sorri, eu devolvo o sorriso. A mãe, cansada que está, desiste por enquanto.

Ele vem até mim, senta ao meu lado e vendo o cachorro, grita: - Olha o au au. Eu não digo nada, continuo a observar, as reações do menino ao meu lado e da mãe parada na porta olhando para ele. Ele corre para o quintal e ela atrás. O sol em ambos, e apesar do frio que está ele solta outro grito: - O sol está quente, muito quente. Ao que a mãe diz: - Está mesmo. Que tal se refrescar com um banho? Ele finalmente concorda. Ela me olha e pisca. Devolvo a piscadela e acompanho o rastro que o avião deixou nas nuvens, nesse momento penso:

As mães sempre ganham.


João Rogério Alencar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Espera(r)nça


Ruim é ter que esperar. Nós os pequenos seres que habitam soberbamente esse planeta, sempre estamos à espera. Mas o ruim é ter que esperar.

Esperamos esperançosamente pela dignidade, pela sinceridade, pela verdade, pela pureza e não queremos a hipocrisia, apesar de sermos vez ou outra, hipócritas. Aqui e ali vemos pessoas bradando o que não são e o que nunca serão, mas sempre o exato oposto. Pessoas inteligentes (Ou que, pelo menos afirmam que são) ajudando somente quem os ajudam e gritam que são pessoas íntegras, pessoas corretas.

 Esperamos que outros sejam verdadeiros como não somos e esperar é ruim.

 Julgamos de cima baseados em nossas próprias crenças e descrenças, esperamos que nos compreendam e saibam que nós não somos preconceituosos, mas achamos suas crenças tão imbecis, suas filosofias tão babacas. Julgamos todos, sem nos julgarmos.

 Esperamos e esperar é chato.

Aqui estamos, naquela ladainha de fim de ano, dizendo aquilo que esperamos, vazios feitos balões de fim de festa. Nossas escolhas não são ruins, os outros erram, nós não. Mas somos os outros para alguém e somos errados sob a ótica de quem professa um fé estranha, ou quem não tem fé. Achamos ateus babacas por não acreditarem, achamos religiosos imbecis por acreditarem e no fim esperamos que os outros enxerguem o erro óbvio da sua filosofia. Esperamos.

E esperar é ruim.

São conversas pequenas, de pessoas pequenas com egos inflados feitos balões em começo de festa. Estranhamos que outros tenham aquilo que não temos, renegamos os espelhos com reflexo tão diferente e desigual, pois não nos reconhecemos como o Quasimodo, não nós. Somos os príncipes, nunca os dragões. Esperamos que os outros vejam isso e nos reverenciem.

Mas esperar é tão ruim.

Somos o resultado das nossas escolhas, mas vamos relegar os nossos desacertos a outros, nunca seremos errados. Somos os certos, isso é o que esperamos. No entanto sabemos a verdade, lá no fundo sabemos. O certo mais errado não são os outros, somos nós.

Esperamos e caminhamos.

Caminhamos sob o pôr do sol e sob o pôr do sol qualquer dúvida se dissipa e a luz e o calor no horizonte nos revelam que devemos esperar e ter esperança em nós e nos outros. Somos nós mesmos de frente ao espelho.

Sob o pôr do sol, esperar não é ruim.  

João Rogério Alencar.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Flores e água doce



            - Seja franca comigo, aonde você quer chegar? – A discussão começara há dias e parecia que não ia terminar tão cedo.

            Estavam tendo uma discussão irrelevante, sobre nada.

            - Chegar? Não se trata disso, nunca se tratou. – A discussão começara há dias e ela estava já impaciente com ele. – Quero que me responda e me diga se quer ou não que isso dê certo, pois parece que não dá à mínima.
            
            Estavam tendo uma discussão relevante, sobre tudo.

            - É claro que eu quero que dê certo, parece que para você cada palavra ou ato meu contradiz o que eu sinto por você. Quero que dê certo, claro que quero. – Disse ele.

            - Não é o que parece. – Ela resmungou e depois disse mais alto. – Não é o que parece, para você tudo está bem, quando é óbvio que não está. Estou tão cansada e você não percebe e nem liga.

            - Está sendo injusta e infantil. Como posso saber algo se você não diz? Não sou adivinho para enxergar problemas. Que, aliás, acredito (se é que existem) que não sejam tão importantes assim. – Devolveu já demonstrando toda sua impaciência com aquilo.

            - E você é insensível! – Gritou ela em resposta, já sem conter as lágrimas. – Insensível e imbecil. Chorava copiosamente.

            - Está valendo ofender agora? ­– Perguntou já um pouco arrependido.

            - Você me ofende, quando desmerece o que sinto. E o que eu considero problemas, podem não ser para você, mas são para mim. Sou eu que tenho e enxergo esses problemas e quero que você sejam companheiro e amigo. Mas quando você não é (O que acontece na maioria das vezes) Me sinto sozinha e triste. – Falou entre lágrimas.

            Ele estava já totalmente arrependido de sua aspereza e apesar de achar aquilo uma tempestade num copo d’água, não podia deixar de sentir que tinha ido longe demais. Tentou atenuar a situação e o que tinha dito:
            - Desculpe, não me expressei direito. Eu quis dizer que o que você considera um problema, eu não considero. Só considero um problema, quando ele realmente me parece um problema. É instintivo.

            - Se eu falo para você que é um problema, então é para mim. Você pode não considerar, mas é.

            - Tudo bem, me desculpe. Não quero que chore. Reconheço que fui insensível, que não levei em consideração suas reclamações e problemas, mas acho que você nunca soube lidar com isso na vida, afinal sempre teremos problemas e uma relação não se faz só com flores e água doce.

            - Eu sei que não. – respondeu ela, mais calma. – Mas gostaria que fosse assim, só flores e água doce.
            Ele a olhou nos olhos ainda úmidos e ficou profundamente encantado, como nunca ficara até ali. E percebeu o quanto gostava dela e o quanto estava disposto a continuar com ela. Decidido, respondeu:

            - Pode não ser assim, mas podemos nos esforçar. Vou buscar flores. Enquanto isso, que tal adoçar a água?

            Ela sorriu e a discussão terminou.


João Rogério Alencar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O santo do quarto de cima


         Ele tinha doze para treze anos, recém-chegado na idade intermediária entre a infância e a maturidade. Tinha quase nenhuma preocupação, acordava cedo e ia ao colégio e voltava, dedicava a maior parte de seu tempo livre a leitura, devorando as enciclopédias que juntavam poeira e passaram anos sem serem abertas. Morava de favor num quarto, junto com os irmãos e a mãe e lá viviam da melhor maneira que podiam numa situação um tanto quanto desagradável, mas ele não se importava, pois apesar de toda penúria e pobreza ele firmou na leitura e nos vários livros lidos o seu universo. Seu universo particular era um escape para o principal problema que tinha.

            Esse problema era bem específico, no quarto acima do seu morava um homem. Um homem agressivo e perturbado que tomou para si a tarefa de importunar e aterrorizar sua pequena família. O garoto tinha consciência do homem e nunca se importou com ele, nem ao menos lhe deu mais importância do que tinha, vivia e tentava ignorar sua existência, ignorar todo o terror que ele tentava impor, os palavrões e cuspes quando passava embaixo da janela do quarto dele, os gritos e sons perturbados que vinham do cômodo, o cheiro fétido da droga e as seringas que vez ou outra ele viu. Ignorava tudo isso. Até que uma noite, uma das piores que o garoto jamais esqueceria, ele viu sua mãe sentada na cama do pequeno quarto, abraçada com o mais novo dos seus irmãos tremendo de medo e aflição, pois podia ouvir acima de todo o som e barulho que vinha do quarto de cima o nítido som do homem arremessando sua cabeça contra a janela do seu quarto e gritando frases desconexas de ódio e desespero. Pela primeira sentiu medo, medo do mal que aquele ser poderia causar para sua família, medo por eles e por ele também. O barulho continuou noite adentro e na madrugada. Só parou pela manhã. “Talvez”, pensou o garoto, “ele tenha desistido”. E com esse pensamento, o garoto adormeceu.

            Acordou com os gritos do homem tentando invadir o quarto e sua mãe tentando impedir e seus irmãos chorando. Levantou-se e tentou impedir o homem de conseguir abrir a porta, mas não teve forças. A porta se escancarou e ele encarou o homem com medo e, no entanto decidiu resoluto que, ele não faria mal a sua família. E quando gritou para ele ir embora notou as veias inchadas do braço do homem e todo o ódio no olhar dele. O homem o encarava, mas para sua surpresa nada fez, ficou ali por um tempo olhando e com um sorriso odioso saiu. O garoto percebeu que o homem queria medo e não enfrentamento, isso não impediu ele de continuar tentando disseminar o horror naquela família.

            Algum tempo depois o homem foi morto, tinha ameaçado alguém que não esperou que ele cumprisse a ameaça. E quando isso aconteceu, o garoto ficou surpreso, pois a família do homem sempre que se reunia, relembrava o quanto o homem era bom, seus feitos, a saudade que ele deixou e ignoravam toda a maldade que emanou dele. Chamavam aquilo de perdão. O garoto chamava de cinismo. E pensava: “Na sua morte transformaram o demônio em santo”. Mas até hoje o garoto, já homem, não se deixa enganar, não esquece. Sabe muito bem que tipo de ser morava no quarto de cima.


João Rogério Alencar. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O mês de minha reverência


Gosto desse mês. Pergunto-me o porquê, se é algo relacionado ao ego, relacionado ao fato de eu ter nascido nesse mês? Não acredito nisso, pois nunca me importei muito com aniversários e coisas do tipo. Não partilho da importância que outros têm em relação a isso, não acredito em sua relevância a não ser para nos lembrar do eventual fim. Esclarecido isso, posso dizer sem dúvida alguma que sou um chato, mas isso eu já sabia, como bem sabem os que me acompanham pelo curso da vida. Não, não sou um entusiasta do mês por aniversariar nele, disso tenho certeza. No entanto, gosto dele particularmente mais do que dos outros onze, tenho por ele certa admiração. Estar nele, sendo os meses nada mais que um espaço de tempo criado pelo homem para sabermos que a lua deu a volta ao redor da Terra, me faz bem.

Há de se pensar na causa disso. Alguns escolhem outras partes da vida para recarregar suas baterias de alma, algo como abraços e cafunés, conselhos ou até mesmo o saciar de algum desejo. Outros escolhem uma nova tarefa, um novo desafio, uma nova fase. Eu escolhi o mês de Outubro para isso. Para recarregar a alma. Achava que tinha escolhido aleatoriamente, pois sempre pensei nele e nunca em outro para estar bem. Sobretudo num ano mais difícil, onde tantos julgamentos e reprovações ocorreram, onde alguns amigos não foram tão amigos, ou por não concordarem com certos atos, ou porque não tiveram tempo para tanto, ou ainda em último caso, por não se importarem. Acho que minha passagem de ano ocorre aqui e não em dezembro, minha passagem de ano acontece aqui, onde me vejo só, tal qual quando eu nasci. Onde eu reavalio as condições sobre as quais eu tomei decisões e se elas foram ou não acertadas. Onde reavalio (porque não?) amizades e afetos. Sou e sempre serei resultado das minhas escolhas, mas sempre que posso as revejo e reavalio. O mês me faz melhor e eu não sei por quê. Achava (como já disse) ter escolhido aleatoriamente e acreditando nisso deixei de me importar nos porquês. Mas sempre têm um “porque” e eu só não descobri ainda.

Quem sabe o mês não me faz bem só por ser ele? Ou por que alguns grandes amigos também se encontram nele para celebrar (da forma que mais os agradarem) seus próprios aniversários? Ou ainda um irmão que também nascido nesse mês me faça um bem enorme só por existir? Não, eu não sei. Só sei que Outubro me faz bem como um abraço de uma mãe amorosa, como um sorriso alegre do meu pequeno, como uma aurora depois de uma noite infindável. Faz-me bem como amigos que, distantes, de repente aparecem para renovar os votos de amizade, como um conselho fraterno proferido através do Atlântico. Faz-me bem como uma lembrança agridoce de um bolo feito com água ao invés de leite.

Faz-me bem e isso é tudo. Por isso o reverencio, pois boas coisas merecem reverência.


João Rogério Alencar.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo demais


Caminhava feito um idiota, cambaleava na verdade. Estava bêbado, tão bêbado que não sabia mais o caminho de volta para onde morava. Olhava morosamente entre as faixas largas da passagem de pedestres, como que decidindo se ia ou ficava. Resolveu ir, caminhou através da faixa ignorando o sinal fechado para ele, reteve-se por alguns segundos, que na sua condição total de embriaguês deve ter levado horas. Alguns motoristas esperaram ele passar, outros mais apressados aceleravam e freavam durante o caminho incerto do homem. Devia ter bebido muito, mais do que jamais bebeu, uma comemoração? Um afogamento de mágoas? Ele próprio não saberia dizer, mas ele continuava rumando para seu destino que nem ele mesmo sabia. Ou sabia? A cena era comicamente cruel, daquelas que nos fazem rir e sentir remorso ao mesmo tempo. Conseguiu chegar ao outro lado ileso, graças à paciência de alguns. No momento em que alcançava a calçada o sinal abriu para pedestres, ele seguia seu caminho, pouco se importando, ou notando os olhares críticos de algumas pessoas, assustados de outras e debochados de mais alguns. Seguia seu rumo.

Ele ia e vinha, mas seguia em frente e conforme caminhava não sorria, nem chorava. Só ia. Um pouco à frente tropeçou num desnível de calçada e caiu. Seus braços lentos, pelos reflexos prejudicados pela sua condição, não o acompanharam na queda e seu rosto foi de encontro ao chão sem nada para aparar ou diminuir o impacto. Outros segundos se desenrolaram, e ele lentamente sentou-se, para depois levantar. Limpou com a parte externa da mão o sangue e continuou. Ninguém o interrompeu ou ajudou. E ele seguia. Virou uma esquina, andou torto pela rua seguinte, que era reta e finalmente chegou ao seu destino. Um casebre a meio caminho de nada, das partes esquecidas e brutais da cidade. Abriu a porta de casa com certa dificuldade. Olhou para dentro e na luz do crepúsculo ainda conseguiu enxergar. Adentrou a sala, que era na verdade o único cômodo além do banheiro. Sentou-se no velho sofá, pegou um retrato manchado pelo tempo, pela vida e agora pelo sangue dele próprio em suas mãos.

Olhou profundamente para a imagem e chorou. Chorou, pelo tempo que não teve, por todas as oportunidades desperdiçadas e sobretudo pelos filhos que abandonou. Ali estava só e bêbado. Foi ao banheiro, lavou o rosto e o corpo tentando se livrar do cheiro e do gosto de álcool. Voltou à sala, deitou-se no sofá sem se enxugar, pegou a foto e dormiu.

Pela manhã acordou, sem dor de cabeça e sem ressaca. Olhou novamente para foto no chão da casa. Tomou mais um banho e resolveu mudar tudo. A solidão, a bebida e a sua ausência da vida daqueles que ele gerou. Arrumou-se da maneira que pôde, colocou sua calça menos surrada, seu par de meias menos furadas. Pegou a foto, colocou no bolso da blusa junto com uns trocados sobrados do dia anterior. Foi até uma banca de jornal, comprou o cartão telefônico e rumou ao orelhão, o único que não fora depredado pela ignorância dos vândalos que habitam quase todos os lugares. Estava vazio, mas quem usa orelhões hoje em dia? Parou, não tinha a coragem de ligar e se ligasse, será que o número no verso da foto ainda pertencia a eles? Eles o aceitariam de volta? Resolveu ser otimista pela primeira vez na vida. Colocou o cartão e discou. Um toque, dois toques, uma eternidade de toques. Alguém atendeu, ouviu um alô, que ele respondeu com um débil e quase inaudível alô.

Um tempo exaustivamente longo se passou, e a resposta ao seu alô foi:

- Pai? A voz feminina perguntou.
- Sim. Ele respondeu. E começou uma série de desculpas e choros, tentando se justificar, tentando fazê-los entender seus motivos e seus erros. Até que depois disso tudo, depois de todas as explicações que dera, estava pronto para ouvir um “Até nunca mais”. Ele ouviu:
- Venha para casa. Não quero saber os motivos que o fizeram ficar longe, só te quero aqui. Venha logo, meu pai.
Ouviu aquilo incrédulo, esperava raiva e rancor e não compreensão e amor.
- Tem certeza, filha?
- Sim, tenho. Estamos te esperando, venha.
Sorriu e sentiu-se feliz como nunca, iria até eles claro. Mas antes, pensou, uma bebidinha para comemorar.
Duas semanas depois, encontraram seu corpo em seu casebre. Havia esperado tempo demais.

João Rogério Alencar.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Manhã de Segunda


                Acordei numa segunda feira, pronto para ter o meu mau humor habitual. Ainda de olhos fechados pensava no porquê de existir segundas, só para o desprazer de ter que levantar e enfrentar o começo da semana. Semana que começou no dia anterior, diga-se de passagem, mas a segunda nos faz esquecer isso. Os problemas retornam com força numa mente ainda fechada para a luz do dia, todos os pensamentos voltados para as possíveis soluções, os pagamentos a serem feitos, as situações difíceis do dia a dia aparecem com mais força, tudo parece mais pesado, mais cinza, menos alegre numa manhã de segunda. Sem me esforçar resolvo continuar mais um pouco na cama, o que é esperado de mim pode esperar mais um pouco. Não quero ver nem resolver nada hoje, decido.

                Ainda negando que devo levantar-me e ir à luta, continuo com os olhos fechados, esperando o tempo me dar mais uma folga e que as cobranças auto impostas desapareçam aos poucos. Sei que não vão, mas espero mais um pouco, tentando sonhar em coisas mais agradáveis e melhores. Nada me vem à mente e espero um dia menos agradável do que eu queria, não tem jeito nada é como nós queremos numa manhã de segunda.
                Ouço um barulho e meu filho acordado está na minha cama. Para todos os efeitos eu continuo dormindo. Ele vem ao meu lado, ouço o sua risada pura, ele se deita e me abraça. Ele ainda está rindo quando eu abro os olhos e nunca um sorriso com tão poucos dentes foi mais bonito. Nessas horas tudo se apaga e cada problema se desfaz num simples gesto. Levanto já sabendo que nada poderia me aborrecer, pois a simpatia na sua forma mais inocente me mostrou isso.

 Nunca uma manhã de segunda foi mais leve.


João Rogério Alencar.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Povo inteligente


Eu gosto de futebol. Até aí essa afirmação não quer dizer absolutamente nada. Muitos gostam de futebol, tem ídolos em seus clubes e comentam cada jogada como bom entendedor do assunto. Eu deixei de comentar, online ou no mundo real sobre futebol, porque felizmente (felizmente sim) é um assunto que desperta uma paixão primitiva, daquelas em que deixo totalmente a razão de lado tal qual primata recém-evoluído que difere o certo e o errado, mas não está nem aí.

Eu gosto de futebol e não tenho uma razão específica para dar do porque gostar do esporte e nem quero, é parte da minha formação como pessoa, como ser pensante (ou talvez não visto que é uma paixão). Gosto porque gosto e é isso.

Eu vinha desgostando da seleção, sobretudo depois da copa de 98 que mil teorias da conspiração surgiram e que me vi sem saber no que acreditar, não vibrei com a copa de 2002 pelos mesmos motivos teóricos. Com o tempo percebi que o problema não era a seleção em si, mas quem puxava as cordas por trás dela. Virei um crítico, (como tantos) dela, da Confederação que a gere e consequentemente, de tudo que está tão errado no Brasil. Sim eu passei a ter uma visão política quando percebi as coisas erradas que permeavam o futebol. Uma coisa não está dissociada da outra, como querem muitos. Posso estar errado, mas esses que creditam ao futebol uma maneira de manter o povo passivo são os mesmos que criticam as organizações globo de usarem sua mídia contra o povo e a favor de interesses escusos. Há muito tempo aprendi que criticar a globo virou argumento de pseudointeligente nas rodas das conversas, ou nos fórum na internet. Por quê? Bem porque é fácil falar mal, difícil é desligar a televisão. “Mas”- dirão alguns – “Eu só assisto Sportv ou Bandeirantes para ver os jogos”, ou ainda “Só ouço rádio”, “Detesto o Galvão” e blá, blá, blá. Discursos prontos de, pasmem (ou não), quem é contra a manipulação de informação. Ninguém desses críticos tem opinião verdadeiramente própria. Porque não tem inteligência (ou paciência) suficiente para ler sobre qualquer assunto. Enfim volto para ao assunto principal, que me fez começar a escrever isso, que é a mania que se tem de agora criticar quem gosta de futebol.

 Como gosto do esporte e sempre o acompanho quando posso, não posso deixar de notar como estamos vivendo essa era de incertezas políticas e econômicas, vários foram publicações em murais e afins criticando o esporte como se ele fosse culpado, e não a permissividade em geral do povo. É cômico como se comportam esses revoltados de ocasião.

Todos muito politizados (enquanto puder ganhar um curtir que mal tem?), todos certos do que pode e não é feito nesse gigantesco país, mas nenhum com saco para ler meio parágrafo da constituição. Criticam de tudo sem saber de nada. Menos ainda de futebol. Não acabem com a única coisa que ainda nos faz ter certa identidade nacional. ”Mas João, eu critico o futebol por que sou inteligente, eu me manifesto também pela mesma razão” e o problema não é quando afirmam isso, o problema consiste quando acreditam nisso. Porque essas manifestações só serviram para mostrar o quanto é inocente esse (Ufanismo? Tirado de uma propaganda? Sério?) bebê gigantesco que acabou de acordar. Eu gosto de futebol e voltei a gostar da seleção. Isso não me faz  um alienado, ao contrário desse povo inteligente.

João Rogério Alencar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O encontro com a deusa


                Entrei no trem e sentei-me. Calculei quanto tempo levaria até o trabalho e constatei que iria me atrasar. Nada anormal, afinal levei quase quarenta minutos só para chegar à estação num percurso que deveria demorar no máximo quinze. Pensei em colocar os fones de ouvido e fechar os olhos para que a viagem fosse um pouco menos desconfortável. Não consegui, pois no exato momento em que ia ligar o rádio do celular comecei a escutar uma conversa alheia, foi inevitável não ouvir. A conversa era permeada de vozes agudas e altas, num tom sério e solene, um casal ao meu lado falava:
                -Não sei em que ponto as pessoas hoje podem viver sem acreditar em nada, mundanas e omissas quanto a todos. –disse o homem. –você observa essas pessoas que hoje vivem em função do seu próprio bem e não se importam com ninguém, é um erro. Por isso eu gosto daqueles que protestam e gritam nos últimos dias.
                -Será que vai dar em alguma coisa isso? Será que eles sabem no que isso vai dar? -Perguntou a mulher
                -É claro que eles não sabem, mas são instrumentos para um bem maior, pois a sociedade só vai crescer quando enxergar que não existe solução para todos os nossos problemas se nós não nos unirmos. Contra esses que governam e que estão aí para roubar nosso dinheiro e não fazer nada. Políticos imundos eu digo, não mereciam estar onde estão. Nós vivemos mal enquanto eles nadam nesse mar de impunidade. Somos nós, somente nós que podemos mudar, para sermos melhores seres humanos. (Nesse ponto o homem viu que tinha atraído à atenção de todos no vagão e aumentou seu tom de voz, pois a conversa tinha virado um discurso) - Somos todos roubados, precisamos de mais! Precisamos de respeito, porque meus amigos, sem respeito não somos nada! E eles, esses políticos, não nos respeitam e nós não fazemos nada. NADA! Assinamos atestados de idiotas perante eles e aposto com todos vocês que estão lá a rir desses protestos. Não temos nada, nem saúde, nem amor ao próximo e muito menos educação, e eu repito: ESTÃO RINDO DE NÓS! Gritou alterado.
                A mulher que conversava com ele, colocou a mão no seu ombro e cochichou algo, talvez para o homem se acalmar e voltar para a conversa com ela. Isso só o inflamou mais e ele continuou:
                - Não vou parar, eu tenho que falar que nós não temos educação e isso é horrível! Ninguém aqui tem noção do quanto à falta de educação incomoda!
                - Sua falta de educação em gritar seu discurso me incomoda senhor. – Falou uma mulher jovem sentada do outro lado.
                O homem bufou indignado em direção a ela, apontou e disse:
                - Reacionária! É o que você é. Vive acomodada com sua vidinha. Por isso o país está onde está, você com seu telefone novo e suas noções equivocadas é que atrasam e ajudam a corromper tudo nesse lugar.
                - O senhor não é só mal-educado, como também critica as pessoas sem nem ao menos conhecê-las. – respondeu timidamente a moça. – Aliás, quem é você para falar de educação se há duas estações atrás entrou essa senhora grávida e parou na sua frente e o senhor nem se dignou a levantar para dar lugar a ela?
                O homem parecia que, só naquele momento tinha percebido a mulher grávida (e confesso eu não tinha visto.) ficou claramente desconcertado e se levantou dando lugar a gestante. Então alguém falou:
                - Se você viu a mulher grávida em pé, por que não se levantou moça? Perguntou uma idosa num outro ponto.
                -Porque sou mulher. Respondeu a moça - Os homens é que tem que se levantar.
                -Nada disso. Respondeu um terceiro. Direitos iguais, vocês mulheres não lutam por isso?
                -Que isso tem haver? Perguntou um quarto.
                A discussão se generalizou, virou confusão. Todos discutiam com todos e logo descambou para ofensas, um homem chamou outro de corno e a coisa ficou feia. Levantei-me e saí na estação mais próxima e acabei tropeçando na hora de sair. A mulher grávida que tinha saído também e me ajudou a levantar. Percebi enquanto o trem ia embora que tinha a confusão tinha descambado para a pancadaria. Olhei para a grávida e notei que ela sorria.
                -Obrigado, por me ajudar. – eu disse. –Porque sorri?
                Ela me olhou e disse:
                -Me chamo Éris. –disse a mulher.
                Eu ri e perguntei:
                - Éris? Como a deusa? Veio semear a discórdia?
                Ela novamente me olhou e respondeu.
                - Não. Eu vim aprender. Sorriu francamente.
                E desapareceu, bem diante dos meus incrédulos olhos.

João Rogério Alencar.

               

               

               
                

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Naquela época


                Eu tenho lido, ouvido e assistido um monte de gente saudosista, relembrando os velhos tempos, que eram melhores, que os bons tempos são os velhos tempos. Não sei se concordo muito com essa opinião. Não sei por que minhas lembranças dos velhos tempos não são tão agradáveis como deveriam, como vejo a maioria falando. Talvez os critérios seguidos para se eleger os “velhos tempos” como os “melhores tempos” não sejam os meus critérios. Talvez minhas experiências não me remetam a nostalgia que parece ter tomado conta dos habitantes do tempo atual, entretanto entendo essa vontade de voltar a outro tempo, onde podemos nos lembrar das lembranças alegres ou da total falta de responsabilidade da juventude.

                De qualquer forma, não concordo com essa máxima dos “velhos e bons tempos” por uma premissa bem simples: Não inventaram uma maneira de voltarmos ao passado! Não vão inventar provavelmente e por isso os velhos tempos não podem ser os melhores, pois não se vive no passado. Nem no futuro. Só da para viver no presente e é nesse presente que devemos ser e fazer o melhor possível. Parece chavão comum, e é, mas é também uma verdade. Só dá para viver agora. Voltar é impossível, viajar dez, vinte, trinta anos no futuro também. Só existe o presente. Não tenho esse sentimento de perda em relação ao passado, pois pelo que me lembro (e isso é subjetivo) o passado não era tão agradável assim.             

              Ora quero pensar no passado com saudade de um tempo que se nega a voltar. Quero olhar o passado, como ele é. A junção de toda a minha experiência, das minhas lembranças, dos amores perdidos, da incerteza em como eu ia me virar como adulto. Não tenho esse desejo que tudo volte a ser como antes, em que eu tinha mais cabelo e menos dinheiro, que eu jogava bola no asfalto quente descalço e não num campo de grama sintética, em que tinha que esperar os donos dos livros lerem a história para poder me emprestar. Foi bom para eu dar valor ao que eu tenho? Sem dúvida! Não tiro o mérito das experiências que formaram meu caráter, só não sinto falta delas.

As pessoas só desejam os “velhos tempos” de volta porque as lembranças boas sobrepõem-se as ruins, porque é fácil esquecer que as dificuldades passadas eram tão grandes (senão maiores) quantos as de hoje. Parece uma pegadinha do subconsciente, em que o passado só é bom porque deixamos de lembrar o que era ruim na época. Não quero voltar a minha adolescência, muito menos a minha infância, sem preocupações, sem responsabilidade, sem grana, sem nada, porque era solitária e fria. Quero beber em homenagem ao passado. Só porque ele me tornou e me levou onde estou agora. E se foi só para me tornar pai do meu filho, melhor assim. Não acho eu que vou fazer alguma coisa mais importante que isso e nem que vou me importar mais com algo que eu vir a fazer do que isso. Só por isso o passado tem alguma importância para mim. Nostalgia é bom só para conversar.

Eu não costumo beber (como muitos sabem), mas hoje eu quero beber ao passado e ouvir de um amigo:
- Você lembra? Naquela época?

João Rogério Alencar.