terça-feira, 25 de junho de 2013

O encontro com a deusa


                Entrei no trem e sentei-me. Calculei quanto tempo levaria até o trabalho e constatei que iria me atrasar. Nada anormal, afinal levei quase quarenta minutos só para chegar à estação num percurso que deveria demorar no máximo quinze. Pensei em colocar os fones de ouvido e fechar os olhos para que a viagem fosse um pouco menos desconfortável. Não consegui, pois no exato momento em que ia ligar o rádio do celular comecei a escutar uma conversa alheia, foi inevitável não ouvir. A conversa era permeada de vozes agudas e altas, num tom sério e solene, um casal ao meu lado falava:
                -Não sei em que ponto as pessoas hoje podem viver sem acreditar em nada, mundanas e omissas quanto a todos. –disse o homem. –você observa essas pessoas que hoje vivem em função do seu próprio bem e não se importam com ninguém, é um erro. Por isso eu gosto daqueles que protestam e gritam nos últimos dias.
                -Será que vai dar em alguma coisa isso? Será que eles sabem no que isso vai dar? -Perguntou a mulher
                -É claro que eles não sabem, mas são instrumentos para um bem maior, pois a sociedade só vai crescer quando enxergar que não existe solução para todos os nossos problemas se nós não nos unirmos. Contra esses que governam e que estão aí para roubar nosso dinheiro e não fazer nada. Políticos imundos eu digo, não mereciam estar onde estão. Nós vivemos mal enquanto eles nadam nesse mar de impunidade. Somos nós, somente nós que podemos mudar, para sermos melhores seres humanos. (Nesse ponto o homem viu que tinha atraído à atenção de todos no vagão e aumentou seu tom de voz, pois a conversa tinha virado um discurso) - Somos todos roubados, precisamos de mais! Precisamos de respeito, porque meus amigos, sem respeito não somos nada! E eles, esses políticos, não nos respeitam e nós não fazemos nada. NADA! Assinamos atestados de idiotas perante eles e aposto com todos vocês que estão lá a rir desses protestos. Não temos nada, nem saúde, nem amor ao próximo e muito menos educação, e eu repito: ESTÃO RINDO DE NÓS! Gritou alterado.
                A mulher que conversava com ele, colocou a mão no seu ombro e cochichou algo, talvez para o homem se acalmar e voltar para a conversa com ela. Isso só o inflamou mais e ele continuou:
                - Não vou parar, eu tenho que falar que nós não temos educação e isso é horrível! Ninguém aqui tem noção do quanto à falta de educação incomoda!
                - Sua falta de educação em gritar seu discurso me incomoda senhor. – Falou uma mulher jovem sentada do outro lado.
                O homem bufou indignado em direção a ela, apontou e disse:
                - Reacionária! É o que você é. Vive acomodada com sua vidinha. Por isso o país está onde está, você com seu telefone novo e suas noções equivocadas é que atrasam e ajudam a corromper tudo nesse lugar.
                - O senhor não é só mal-educado, como também critica as pessoas sem nem ao menos conhecê-las. – respondeu timidamente a moça. – Aliás, quem é você para falar de educação se há duas estações atrás entrou essa senhora grávida e parou na sua frente e o senhor nem se dignou a levantar para dar lugar a ela?
                O homem parecia que, só naquele momento tinha percebido a mulher grávida (e confesso eu não tinha visto.) ficou claramente desconcertado e se levantou dando lugar a gestante. Então alguém falou:
                - Se você viu a mulher grávida em pé, por que não se levantou moça? Perguntou uma idosa num outro ponto.
                -Porque sou mulher. Respondeu a moça - Os homens é que tem que se levantar.
                -Nada disso. Respondeu um terceiro. Direitos iguais, vocês mulheres não lutam por isso?
                -Que isso tem haver? Perguntou um quarto.
                A discussão se generalizou, virou confusão. Todos discutiam com todos e logo descambou para ofensas, um homem chamou outro de corno e a coisa ficou feia. Levantei-me e saí na estação mais próxima e acabei tropeçando na hora de sair. A mulher grávida que tinha saído também e me ajudou a levantar. Percebi enquanto o trem ia embora que tinha a confusão tinha descambado para a pancadaria. Olhei para a grávida e notei que ela sorria.
                -Obrigado, por me ajudar. – eu disse. –Porque sorri?
                Ela me olhou e disse:
                -Me chamo Éris. –disse a mulher.
                Eu ri e perguntei:
                - Éris? Como a deusa? Veio semear a discórdia?
                Ela novamente me olhou e respondeu.
                - Não. Eu vim aprender. Sorriu francamente.
                E desapareceu, bem diante dos meus incrédulos olhos.

João Rogério Alencar.

               

               

               
                

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