quinta-feira, 6 de junho de 2013

Naquela época


                Eu tenho lido, ouvido e assistido um monte de gente saudosista, relembrando os velhos tempos, que eram melhores, que os bons tempos são os velhos tempos. Não sei se concordo muito com essa opinião. Não sei por que minhas lembranças dos velhos tempos não são tão agradáveis como deveriam, como vejo a maioria falando. Talvez os critérios seguidos para se eleger os “velhos tempos” como os “melhores tempos” não sejam os meus critérios. Talvez minhas experiências não me remetam a nostalgia que parece ter tomado conta dos habitantes do tempo atual, entretanto entendo essa vontade de voltar a outro tempo, onde podemos nos lembrar das lembranças alegres ou da total falta de responsabilidade da juventude.

                De qualquer forma, não concordo com essa máxima dos “velhos e bons tempos” por uma premissa bem simples: Não inventaram uma maneira de voltarmos ao passado! Não vão inventar provavelmente e por isso os velhos tempos não podem ser os melhores, pois não se vive no passado. Nem no futuro. Só da para viver no presente e é nesse presente que devemos ser e fazer o melhor possível. Parece chavão comum, e é, mas é também uma verdade. Só dá para viver agora. Voltar é impossível, viajar dez, vinte, trinta anos no futuro também. Só existe o presente. Não tenho esse sentimento de perda em relação ao passado, pois pelo que me lembro (e isso é subjetivo) o passado não era tão agradável assim.             

              Ora quero pensar no passado com saudade de um tempo que se nega a voltar. Quero olhar o passado, como ele é. A junção de toda a minha experiência, das minhas lembranças, dos amores perdidos, da incerteza em como eu ia me virar como adulto. Não tenho esse desejo que tudo volte a ser como antes, em que eu tinha mais cabelo e menos dinheiro, que eu jogava bola no asfalto quente descalço e não num campo de grama sintética, em que tinha que esperar os donos dos livros lerem a história para poder me emprestar. Foi bom para eu dar valor ao que eu tenho? Sem dúvida! Não tiro o mérito das experiências que formaram meu caráter, só não sinto falta delas.

As pessoas só desejam os “velhos tempos” de volta porque as lembranças boas sobrepõem-se as ruins, porque é fácil esquecer que as dificuldades passadas eram tão grandes (senão maiores) quantos as de hoje. Parece uma pegadinha do subconsciente, em que o passado só é bom porque deixamos de lembrar o que era ruim na época. Não quero voltar a minha adolescência, muito menos a minha infância, sem preocupações, sem responsabilidade, sem grana, sem nada, porque era solitária e fria. Quero beber em homenagem ao passado. Só porque ele me tornou e me levou onde estou agora. E se foi só para me tornar pai do meu filho, melhor assim. Não acho eu que vou fazer alguma coisa mais importante que isso e nem que vou me importar mais com algo que eu vir a fazer do que isso. Só por isso o passado tem alguma importância para mim. Nostalgia é bom só para conversar.

Eu não costumo beber (como muitos sabem), mas hoje eu quero beber ao passado e ouvir de um amigo:
- Você lembra? Naquela época?

João Rogério Alencar.

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