sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tempo demais


Caminhava feito um idiota, cambaleava na verdade. Estava bêbado, tão bêbado que não sabia mais o caminho de volta para onde morava. Olhava morosamente entre as faixas largas da passagem de pedestres, como que decidindo se ia ou ficava. Resolveu ir, caminhou através da faixa ignorando o sinal fechado para ele, reteve-se por alguns segundos, que na sua condição total de embriaguês deve ter levado horas. Alguns motoristas esperaram ele passar, outros mais apressados aceleravam e freavam durante o caminho incerto do homem. Devia ter bebido muito, mais do que jamais bebeu, uma comemoração? Um afogamento de mágoas? Ele próprio não saberia dizer, mas ele continuava rumando para seu destino que nem ele mesmo sabia. Ou sabia? A cena era comicamente cruel, daquelas que nos fazem rir e sentir remorso ao mesmo tempo. Conseguiu chegar ao outro lado ileso, graças à paciência de alguns. No momento em que alcançava a calçada o sinal abriu para pedestres, ele seguia seu caminho, pouco se importando, ou notando os olhares críticos de algumas pessoas, assustados de outras e debochados de mais alguns. Seguia seu rumo.

Ele ia e vinha, mas seguia em frente e conforme caminhava não sorria, nem chorava. Só ia. Um pouco à frente tropeçou num desnível de calçada e caiu. Seus braços lentos, pelos reflexos prejudicados pela sua condição, não o acompanharam na queda e seu rosto foi de encontro ao chão sem nada para aparar ou diminuir o impacto. Outros segundos se desenrolaram, e ele lentamente sentou-se, para depois levantar. Limpou com a parte externa da mão o sangue e continuou. Ninguém o interrompeu ou ajudou. E ele seguia. Virou uma esquina, andou torto pela rua seguinte, que era reta e finalmente chegou ao seu destino. Um casebre a meio caminho de nada, das partes esquecidas e brutais da cidade. Abriu a porta de casa com certa dificuldade. Olhou para dentro e na luz do crepúsculo ainda conseguiu enxergar. Adentrou a sala, que era na verdade o único cômodo além do banheiro. Sentou-se no velho sofá, pegou um retrato manchado pelo tempo, pela vida e agora pelo sangue dele próprio em suas mãos.

Olhou profundamente para a imagem e chorou. Chorou, pelo tempo que não teve, por todas as oportunidades desperdiçadas e sobretudo pelos filhos que abandonou. Ali estava só e bêbado. Foi ao banheiro, lavou o rosto e o corpo tentando se livrar do cheiro e do gosto de álcool. Voltou à sala, deitou-se no sofá sem se enxugar, pegou a foto e dormiu.

Pela manhã acordou, sem dor de cabeça e sem ressaca. Olhou novamente para foto no chão da casa. Tomou mais um banho e resolveu mudar tudo. A solidão, a bebida e a sua ausência da vida daqueles que ele gerou. Arrumou-se da maneira que pôde, colocou sua calça menos surrada, seu par de meias menos furadas. Pegou a foto, colocou no bolso da blusa junto com uns trocados sobrados do dia anterior. Foi até uma banca de jornal, comprou o cartão telefônico e rumou ao orelhão, o único que não fora depredado pela ignorância dos vândalos que habitam quase todos os lugares. Estava vazio, mas quem usa orelhões hoje em dia? Parou, não tinha a coragem de ligar e se ligasse, será que o número no verso da foto ainda pertencia a eles? Eles o aceitariam de volta? Resolveu ser otimista pela primeira vez na vida. Colocou o cartão e discou. Um toque, dois toques, uma eternidade de toques. Alguém atendeu, ouviu um alô, que ele respondeu com um débil e quase inaudível alô.

Um tempo exaustivamente longo se passou, e a resposta ao seu alô foi:

- Pai? A voz feminina perguntou.
- Sim. Ele respondeu. E começou uma série de desculpas e choros, tentando se justificar, tentando fazê-los entender seus motivos e seus erros. Até que depois disso tudo, depois de todas as explicações que dera, estava pronto para ouvir um “Até nunca mais”. Ele ouviu:
- Venha para casa. Não quero saber os motivos que o fizeram ficar longe, só te quero aqui. Venha logo, meu pai.
Ouviu aquilo incrédulo, esperava raiva e rancor e não compreensão e amor.
- Tem certeza, filha?
- Sim, tenho. Estamos te esperando, venha.
Sorriu e sentiu-se feliz como nunca, iria até eles claro. Mas antes, pensou, uma bebidinha para comemorar.
Duas semanas depois, encontraram seu corpo em seu casebre. Havia esperado tempo demais.

João Rogério Alencar.




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