Caminhava
feito um idiota, cambaleava na verdade. Estava bêbado, tão bêbado que não sabia
mais o caminho de volta para onde morava. Olhava morosamente entre as faixas
largas da passagem de pedestres, como que decidindo se ia ou ficava. Resolveu
ir, caminhou através da faixa ignorando o sinal fechado para ele, reteve-se por
alguns segundos, que na sua condição total de embriaguês deve ter levado horas.
Alguns motoristas esperaram ele passar, outros mais apressados aceleravam e freavam
durante o caminho incerto do homem. Devia ter bebido muito, mais do que jamais
bebeu, uma comemoração? Um afogamento de mágoas? Ele próprio não saberia dizer,
mas ele continuava rumando para seu destino que nem ele mesmo sabia. Ou sabia? A
cena era comicamente cruel, daquelas que nos fazem rir e sentir remorso ao
mesmo tempo. Conseguiu chegar ao outro lado ileso, graças à paciência de
alguns. No momento em que alcançava a calçada o sinal abriu para pedestres, ele
seguia seu caminho, pouco se importando, ou notando os olhares críticos de
algumas pessoas, assustados de outras e debochados de mais alguns. Seguia seu
rumo.
Ele ia e
vinha, mas seguia em frente e conforme caminhava não sorria, nem chorava. Só
ia. Um pouco à frente tropeçou num desnível de calçada e caiu. Seus braços
lentos, pelos reflexos prejudicados pela sua condição, não o acompanharam na
queda e seu rosto foi de encontro ao chão sem nada para aparar ou diminuir o
impacto. Outros segundos se desenrolaram, e ele lentamente sentou-se, para
depois levantar. Limpou com a parte externa da mão o sangue e continuou. Ninguém
o interrompeu ou ajudou. E ele seguia. Virou uma esquina, andou torto pela rua
seguinte, que era reta e finalmente chegou ao seu destino. Um casebre a meio
caminho de nada, das partes esquecidas e brutais da cidade. Abriu a porta de
casa com certa dificuldade. Olhou para dentro e na luz do crepúsculo ainda
conseguiu enxergar. Adentrou a sala, que era na verdade o único cômodo além do
banheiro. Sentou-se no velho sofá, pegou um retrato manchado pelo tempo, pela
vida e agora pelo sangue dele próprio em suas mãos.
Olhou
profundamente para a imagem e chorou. Chorou, pelo tempo que não teve, por
todas as oportunidades desperdiçadas e sobretudo pelos filhos que abandonou. Ali
estava só e bêbado. Foi ao banheiro, lavou o rosto e o corpo tentando se livrar
do cheiro e do gosto de álcool. Voltou à sala, deitou-se no sofá sem se enxugar, pegou a foto e dormiu.
Pela manhã
acordou, sem dor de cabeça e sem ressaca. Olhou novamente para foto no chão da
casa. Tomou mais um banho e resolveu mudar tudo. A solidão, a bebida e a sua
ausência da vida daqueles que ele gerou. Arrumou-se da maneira que pôde, colocou
sua calça menos surrada, seu par de meias menos furadas. Pegou a foto, colocou
no bolso da blusa junto com uns trocados sobrados do dia anterior. Foi até uma
banca de jornal, comprou o cartão telefônico e rumou ao orelhão, o único que
não fora depredado pela ignorância dos vândalos que habitam quase todos os
lugares. Estava vazio, mas quem usa orelhões hoje em dia? Parou, não tinha a
coragem de ligar e se ligasse, será que o número no verso da foto ainda
pertencia a eles? Eles o aceitariam de volta? Resolveu ser otimista pela
primeira vez na vida. Colocou o cartão e discou. Um toque, dois toques, uma
eternidade de toques. Alguém atendeu, ouviu um alô, que ele respondeu com um
débil e quase inaudível alô.
Um tempo
exaustivamente longo se passou, e a resposta ao seu alô foi:
- Pai? A voz
feminina perguntou.
- Sim. Ele
respondeu. E começou uma série de desculpas e choros, tentando se justificar,
tentando fazê-los entender seus motivos e seus erros. Até que depois disso tudo,
depois de todas as explicações que dera, estava pronto para ouvir um “Até nunca
mais”. Ele ouviu:
- Venha para
casa. Não quero saber os motivos que o fizeram ficar longe, só te quero aqui.
Venha logo, meu pai.
Ouviu aquilo
incrédulo, esperava raiva e rancor e não compreensão e amor.
- Tem certeza,
filha?
- Sim, tenho.
Estamos te esperando, venha.
Sorriu e
sentiu-se feliz como nunca, iria até eles claro. Mas antes, pensou, uma
bebidinha para comemorar.
Duas semanas
depois, encontraram seu corpo em seu casebre. Havia esperado tempo demais.
João
Rogério Alencar.
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