sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Corcel




Estava ajoelhado no campo de batalha, explosões incontáveis à sua volta, mas não importava. O soldado estava ajoelhado cansado daquela batalha interminável. Nem sabia mais o motivo por qual lutava e nem importava mais, mas sabia que um dos motivos fora o ódio, a raiva, o sentimento que permite ver quais são as faces verdadeiras de todos. Ele não ia se levantar, esperava o fim parado ali na lama, com a arma de lado, esperava pelo termino. Chovia e fazia frio, mas estava indiferente a isso, a batalha parecia que fora perdida na véspera, mas os outros soldados ainda lutavam, agarraram-se a esperança da vitória, como alguém aceita a água suja quando está quase morto de sede. Não ele, ele tinha desistido de beber.

Esperava pelo fim, esperava que o barulho acabasse, numa guerra que começou pela raiva, só poderia acabar pela raiva. Por isso escolheu ajoelhar e ficar parado, não queria que seu último sentimento fosse esse: de raiva. “Você é o responsável pelo mal que causou.” Ainda ouvia em seus pensamentos essa verdade crua. “As suas mãos estavam carregadas.” Ouvia também. E por fim seus pensamentos gritavam: “A culpa é toda sua, são danos irreparáveis, erros inegociáveis! Você aceitou lutar soldado, toda a culpa é sua, nada foi imposto a você.” Tinha consciência do que acontecia, sabia as conseqüências de se ficar parado no meio daquele lugar, mas não queria mais ir. Sair dali numa fuga inconseqüente seria ainda pior.  Ser um desertor não era uma opção, não, a saída era ficar ali parado, esperando pelo último barulho de explosão. 

Foi quando aconteceu, a despeito da improbabilidade daquilo, ele viu vindo em sua direção um Corcel, preto e branco, patas musculosas e pelos vistosos, indiferente também ao barulho da guerra e corria numa velocidade estonteante. Chegou até ele, deu três voltas e parou ao lado do soldado ajoelhado na lama. O cavalo olhou, e seu olhar dizia: “Vai ficar chafurdando na lama ou vai dar uma volta comigo?” Não era crível aquilo e, no entanto acontecia. Demorou-se um pouco para levantar devido ao tempo que passou naquela posição, segurou no dorso do Corcel e montou, quase na mesma hora o animal disparou, tirando-os daquele lugar detestável, daquela batalha sem sentido. A velocidade era muito maior que um cavalo poderia correr, mas ele não se importava, pois o vento levava suas últimas lágrimas de confusão. O soldado estava montado e cavalgava num corcel, no Corcel e apesar de não ter dúvida nenhuma, perguntou: - Quem é você? Porque eu? E uma voz na sua cabeça respondeu: “É você por que sua história precisava ser contada”. e continuou: “Eu sou um Corcel. Meu nome não importa.”

O soldado sorriu, fechou os olhos e começou a cair no sono e ainda sorrindo pensou uma última coisa: “A Esperança surge na lama e ora bolas, é um corcel”.

João Rogério Alencar.

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