Estava
ajoelhado no campo de batalha, explosões incontáveis à sua volta, mas não
importava. O soldado estava ajoelhado cansado daquela batalha interminável. Nem
sabia mais o motivo por qual lutava e nem importava mais, mas sabia que um dos
motivos fora o ódio, a raiva, o sentimento que permite ver quais são as faces
verdadeiras de todos. Ele não ia se levantar, esperava o fim parado ali na lama,
com a arma de lado, esperava pelo termino. Chovia e fazia frio, mas estava
indiferente a isso, a batalha parecia que fora perdida na véspera, mas os
outros soldados ainda lutavam, agarraram-se a esperança da vitória, como alguém
aceita a água suja quando está quase morto de sede. Não ele, ele tinha
desistido de beber.
Esperava pelo
fim, esperava que o barulho acabasse, numa guerra que começou pela raiva, só
poderia acabar pela raiva. Por isso escolheu ajoelhar e ficar parado, não
queria que seu último sentimento fosse esse: de raiva. “Você é o responsável
pelo mal que causou.” Ainda ouvia em seus pensamentos essa verdade crua. “As
suas mãos estavam carregadas.” Ouvia também. E por fim seus pensamentos
gritavam: “A culpa é toda sua, são danos irreparáveis, erros inegociáveis! Você
aceitou lutar soldado, toda a culpa é sua, nada foi imposto a você.” Tinha
consciência do que acontecia, sabia as conseqüências de se ficar parado
no meio daquele lugar, mas não queria mais ir. Sair dali numa fuga
inconseqüente seria ainda pior. Ser um desertor não era uma opção, não, a saída era ficar ali
parado, esperando pelo último barulho de explosão.
Foi quando
aconteceu, a despeito da improbabilidade daquilo, ele viu vindo em sua direção
um Corcel, preto e branco, patas musculosas e pelos vistosos, indiferente
também ao barulho da guerra e corria numa velocidade estonteante. Chegou até
ele, deu três voltas e parou ao lado do soldado ajoelhado na lama. O cavalo
olhou, e seu olhar dizia: “Vai ficar chafurdando na lama ou vai dar uma volta
comigo?” Não era crível aquilo e, no entanto acontecia. Demorou-se um pouco
para levantar devido ao tempo que passou naquela posição, segurou no dorso do
Corcel e montou, quase na mesma hora o animal disparou, tirando-os daquele
lugar detestável, daquela batalha sem sentido. A velocidade era muito maior que
um cavalo poderia correr, mas ele não se importava, pois o vento levava suas
últimas lágrimas de confusão. O soldado estava montado e cavalgava num corcel,
no Corcel e apesar de não ter dúvida nenhuma, perguntou: - Quem é você? Porque
eu? E uma voz na sua cabeça respondeu: “É você por que sua história precisava
ser contada”. e continuou: “Eu sou um Corcel. Meu nome não importa.”
O soldado
sorriu, fechou os olhos e começou a cair no sono e ainda sorrindo pensou uma
última coisa: “A Esperança surge na lama e ora bolas, é um corcel”.
João
Rogério Alencar.
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