O velho estava na estação e chovia. Com um guarda-chuva gigante, estava aguardando seu trem, mas não só isso. Pensava num verão, um verão memorável, um verão que teve a oportunidade de fazer tudo o que queria e sentir talvez a plenitude da alma.
Daquele verão de tanto tempo atrás nunca esquecera o calor que sentira numa véspera de ano novo. O calor súbito, uma paixão pueril, lembrou-se do desejo incontido, e como acreditava ser correspondido. Acreditou nisso com força, ou quis acreditar, mas a verdade era que era improvável, senão impossível. Aquilo nunca iria acontecer, não da maneira que sonhara, não da maneira que queria. Naquele verão sentiu pela primeira vez o doce aroma que ela exalava, sentiu com medo e pudor que o desejo era contido, mas estava lá. Estava lá e ela o sabia também.
Nos corredores sabiam que se encontrariam para um olhar, um aceno e um gracejo, mesmo assim não aconteceria, não da maneira que queriam. Estavam vivendo um sonho, como o de tantos pelo mundo afora, vivera um sonho que a maturidade dissipou e conforme crescia, nunca soube se era possível ou impossível, pois nunca tentara de fato. A lembrança disso corroia o que de bom ficara daquele desejo, daquele quase namoro. “Não” foi a palavra mais dita, mas era tão bendita que era quase um “Sim” velado, pela incerteza daquilo. Aquele subentendido incerto, era tudo que se permitia.
O verão o deixava amargo depois disso, pois sabia que nunca tentou, por medo da dor. Agora seus verões eram sem graça, tinham perdido a cor. Estava na estação de trem, pensando naquele verão que não choveu. Arrependia-se de nunca ter tentado, das palavras de despedida, das promessas num futuro que se configurava tão distante que era quase proibido pensar. Uma vez, quando contou esse caso a um amigo foi-lhe dito que tudo tem seu tempo. Nunca acreditou nisso. Achava que o que passou havia de fato passado.
Estava na estação e chovia. Mas do outro lado, em outra plataforma sorriam para ele, um belo sorriso, um sorriso igual à de um verão, tanto tempo atrás. Jamais esquecera aquele sorriso, afinal fora ele, o sorriso, que iniciara tudo. Então acreditou de verdade que tudo tem seu tempo. Um sorriso que valeu a espera de uma vida, cuja lembrança não mais corroia. Sorriu de volta, um gesto que esperou uma vida inteira para devolver. Que valeu cada segundo, cada segundo por causa de um sorriso.
João Rogério Alencar.
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