quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A descida

                    “Será que falta muito para chegar?”, pensou enquanto subia a grande costa da montanha, sabia que não deveria ter começado a subir, mas o desafio ficou gravado nele com tinta indelével. Na verdade começou a subir, não só pelo desafio, mas pela coisa nova que era aquela montanha, tão bela com os picos brancos como dentes de um belo sorriso, sabia que não devia ter começado, mas, faz parte da vida escolher desafios e lutar por eles. O mundo, os problemas, as aflições são assim, num mundo de facilidades, onde se pode comprar e ter tudo tão rápido, escalar uma montanha pode ser um imenso desafio, um dos maiores que o mundo moderno tem a oferecer. Mas era tão difícil, a montanha oferecia resistência nas suas rochas soltas e seu cascalho pequeno, e ele ainda não sabia por que estava subindo, mas subia sem parar, pois o desafio era o que o movia, mas não o motivo principal.
                O motivo ele não sabia, mas nessa altura nem queria saber, queria o topo, era no topo (ele achava) que saberia a razão por ter subido. Pulou de um lado onde a montanha tinha sua curva mais perigosa e por pouco não caiu, mas consegui se agarrar e faltava tão pouco agora. Enquanto subia, pensava na vida, na sua é claro. Nos caminhos que percorreu, andou, correu e ofegou até ali. Era uma vida boa, com problemas e soluções como a grande maioria. Sua vida tinha certa coerência com aquele desafio, certa semelhança com tudo que passou, tinha medo em determinados momentos, nenhum em outros e ia passando pela vida, como tantos que passaram, porém não agora, agora era ele que tomava as rédeas e subia com determinação ímpar, determinação dos vencedores. Estava quase no topo quando olhou para baixo, mas tento subido devagar, quase não sentiu a vertigem que deveria sentir. O topo o olhava, altivo e soberbo, mas impotente diante do fato consumado que era a subida dele. “O topo enfim.” Chegou ao topo com esse pensamento, fincou seus pés na parte mais alta e contemplou o imenso azul do céu, sentia o vento, sentia o sol mais puro naquele lugar. Entretanto não sabia ainda o motivo de ter subido. Fechou os olhos. E então descobriu. Não foi pelo desafio, isso era uma bobagem no fim das contas, subiu (ele agora sabia) pelo silêncio, pela vista, pelo vento, pelo céu azul e principalmente subiu porque, depois do topo só lhe restava descer. Por que de alguma maneira ele sabia que agora se sentiria mais vivo pelo resto da vida. 
                                                                                                                                 João Rogério Alencar

Nenhum comentário:

Postar um comentário