Houve Uma vez uma manhã, seria uma manhã comum, um começo de dia normal. Mas havia algo no ar, algo perene, imutável e eu teria passado por essa manhã sem perceber nada anormal, senão fosse o ar. Existia alguma coisa nele que inspirava. Um ar frio numa manhã quente. Um ar que dava uma vontade ainda maior de viver havia algo vivo nele, que deixava suspenso, quase como no mar.
Houve uma vez essa manhã e ela trazia esperança no ar, um último afago, uma última palavra de carinho. Deixei-me levar, transportado a revelia de minha vontade, essa manhã que não era (como percebi eventualmente) de fato comum, me levou ao alto e no ar olhei para baixo e me vi criança no corredor da casa de trás, talvez a última casa da inocência.
Essa manhã, cujo ar me levava de volta a infância de minha memória, seria curta e limpa, porém seria inesquecível. Houve uma vez uma manhã, mais límpida que outras que me mostrou a clareza que deveria ter em vida. Uma lição que temo, esteja esquecida por muitos. Descobri que essa manhã é algo pessoal, você não deve buscá-la, mas tem que a perceber quando surgir. No ar me vi e entendi que havia um aprendizado nisso, mas qual era a lição? O que eu deveria saber?
Vi que o menino que eu era saía, ia em direção ao centro do bairro de minha infância, ia decidido, com um alvo específico (ao que parecia) em mente, caminhei pelas ruas e de repente o menino para numa loja e compra algo. O que eu comprei naquele dia? Não vi que loja era, nem o que foi comprado, mas vi que voltava para casa.
Ia com que tinha nas mãos, então de lá de cima vi o que carregava o garoto que fui e sorri e me lembrei desse dia. Atravessou o corredor que dava no quintal da casa e foi em direção à mulher que estava no tanque esfregando roupas. Parou em frente a ela com as mãos para trás e a mulher parou o que fazia e o olhou. Então o eu garoto entregou o que trazia. Era uma flor, uma rosa. Um pequeno e incólume gesto de amor. Algo tão poderoso quanto simples. Então entendi o que aquela manhã dizia quase como um sussurro.
A lição pertence a mim, mas o gesto, aquele gesto, ele também é um aprendizado para todos nós. A bondade reside naqueles que a fazem sem perceber e sem perceber mudam o mundo para algo melhor.
Minha lição? Ela é minha, como já disse, mas sempre existirão manhãs de lições para aqueles que estão atentos.
João Rogério Alencar
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