Foi
de voadora que ele chegou. Eu havia me metido numa briga que não poderia
ganhar. O meu advesário era bem maior que eu, mais velho e havia me encurralado
contra uma parede. A briga estava perdida. Só me restava proteger o rosto e
tentar amenizar os futuros hematomas, foi quando ele chegou. Meu irmão! Ainda
menor que eu, dois anos mais novo e com a coragem que somente os menores e
melhores tem. Ele foi de voadora nas costas do meu agressor, uma voadora linda
de fazer inveja a qualquer filme de ação, que ele me deu o tempo necessário.
Desnecessário dizer que sairmos correndo seria o mais certo, pois mesmo sendo
dois ainda assim não éramos páreo para nosso algoz, mas não fizemos isso.
Lutamos, perdemos, mas perdemos juntos. Depois disso ficamos ainda mais unidos,
várias vezes defendemos um ao outro, foi uma amizade nascida pela necessidade
que tínhamos um do outro. Precisávamos disso, pois era isso ou encarar o mundo
sozinho. Lembro de outros momentos geniais que aprontamos juntos, quando nos
uníamos para acabar com a tirania da irmã mais velha (Você era tirana não negue),
ou ainda quando nos apoiávamos para tentar suprimir a ausência de alguém que
não deveria ter importância, mas que significava tanto.
Nesses
momentos, que eram os mais doloridos, é que nos uníamos mais, como se nos
apoiar fosse só que pudéssemos fazer. Era bem assim, nas tardes em que brincamos
juntos nos nosso clube do Homen-Aranha e do Hulk. Em alguns momentos confesso
que o invejei, por ser mais querido, mais bonito, mais agradável, mas passou
quando percebi que não era inveja o que sentia e sim admiração. Uma admiração
sincera e fraterna, daquelas que só podem surgir entre irmãos. Tenho alguns
amigos por aí, alguns eu escolhi, outros a vida se encarregou de me mostrar que
eram amigos, mas gostei de perceber com o passar do tempo que além de irmãos,
éramos amigos. Foi quando eu percebi,
para minha total surpresa que ele também me admirava, se espelhava em algumas coisas que
eu fazia. Tinha em mim um referencial que deveria ter sido outra pessoa. Certas
coisas acontecem para nos mostrar como podemos perceber o quão valioso é nascer
sem nada e ter tudo. Eu tenho tudo porque sempre o tive, e ele sempre teve à
mim. É esse tipo de coisa que alguns não entendem, mas não importa. O que
escrevo aqui não é para ele, nem para mim. É só para deixar tranquila a pequena
que está por vir. Para avisá-la que se precisar o pai dela chega de voadora.
João Rogério Alencar.
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