quinta-feira, 25 de abril de 2013

A comemoração do menino.



Acordou às quatro e meia, sem noção que era madrugada ainda, pegou-o no berço e tentou por uns minutos nina-lo, mas ele não queria mais dormir. Com os olhos bem abertos, estava sorrindo, brincalhão jogava-se nos braços do pai avisando-o que não iria mais dormir e o pai atento sorriu, mas tinha que trabalhar a três horas, três horas de sono que não teria mais. A criança sorria e queria brincar, era seu tempo, pois se não há noção de tempo então qualquer horário é bom para se fizer o que bem entende.  Estavam ali, os dois; o bebê insone e o pai sonolento. Qual dos dois estabeleceria sobre o outro sua vontade? Nunca tinha feito aquilo de acordar e continuar acordado, sempre acordava, sorria e voltava a dormir. Não dessa vez. Dessa vez ele queria brincar, gritar também e bater com suas mãos para fazer bastante barulho. O pai o colocou no chão e estava feita a vontade dele, saiu correndo um pouco bambo por ainda não dominar totalmente a arte de andar, mas estava ali, pronto para se divertir. Madrugada acima ele foi, e corria sem jeito pela casa e o pai ia atrás, já desperto pela preocupação do que o menino poderia fazer. Resolveu colocar uma barreira e manter a diversão da criança na sala, o pai deitou no sofá e ficou a observar até quando seu filho ia sem cansar, deveria ser logo, tinha que ser logo, pois ele, o pai, estava muito cansado e pronto para dormir novamente, mas nada. O dia amanhecia e a criança não havia dormido, não pregou os olhos no que restara da noite e continuava a todo pique.
Não entendeu o comportamento de seu filho, porque ele havia se comportado daquele jeito e logo durante a noite, numa felicidade vista e se não fosse pelo sono do pai, até mesmo contagiante. Aborrecido, pegou o filho já lhe deu um banho, não sem protestos e gritos reclamantes e colocou sobre o trocador. O menino gritava e de manhã chorava pela brincadeira interrompida e o pai num rompante de irritação deu um tapa na coxa do garoto. O choro dessa vez veio de verdade, com lágrimas e mais gritos. O pai arrependeu-se na hora do ato, mas não o disse e nem se desculpou com seu filho. Terminou de arruma-lo e o levou para creche. No caminho do trabalho, pensou diversas vezes no ato impensado que cometera. Remoendo sua culpa e triste ficou o resto do dia. Já perto do fim do expediente, recebeu a notícia que tanto aguardava há certo tempo já, tanto tempo que já tinha até esquecido que à esperava. Era boa, a notícia, era o que ele esperava e realmente ele conseguira. Pensou logo no filho, no seu ato injustificável de impaciência e foi então que percebeu. O comportamento do filho na madrugada era isso, estava comemorando com o pai, por isso as risadas e as brincadeiras, como a criança pressentira o que estava por acontecer e a notícia que ia receber o pai nunca soube, ele só sabia que seu filho estava comemorando.
Mais envergonhado ainda do que fez, foi o pai ao encontro do pequeno menino. Estava ele já o esperando. Pediu-lhe desculpas e envergonhado o abraçou. O menino sorriu e o abraçou de volta, porque as crianças nascem sabendo perdoar.

João Rogério Alencar.

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