Era noite, o sono não vinha, seus olhos se fixavam na parede, incapazes
de se fechar, incapazes de conter as lembranças, parado parecia que esperava,
esperava algo que certa vez deu como certo de acontecer, mas que a dúvida se
encarregava de negar que fosse agora crível de ocorrer. A dúvida se encaminhava
ao seu peito como um projétil impossível de parar. Um receio que o assaltava já
naquela hora tardia. Pensava em coisas vãs e em atitudes suspeitas. Pensava no
tempo que passou voando pelos seus vinte e tantos. Era uma noite fria, bem
incomum para aquela época, tanto que as portas de casa foram fechadas ou
deixadas entre abertas para impedir o vento frio de entrar. Seus pensamentos
lhes davam as sensações de que algumas escolhas foram incertas e outras apesar
de certas foram incorretas eticamente.
Alguma hora durante esse devaneio que foram ouvidas as batidas e foi visto
um vulto. Era alguém encostado junto à porta e era muito parecido com ele. Os
mesmos gestos, as mesmas roupas, a única coisa diferente era o jeito de falar e
o que ele começou a falar foi um monólogo daqueles só capazes de serem feitos
por quem conhecem seu ouvinte. Sem esperar o vulto que se apoderava da palavra
diante da mudez do seu semelhante, começou a falar:
- Vamos logo meu amigo, não temos o tempo todo pela frente. Vamos
embora que o tempo não precisa de nós para passar. Não fique esperando por algo
que não vai acontecer. Você tinha planos se bem lembro e eram bons planos,
planos que te deixavam em primeiro plano. Planos principais, sonhos que seriam
prioritários e reais. O que aconteceu com você? Porque a apatia antipática? Não
responda se souber. Não é interessante o que tem a dizer hoje, só lhe é
interessante o que tem a ouvir. Num outro você inserido num passado nem tão
distante, nós não teríamos essa conversa, agora você imagina o quão
desagradável é isso? Eu ter que sair de um passado confortável, vir ao seu
presente e conversar sobre seu futuro. Há de convir que talvez tenha havido
insensibilidade de sua parte, mas não te culpo, não por isso.
“Culpo você pelo tempo, tempo que não voltará. Não se sente sobre uma
autopiedade enganosa, levante-se! Há mais em você do que tudo o que jamais
sonhou vir a ter ou ser. Não adianta temer o que está por vir. O futuro se
configura diante de ti, não sente o vento que entra? Acho que a mediocridade
que escolheu te deixou inerte.” Ele parou de falar. Respirou e continuou, pois
o outro que ouvia percebeu (talvez tarde demais) que aquela seria uma conversa
de mão única, ele era o ouvinte, o aconselhado da noite. O discurso prosseguiu revelando
a ele uma sombra ativa do passado. Aquele que falava era alguém que ele
conhecia bem, era ele mesmo, confessando a tristeza pelos sonhos e rumos não
seguidos. Era ele mesmo se cobrando uma explicação do porque as decisões
tomadas não foram cumpridas.
- Antes de acabar o que tenho para falar, devo dizer que você fez algumas
escolhas boas na vida. Mesmo assim estou aqui para falar das boas escolhas que
você não tomou! Aquelas que deveria ter conseguido seguir, aquelas que de
alguma maneira te levariam a outro lugar e por consequência não me traria aqui.
Ora deve estar pensando que não deve importar o que passou, mais importa.
Importa quando ainda dá tempo para continuar de viver os bons planos que tinha.
É simples se pensar bem, na verdade eu estou aqui como uma maneira de cobrança.
- Estou aqui, mas a escolha é
sua, no fim das contas só isso importa: Sua escolha!Mas qual será? Ficar aqui,
ouvindo críticas de soberbos ignorantes que julgam sem nem ao menos sair da
cadeira, que enlouquecem quando você mostra novas ideias e ideais? Não acredito
que será essa sua escolha. Ela lhe compete, mas como me diz respeito aqui vai
um conselho. Não se abata! Lute pelo que acredite, você não merece a
mediocridade que lhe impõem, és mais que isso. Termine o que começou e seja o
gênio que eu sempre quis ser. Saia daí e viva!
Nesse momento, um vento forte bateu a porta e num sobressalto ele
levantou. O devaneio sumiu, seu crítico mais sincero se foi para nunca mais
voltar. Num rompante ele decidiu que mudaria sua vida e refaria seus melhores
planos. Seria a melhor pessoa possível, seria um artista e um sonhador. Seria o
que sempre quis e sentiria a boa sensação de plena satisfação por um feito
realizado. Percebeu o silêncio no cômodo vazio e resolveu que mudaria de vida,
mas só no dia seguinte, porque ninguém muda de vida às três da manhã.
No dia seguinte acordou e constatou que não mudaria nada, pois é
complicado segurar as rédeas do próprio destino.
João Rogério Alencar.
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