domingo, 28 de março de 2010

Tempo nublado




Ando irritado, não sei o porquê mas tenho algumas teorias, umas absurdas outras nem tanto, mas enfim estou irritado e essa é a questão central. Fico imaginando cenários onde descarregar minha raiva, onde eu posso usá-la para algo mais construtivo, onde não afete as pessoas mais queridas e próximas, onde talvez sirva para alguma coisa, mas não sei onde, nem sei se devo me desfazer dessa raiva, é algo controlado, não deixa de ser um sentimento ruim, mas gosto de pensar que se posso controla-la não deve ser tão ruim assim.
         A raiva é algo inerente ao ser humano, algumas pessoas a sentem o tempo todo, outras (mais nobres de caráter, acho eu) passam por cima, como se não fosse nada além de uma incômoda picada de mosquito, mas a minha não é constante, nunca foi, parece mais com algo que vem e vai, como ondas num mar ora calma, ora turbulento. Sempre tive isso desde que eu tive o dissabor de experimentar a traição de alguém querido, e faz parte de mim, pois esse mau humor já é característico para aqueles que me conhecem e gostam de mim, mas ultimamente tenho ficado com mais raiva e por longos períodos, como se algo pressionasse minha nuca constantemente, eu o que essa pressão significa. A responsabilidade de uma nova vida, pautada somente pelas minhas escolhas.
         Penso em tudo que eu posso fazer para diminuir e me perco em teorias de como deve nascer o sentimento de raiva e me pergunto como deve ser para alguém que tem uma ideologia forte e virtualmente incontestável ver essa ideologia tombar, tal qual viram os comunistas tombando o muro de Berlim há duas década atrás, deve ser como se arrancassem uma parte sua, por isso eu acredito que todos uma hora na vida tem que se apegar a algo. Ao trabalho, a religião, as idéias políticas, as idéias naturalistas, ao ecologicamente correto, ao politicamente correto, a boa alimentação e é claro ao amor. Qualquer uma dessas escolhas propostas é algo plausível de acontecer com qualquer um, mas minha raiva continua, pois não penso se essas coisas me ajudariam de fato.
         Um olhar diferente do mundo é isso que eu preciso, olho pela janela e vejo o tempo nublado indiferente ao que sinto, e de repente me lembro, das enchentes de verão no fim  e começo dos anos, me lembro das mortes infligidas pela natureza, regresso mais ainda no tempo  e vejo as mortes e a dor das famílias em guerras e atentados terroristas, bombas atômicas e campos de concentração, verdades e mentiras de um mundo entortado por seus filhos mais inteligentes e menos sábios, todos os poderes contra aqueles que não se defendem mais e contra aqueles que se defendem até o fim, com alegria na esperança de tempos melhores, dos sorrisos de seus filhos, da bondade que vez ou outra ilumina esse mundo obscurecido por medos e ressentimentos. Sobressaltado e arredio eu me vejo aqui novamente e olho envergonhado para a janela e depois de todas essas visões e recordações desgostosas, eu penso: “e eu aqui com toda essa raiva.”      


João Rogério Leite

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