Saí às 17:05 e era um dia desses em que o sol brinca com as nuvens sem saber se fica ou as deixa molharem todo o chão e fui em direção ao ponto de ônibus, pensando na vida, no ponto exato que ela se encontra, pensando em algumas dívidas, na expectativa gerada pela iminente chegada do bebê, na noção de espaço que eu teria que ter para terminar a arrumação do quarto dele e tentando imaginar qual seria seu rosto e seu sorriso. Enfim, estavam nesse ponto meus pensamentos e eu lá no ponto abrigado pelo meu guarda-chuva, quando um senhor me pergunta:
- Que horas são? Ele estava molhado, mas não parecia se importar com isso.
- 17:11, respondi.
- Tempos difíceis, não é meu filho?
Não entendi a pergunta de início, achei que ele iria somente agradecer e ir embora ou esperar o ônibus que lhe cabia. Não sabia o que responder e surpreso que estava só pensei na resposta depois que a dei:
- Não difíceis senhor. Talvez mais carregados de responsabilidade sem dúvida, mas não são os mais difíceis que já passei. Por que a pergunta?
- Seu semblante preocupado me fez perguntar, mas eu sou só um velho afinal. O que eu sei? Respondeu.
E continuou:
- Sei de que tudo vai melhorar, eu, por exemplo, estou molhado. Entretanto sei que vou me secar, sei também que o sol não se perdeu entre as nuvens e sei que o calor dele ainda faz tudo viver por aqui.
“Sei e acredito que suas preocupações meu jovem serão sanadas, deverá passar por algumas provações sem dúvida, mas tudo vai dar certo no final. Pense em coisas alegres e tente viver mais as suas alegrias e os sabores que ela traz. Minha vida foi um alto e baixo de emoções, vivi plenamente, mas só vivi assim porque tinha alguém me apoiando, nunca se esqueça disso. Alguém que te ajudou a se levantar sem esperar nada em troca a não ser seu afeto e sua compreensão dê isso a ela e mostre que é capaz de amar.” Concluiu.
O senhor todo molhado me dando conselhos de vida, achei muito surreal aquilo e na verdade engraçado até, mas o ouvi com atenção, pois todo mundo precisa de um pouco de atenção às vezes, principalmente as pessoas mais velhas que tem sempre algumas histórias para contar.
- Lembre-se meu amigo, o sol sempre estará lá no alto nos brindando com seu calor vital. Ame muito aquela que está ao seu lado e eu sei que você ama só não se esqueça disso. Falou isso e se afastou pingando, todo molhado e naquele exato momento o sol apareceu de entre as nuvens, então não me contive e perguntei:
- Mas.. Quem é o senhor?
- Ainda não sabe João?
E falando isso se foi, me deixando boquiaberto num fim de tarde esplendoroso.
João Rogério Alencar.
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